“4:44, último dia na Terra”, de Abel Ferrara

O novo filme de Abel Ferrara é um filme apocalíptico, sobre as últimas horas de existência do planeta Terra, pelo menos tal e qual o conhecemos. Contudo, desengane-se quem espera suspense épico, extra-terrestres, explosões e luta cliché pela sobrevivência. Embora em moldes completamente diferentes, porque aqui o fim do Mundo é uma realidade assumida e conhecida, é, abordando um tema semelhante, uma obra tão contemplativa e realista (no contexto do tema) quanto o fabuloso Melancolia, de Lars Von Trier.

Quase toda a acção está focada num casal, Cisco (Willem Dafoe) e Skye (Shanyn Leigh), e na forma como desfrutam os derradeiros momentos. Há algumas referências às razões naturais que levaram ao fim, à destruição da camada do ozono pela irresponsabilidade ambiental humana (Al Gore surge como profeta), mas a principal e mais profunda reflexão está na reacção humana à catástrofe fatalista. O escape através da droga, a última relação sexual, o amor sem exigências em troca (ou haverá sempre algo?), a manifestação artística final como reflexo do caos e do estado de espírito, as respostas esotéricas da religião, a despedida, as reconciliações, os pequenos prazeres, o humanismo e a partilha (muito emotiva a cena da entrega do jantar por um jovem vietnamita), a perda de significado de questões como o dinheiro ou o show-off televisivo… tudo isto são pormenores que compõem uma bela análise existencialista sobre a condição humana num momento de fim colectivo.

Num filme lento, sem grande acção e consignado a um espaço reduzido (quase tudo se passa no apartamento de Cisco e Skye), Ferrara tem o bom-senso de não esticar demasiado a corda em termos de tempo. Apesar de uma ou outra cena escusada (o devaneio de Cisco na varanda é pouco credível), os 80 minutos de 4:44, último dia na Terra são perfeitos e culminam num final lógico e interessante, acompanhado por uma banda-sonora em toadas rockabilly dormentes e negras. Para os suportar, estão duas interpretações superlativas de Dafoe e Leigh, expondo na perfeição a forma intensa como, de modos bem diferentes (ele de forma falsamente mais racional, ela de modo mais excêntrico e descontrolado), vivem o drama e o desnorte das últimas horas da humanidade.

Uma boa surpresa, reinventando o cinema apocalíptico através de um formalismo sóbrio e sem grandes efeitos técnicos, permitindo que o conteúdo consistente do argumento valha por si mesmo.

7/10

P.S.: Depois da pausa cinematográfica, voltamos à luta aqui ou aqui

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