A cor da exploração

Jacob Zuma, Gwede Mantashe e Zwelinzima Vavi celebram a tripla aliança. Uma vez mais o socialismo fica para depois.

“Devem ser reeleitos os principais dirigentes da organização, entre os quais o secretário-geral Zwelinzima Vavi, num sinal de que os sindicalistas procuram reforçar a unidade da central, numa altura em que se continua a registar greves, algumas ilegais, manifestações e confrontos com a polícia na zona mineira de Rustenburg, onde em meados de Agosto morreram 44 pessoas em Marikana.

O presidente sul-africano, Jacob Zuma, discursando na abertura do congresso, enumerou os avanços registados no país desde a queda do apartheid, em 1994, e sublinhou a importância da aliança entre o Congresso Nacional Africano (ANC), a COSATU e o Partido Comunista Sul-Africano (PCSA) para o aprofundamento da revolução democrática nacional. Sobre a situação na mina de Marikana, Zuma reafirmou que empregadores e trabalhadores têm mecanismos previstos nas leis do país para estabelecer relações laborais pacíficas, sem necessidade de recorrer à violência. E considerou que é imprescindível restaurar a paz laboral e a estabilidade nos locais de trabalho, pelo que as autoridades adoptaram medidas adequadas para conter a violência, sem que isso signifique retirar direitos aos mineiros e às populações.

Zuma criticou ainda os «irresponsáveis» e «oportunistas» que estão a utilizar «sem vergonha» uma tragédia para fazer propaganda política «em vez de colocar em primeiro lugar os interesses dos trabalhadores e do país», numa referência a Julius Malema, antigo responsável da organização de juventude do ANC, de onde foi expulso, e ultimamente muito activo nas zonas mineiras.

Também os comunistas sul-africanos fizeram ouvir a sua voz no 11.º Congresso da COSATU, em especial através da intervenção inicial do seu secretário-geral, Blade Nzimande, que abordou a defesa das conquistas da classe operária e propôs que a tripla aliança no poder deverá assumir a responsabilidade de fazer avançar a revolução democrática nacional.”
Excertos e destaques da minha responsabilidade. Leia na íntegra no Avante.

O texto continua, numa tentativa freudiana de actualizar a caracterização da tripla aliança que governa o país. Neste contexto, apesar de merecer um tom ultimatista – “Os dirigentes do ANC sabem bem que a exploração não tem cor. E que, mais cedo do que tarde, terão de optar claramente entre aprofundar e fazer avançar a revolução democrática nacional ou traí-la.” – e de fazer uma constatação tardia – “uma nova burguesia, que ganha poder no interior do ANC” – os três timoneiros do novo apartheid continuam a ser vistas como as únicas entidades portadoras do futuro e da emancipação da África do Sul.

Para o PCP como para o seu congénere, apesar de não estarem isentos de desafios, nunca de culpa, a clique de Jacob Zuma, de Gwede Mantashe e de Zwelinzima Vavi, vai poder continuar a matar seja por intermédio das forças de ordem, seja recorrendo aos fura-greves da bem alimentada aristocracia sindical.

À equação apresentada pelo Avante continua a faltar tudo, da natureza das lutas concretas, às consequências da significativa redução da base social de apoio, nomeadamente entre os trabalhadores.

Na luta de classes não se pode ficar em cima do muro e a verdade mostra que as vitórias que a classe operária anda a festejar em Marikana, dos aumentos salariais à suspensão dos processos judiciais, são simultaneamente derrotas do ANC, da COSATU e do governo de Zuma. Este facto incontestável, este amargo de boca, devia deixar qualquer comunista a pensar, já que parece deixar muito poucos insatisfeitos.

Ler também, em jeito de “Cadernos de Marikana”, sobretudo pelos camaradas com solidariedade selectiva: E de repente David responde a GoliasE agora, mandam-se prender todos os mineiros?Mineiros de Marikana formam “comitê de guerra” (palavras deles)Marikana, um exemplo; Os que lutam*A CGTP quer julgar os grevistas na África do Sul?A CGTP está disposta a fazer cá o que aplaude na África do Sul?“Criação da Burguesia”Alguém perdeu de vez o juízo na Soeiro Pereira Gomes
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