Um caso semipatológico?

Vamos analisar um caso semipatológico?

Parece-me que Vítor Gaspar tem 52 anos de idade. Poderia eu dizer a brincar que como o próprio diz ter lido Marx aos 17 anos (todo?, um parágrafo?, qual?), passou depois cerca de 35 anos a experimentar outros modelos teóricos: ora, como não deve ler livros de ficção ou assistir a concertos apetece-me supor que o homem passou concretamente estes seus últimos 35 anos a ler, estudar, tentar aplicar academicamente o seu ídolo Milton Friedman, enamorando-se de Thatcher, dos ministros das Finanças de Pinochet, etc.

Adiante. Não é este o ponto.

Acontece que aos 51 anos de idade (o ano passado, digamos) tem como certo que a descida da Taxa Social Única (TSU) é um modelo teórico apenas. Suponhamos que se licenciou por volta dos vinte anos (já tinha lido o tal Marx!); então quer dizer que sabe desde há muito (30 anos, mais ou menos, um pouco mais um pouco menos, não sei) que a descida da TSU é apenas um modelo e uma experiência académica. Ou nunca pensou no caso? Ou só pensou no caso quando Passos Coelho o chamou? Não sabemos.

O que o fez agora, com a idade que tem e o “currículo” que tem (artigos colectivos publicados, pouco mais), mudar de opinião? Depois de muitos anos de economista (creio eu, pois nunca ouvi falar neste homem; parafraseando a “tia” beta ridícula M. Filomena Mónica, sempre passei bem sem este nome “Vítor Gaspar”), depois de anos e anos de economista, dizia eu, o que o fez não só mudar de opinião, mas achar que a descida da Taxa Social Única vai, nos próximos 2 anos, criar 50 000 empregos?? Uma vida inteira para isto!…..

Num ano apenas o homem conclui algo que nunca tinha reparado ou concluído em décadas e décadas de trabalho, suponho que, agora, não apenas com modelos teóricos. O que se passou neste último ano para V. Gaspar passar de contrário ao “experimentalismo com os portugueses” para favorável a uma medida que já não acha “experimental” mas contribuinte para a descida da taxa de desemprego? Diz ele que foi um ano de estudos.

Que estudos? (Alguém sabe? É que me deixei dormir, no sofá, durante a conferência de imprensa do citado.)

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9 respostas a Um caso semipatológico?

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  2. De diz:

    Gaspar é o resíduo ideológico da escola de friedman em Portugal.É-o no experimentalismo, tal como o seu mentor que executou friamente as suas políticas no Chile de Pinochet.É-o na assunção cega dos princípios neoliberais e na indiferença com que ordena as suas “acções” em prol das “empresas milionárias” e dos chefes sem rosto.A teta e o manto protector da UE e da troika pairam sobre esta “coisa”.Cumpre a sua missão e a sua missão é este caudal de miséria e asco que o torna a cada dia que passa mais parecido com os ídolos sinistros que professa.

    Hoje esperava-o uma manifestação em frente à SIC que lhe foi beber os esgares.
    http://www.ionline.pt/portugal/dezenas-manifestantes-esperaram-vitor-gaspar-na-sic
    As imagens infelizmente não mostram a chegada do carro.Mas quando interrogado pela jornalista assume relevo a forma como tenta fazer piada pela forma como foi recebido.Mas sobretudo sobressai o modo como ele se refere ao sucedido, não como uma “manifestação espontânea”, mas sim como uma “manifestação orquestrada”.
    Não sabe gaspar que a teoria da geração espontânea foi chão que deu uvas e que somente em recônditos fundamentalistas em “escolas” nos EUA é que continua a ser apresentada como modelo válido?Não sabe gaspar que tal seria mesmo impossível, dada a chegada apressada da sua viatura,escondido dos olhares do público?
    É indisfarçável o olhar incomodado e a carranca dura como ele qualifica a manifestação como orquestrada.Como se ele não orquestrasse à boa maneira do aprendizado germânico, todo o seu bolsar de “político salazarento”. E não soubesse que orquestrada é toda a sua política económica a caminho de outros objectivos bem conhecidos.
    Alguém diga ao simulacro de friedman que por enquanto ainda não são proibidas as manifestações públicas de repúdio pelos chacais em funções.E que há todo o direito de lhe chamar gatuno e de o mandar ao raio que o parta.

    Entretanto ele maquilha-se. Adivinha-se já o personagem de óculos escuros e a fazer a saudação tipica.

    (Só se perdem as que caem no chão, caríssimo Carlos Vidal).

    • Carlos Vidal diz:

      Já não sei se a personagem é parva ou se se faz, mas certamente parva não é. Ele sabe que é precisamente na amplitude dessa “orquestração” (como lhe chama no post acima o Rafael) que se joga o futuro dele, Gaspar, ainda ministro – acabaram-se os espaços de liberdade. E é claro que nós sabemos o que é isso – é precisamente na organização, com a organização, que esta gente cairá. E já falta pouco. Vai fazer companhia a Constâncio, mas vai percebendo que cada vez tem menos portas de saída e de entrada.

  3. Justiniano diz:

    Eu, caríssimo Vidal, não me deixei dormir mas o aparelho estava mudo pelo que apenas vi o filme do Gaspar! Tenho o Gaspar como um tipo sério. Tinha-o como o tipo certo para personificar a redenção de todo o Portugal, o cordeiro no altar sacrificial! Tinha-o como a adága do purgatório, sangrando lambões, futriqueiros e adeptos de toda a turpitude!!
    Mas que no filme, mudo, revi um olhar que de há muito conheço bem!!

    • Carlos Vidal diz:

      É o olhar de quem não cumpriu nenhuma profecia: nem a redenção, nem a perdição (isso é, como se vê, para ir “devagar”), nem as profecias dele próprio (dele, ele terá algumas?). A ignomínia está-lhe indisfarçavelmente nos olhos, é o que é e nada mais. (Vamos viajando, como diz o poeta: “eu não evoluo, viajo”.) Viajando. Vigilando.

      • Justiniano diz:

        É o olhar de Paulo sem Cristo!! (Ele vai, como diz o outro poeta, com ironias e cansaços nos olhos, construindo desumanidades, por ali) Daquele que lança ao altar o seu irmão que abusou da frugalidade e porque dela abusou!!

        • Carlos Vidal diz:

          Trevas me descreve o meu caro amigo.
          É isso mesmo, apesar de eu não ter pensado nisso desse modo.
          Mesmo os não crentes “famosos” Lacan, Badiou, Zizek, sabem o que isso representa: é o olhar daquele que nada sente por nada, olhar sem amar.
          Porque Paulo depos de Damasco (“Gálatas”, “Romanos”) sabe afirmar que aquele que ama cumpre a Lei!!
          Amor é Lei, o que é algo de certo modo ilegal: basta amar para cumprir a Tora, diz Paulo. Desse modo, o amor não está nem dentro nem fora da Lei, é revolucionário – ignora a Lei. A “máquina gaspar” está fora, obviamente, desta nossa conversa.
          O olhar de Paulo sem Cristo……………….

          • Justiniano diz:

            Perfeitamente, meu caro Vidal! A lei eterna e a evidencia da lei natural!! Só a ausencia da consciencia pode ignorar a lei natural!! Ignorar acintosa e enfaticamente!! Pena!!

        • Justiniano diz:

          (explicando: Na austeridade, ou melhor, na correcção havemos, sob pena de impenitenciável infamia, salvaguardar o salário daqueles nossos irmãos que o recebem no limiar da grandeza mínima!!)

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