Gatunos, gatunos

O comício de enceramento da Festa do Avante! revelou-se, mais uma vez, como um dos mais participados comícios no calendário político nacional. Merece a pena ler o texto da intervenção, donde destaco o seguinte apelo a uma larga frente de combate anti-monopolista:

«todos aqueles que vivem as dificuldades e as agruras de uma vida cada vez mais difícil, já se aperceberam que [a política das Troikas nacional e internacional]  não pode ser o caminho. Que o caminho, passa por questionar todo o processo de integração capitalista e lutar por um outro rumo, oposto ao actual, para a Europa. O caminho passa pelo fim das imposições supranacionais do Pacto de Estabilidade, do tratado orçamental ou da governação económica. Passa por uma cooperação entre Estados soberanos iguais em direitos. O caminho passa pelo direito dos povos de decidirem dos seus próprios destinos e exercerem plenamente a soberania que neles reside.

Daqui queremos afirmar, com toda a clareza, que este partido nunca abdicará do direito do povo português de decidir dos caminhos do seu desenvolvimento e que, face a alterações na União Europeia decorrentes da profunda crise que a corroi, tudo faremos para que o povo português não seja ainda mais penalizado pelas consequências de uma integração na zona euro que como PCP sempre afirmou seria profundamente lesiva dos interesses do nosso povo e do nosso país.

Perante a iniludível gravidade da situação do país, a concretização de uma alternativa à política de direita não é apenas uma necessidade que se tornou urgente e inadiável para salvar o país da catástrofe iminente, mas uma possibilidade que a luta pode tornar uma realidade.»

Por não estar presente no transcrito do texto – foram momentos improvisados, que podem ainda ser ouvidos no video – deixo em texto as seguintes passagens:

(~15:15) «Eles terão sempre alternativa [referindo-se às portas abertas nas privadas aos que passam no Governo impondo sacrifícios ao povo]. Aliás, ao ouvir Passos Coelho depois daquela declaração, a escrever que tem muita pena destas medidas, que está a fazer isto para tratar do futuro dos seus filhos, nós dizemos, admitimos que esteja a tratar do futuro dos seus filhos, está é a prejudicar o futuro dos filhos dos Portugueses, com esta política de direita, com estas medidas brutais de corte, de retrocesso

(~16:15) «Estão já a congeminar um novo plano para 2013 com a mesma saída de sempre, as mesmas soluções do costume, a voltar ao princípio desse círculo vicioso que está a conduzir o país ao declínio e a tornar num inferno a vida dos portugueses!

O anúncio de Passos Coelho de perpetuação do roubo de dois salários para os trabalhadores da administração pública e para os reformados, e de um salário para o sector privado é um golpe inqualificável.

Um saque que se estima em cerca de 4 000 milhões de euros, parte significativa dos quais vai directamente ser arrecadada pelas empresas, com este escândalo de aumentar a contribuição [dos trabalhadores] para a segurança social em 7% e baixar aos patrões em 5%. Ou seja, uma transferência directa dos dinheiros dos trabalhadores para o capital.»

A isto os participantes no comício reagiram com gritos de “Gatunos, gatunos”, ao que Jerónimo respondeu:

«Camaradas creio que essa palavra é forte, mas venha Passos Coelho dizer que não se justifica tendo em conta que de facto que isto é um roubo, um roubo descarado aos trabalhadores e ao povo Português.»

Outros trechos se poderiam destacar, incluindo as propostas para um novo rumo para o país, mas recomenda-se a leitura contextualizada da intervenção.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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Uma resposta a Gatunos, gatunos

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  2. Edgar diz:

    Mesmo dando de barato que “os sacrifícios são iguais para todos” pergunta-se:
    Se é preciso fazer tanto sacrifício, permitir a perda de soberania, o empobrecimento geral dos portugueses, a destruição do nosso património e o retrocesso da nossa economia e ainda agradecer a “ajuda” (pagando dezenas de milhares de milhões de juros) para permanecer no euro, não será de “mandar às malvas” a troika e o euro?
    Se é para fazer sacrifícios, prefiro fazê-los decidindo o meu próprio caminho a ter de os fazer na mesma para que sejam os outros a tomar decisões.
    Que se lixem o euro, a troika e os seus capatazes!

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