«Não a mais impostos»?

Corre na Internet um convite a subscrever uma petição do «Diário Económico» com o título sedutor de «Não a mais impostos». O facto de o texto ser produzido por um grupo de economistas também é sedutor: diz a experiência que mesmo pessoas bem formadas e informadas tendem a subscrevê-lo de cruz.

Ora o que as pessoas vão subscrever na realidade não é um protesto contra o aumento de impostos, mas sim um apoio inequívoco ao plano da troika e ao reforço da exploração dos trabalhadores, endereçado ao Governo e ao Parlamento. Trata-se de um incentivo político de sinal contrário ao que o título sugere.

Um amigo que também recebeu o tal convite fez uma resposta que pela sua excelência partilho convosco:

«Caro Zé:

Recebi o seu convite para assinar a petição «Não a mais impostos».

Logo no preâmbulo esbarrei com uma declaração que não posso de forma alguma subscrever: a de que o acordo com a troika foi «um plano de ajustamento violento, mas necessário». Este tipo de plano, feito «para garantir a correcção de desequilíbrios, [d]o défice público e [d]o défice externo», já provou à saciedade a sua desadequação e iniquidade, independentemente da forma como é posto em prática (aqui ou em qualquer outro país ou continente, como temos visto abundantemente desde a década de Oitenta).

Estou disponível para assinar qualquer petição que repudie a estratégia de esmifrar os trabalhadores em benefício da banca e de outros especuladores. Não sei onde foi o Sr. arranjar o meu endereço de email, mas agradeço que não volte a enviar-me petições onde se tem o descaramento de dizer que está bem roubar os trabalhadores a X%, mas que se for a X+n% já é um bocadinho exagerado.

Também não estou disponível para assinar petições onde se dá a entender que o facto de o Estado social gastar «48,6% do Produto Interno Bruto (PIB)» é anormal e deve ser contrariado por todos os meios. Na minha opinião 48% é pouco, atendendo a que esse montante deveria ser gasto com bens e serviços essenciais ao bem-estar da população (e de resto foi pago na sua maior parte com o dinheiro dos trabalhadores). Se o Sr., para satisfazer as suas necessidades básicas de sobrevivência (alimentação, saúde, alojamento, educação, plano de reforma, etc.), consegue gastar menos de 90% do produto do seu trabalho e demais rendimentos (o seu PIB pessoal, por assim dizer), dou-lhe os meus parabéns – deve estar a ter rendimentos principescos, muito acima da média dos portugueses.

Recordo-lhe que as contribuições para a segurança social não são um imposto (como o próprio nome e sua definição legal dizem), mas sim um depósito nos cofres do Estado, integralmente proveniente do bolso dos trabalhadores, a ser devolvido (sob compromisso, esse sim, de honra) a quem o depositou (os trabalhadores), com juros, na forma de bens, serviços ou dinheiro. Recordo-lhe que a parte de contribuição dos patrões para a segurança social não é uma benesse, faz parte da retribuição do trabalho (estou a usar as definições técnicas internacionais, para não ter de entrar numa discussão política). Quando se subscreve qualquer espécie de redução dos gastos sociais (do Estado), o que de facto se está a subscrever é uma diminuição da retribuição do trabalho de forma encapotada. Ora, como a quantidade de trabalho produzida não diminui significativamente, o respectivo valor produzido mantém-se – e portanto o que é necessário perguntar é para onde foi esse valor restante, retirado aos trabalhadores e ao Estado.

Em suma: Não estou disponível para subscrever qualquer petição que dê a entender que está bem aumentar os rendimentos de certos investidores à custa de uma diminuição da retribuição do trabalho (plano da troika), desde que não se exagere…

Também não estou disponível para subscrever textos que cometem erros grosseiros de português, de concordância e de lógica – ficaria envergonhado se o meu bom nome fosse associado a erros desse calibre.

Por fim, choca-me que uma petição redigida por uma equipa supostamente de economistas, pertencentes a um jornal que fico agora a saber que é melhor não ler, possam dar provas de tanta ignorância técnica e de tão baixo nível de interpretação da realidade.

Cumprimentos

Rui Viana Pereira»

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8 respostas a «Não a mais impostos»?

  1. Diogo diz:

    «uma equipa supostamente de economistas, pertencentes a um jornal que fico agora a saber que é melhor não ler, possam dar provas de tanta ignorância técnica e de tão baixo nível de interpretação da realidade»

    Não é ignorância, é venalidade. Estes tipos são pagos para mentir.

  2. Raquel Varela diz:

    Altíssimo nível!

  3. Pingback: Imposto ou impostor? | cinco dias

  4. JgMenos diz:

    A vocação das vanguardas de esquerda para a função pública seria comovente não fosse isso necessáriamente traduzir o seu empenho em tomar conta do fruto de trabalho de outros para se dedicarem à sua distribuição.
    Até isso poderia ser um sentimento próximo da generosidade se não fosse seguro que para além da sua, aliás justíssima, quota-parte, não se reservassem o direito de dizer quem tem direito a sentar-se à mesa do orçamento; e óbviamente a ‘limpeza’ ideológica e de classe do candidato a comensal não poderá ser ignorada.
    48% é pouco diz o candidato a distribuidor! Imagino que não, tal é o elevado talento distribuidor desse grande líder em potência!

    • António Paço diz:

      JgMenos, aconselho-o a ir dar uma vista de olhos ao Facebook do seu querido Passos Coelho para ver a consideração em que é tido pelos Portugueses (uma parte deles diz ter votado no homem).

      • JgMenos diz:

        António Paço, o homem é incidental, tanto se me dá que gostem dele como não!
        Interessa-me é saber como se sai desta, e se há alternativas a considerar.
        O meu desagrado pelos impostos é total, mas o meu mau humor não o converto em fantasias.
        O voto é feito a partir de opiniões, e o que eu vejo é gente com responsabilidades em formar opiniões, a mentir e a delirar – os exactos ingredientes que nos trouxeram até aqui!

        • De diz:

          Coelho é apenas “incidental”
          Lol.
          Eis em toda a sua plenitude a confirmação que o “homem” é apenas o agente de turno.E claro, é de somenos o facto de o amarem ou não…desde que o pulha persista por enquanto no seu métier.

          Desagrado pelos impostos?
          Mas a questão vai muito mais fundo que isso.O post é claro(muito)e basta lê-lo (de novo se necessário).E o mesmo post permite ver que se trata também de uma outra coisa.Versa o roubo de quem trabalha em proveito de quem se apropria do produto do trabalho.Os ladrões a terem honras de legitimação do produto de saque.
          E que EDP, BCP e Sonae vão pagar menos 50 milhões de euros por ano à Segurança Social.Pagos pelos salários e pensões de quem trabalha ou trabalhou.

          Percebo perfeitamente o incómodo de JMenos.A bola está a alastrar e a tampa já faltou mais para saltar.
          E começam-se a ouvir cada vez mais vozes que fogem ao His Master’s Voice.
          E isso é tramado para quem quer manter o status quo a todo o custo.
          (E ainda tem o topete de fingir que a responsabilidade da situação coube a outros que não à direita pesporrenta e/ou neolberal que nos tem desgovernado.Em nome do grande capital,sempre).
          A ideologia é de facto (também ) uma coisa tramada.Mesmo que apareça escondida em nome de “gentes com responsabilidade em formar opiniões”.

          Ah, um bom post este, de António Paço e de Rui Viana Pereira

    • De diz:

      Vocação de vanguardas para a função pública?
      Ou a ainda tentativa (permanente) de continuar a tentar dividir quem trabalha, na esperança que se esqueçam que há explorados e exploradores?

      Tomar conta do fruto do trabalho?É isso precisamente que faz quem detém os meios de produção.
      Embora a conversa da treta continue , na tentativa (perene) para esconder que o grande capital não produz…apenas toma conta da fruta.

      Limpeza ideológica?
      Pois é precisamente o que fazem estes terroristas sociais.É bom não esquecê-lo.E agir em conformidade, despejando os comensais de classe que JMenos tenta proteger e defender.

      Líder em potência?Que líder?O Coelho ?Esse é apenas o senhor de turno, servidor amestrado do grande poder económico.Mas que deve responder pelos seus crimes.

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