Quem divide contra a troika, a extrema-esquerda ou a social-democracia?

Gostei da posta do Nuno sobre os divisionistas e os unitários, acho apenas que ele, porventura por distracção, aponta mal o alvo da sua ira. Ao contrário do que se lê no Esquerda.net, num oportuno artigo do Luís Branco, a manifestação do dia 15 de Setembro não é “a primeira grande resposta ao empobrecimento forçado de todas as gerações”, com o beneplácito da troika e do governo. A luta política espartilhou-se, multiplicou-se por vários movimentos e diferentes tipos de resistência, e não encontro razões para isso não ser positivo.

O tempo das tutorias acabou. Os gestores do descontentamento já não têm margem para gerir o descontentamento de todos, até porque o dos outros é substancialmente maior dos que já só sabem fazer política assalariada. Com a recuperação das plataformas com democracia de base, o movimento social, ainda débil é certo, percebeu que pode e deve ser ele a interpretar a sua revolta, com as suas forças e contradições, sem depender dos comités dos suspeitos do costume. Ora, sendo que a justeza da luta contra a troika deve juntar tutti quanti nas ruas do protesto, a forma como se está a organizar a próxima manifestação é uma ode ao sectarismo. Uma vez mais, expurga-se a extrema-esquerda, namora-se a social-democracia, a esquerda que quer renegociar a dívida e, pasme-se, parte da direita que tem responsabilidade na chegada da troika. Assim, de braço dado com quem tem dividido a luta, grita-se aos sete ventos pela unidade que deixou de existir unicamente por sua responsabilidade. É demasiada hipocrisia.

Eu, que sou de extrema-esquerda, sei quem dividiu a luta e não preciso de mais do que os exemplos ocorridos no último ano para o provar. Sabemos quem abandonou e partiu manifestações, quem chamou o serviço de ordem para bater em manifestantes, quem clonou movimentos por inércia e quem rompeu com as plataformas unitárias. Os responsáveis têm nome e cada activista que esteve e estará na rua sabe perfeitamente disso. Os partidos da esquerda parlamentar, incapazes de suportar que o movimento social tenha finalmente pernas além da sua pernada, comportam-se como verdadeiros talibans dispostos a destruir tudo o que não controlam e isso sim reforça as intenções da troika. A OPA hostil sobre o movimento social mais não pretende do que trocar a extrema-esquerda pelo PS e privatizar a luta, sendo que a única consequência disso é o aceleramento da metamorfose que permitirá, a curto prazo, o regresso ao poder dos barões do Largo do Rato.

Ao contrário da social-democracia, a extrema-esquerda irá continuar na rua, independentemente dos protagonistas dos protestos – e sabemos bem que não há protesto sem protagonistas. Ao contrário da CGTP irá a mais do que aos protestos sindicais. Ao contrário das organizações satélite do Bloco de Esquerda, irá a mais do que às folclóricas marchas do arrebanhamento. Se é contra a troika é quanto baste para que os radicais moderem o seu sectarismo. Lá estarão a marcar presença e a fazer a sua parte. Lamentavelmente, quando é ao contrário, os unitários armam-se dos pés à cabeça e numa aliança espúria com os reformistas lançam-se furiosamente contra toda a expressão de descontentamento que transborda os limites da sua agenda política.

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14 respostas a Quem divide contra a troika, a extrema-esquerda ou a social-democracia?

  1. Bernardo Silva diz:

    Quando temos uma esquerda parlamentar (BE e PCP) que esquecem valores democráticos quando se trata de debates alargados a TODOS os partidos, não se pode esperar muito…

    O BE sempre andou atrás de populismo e adapta as suas posições em função do que é mais popular, dentro do registo da pseudo-esquerda intelectual…

    O PCP está esquecido que mandou prender 400 militantes do MRPP, logo após o 25 de Abril; também finge esquecer que proibiu o MRPP de se candidatar às primeiras eleições pós-ditadura….

    Ambos, colaboraram na palermice de debates (análises, comentários e afins) restritos aos partidos instalados na AR.

    Suponho que seria demasiado incómodo serem confrontados com a real oposição à Troika: o “Não Pagamos” do MRPP… E como é mais fácil e confortável, jogar na ambiguidade da luta contra a Troika, preferiram fingir-se de oposição.

    Ora, tivemos os defensores da Troika (PS, PSD e PP) vs os mais-ou-menos-defensores da Troika (PCP e BE)- que defendem a renegociação = pagamento em parte.

    Excluíram, muito pouco democraticamente, os outros partidos todos, nomeadamente o único que realmente se opõe à Troika: o MRPP.

    Como é assunto do dia, relembro que o BE defende que a Tradição não pode justificar “maus hábitos” como as touradas….

    Mas o Louçã (e o BE), evocou que a tradição dos debates, era apenas só com os 5 partidos da AR…

    A única e real alternativa à esquerda é o MRPP… E como não se vende, nem se verga, é incómoda. E o oportunismo dos populistas cola ao MRPP mitos, histórias, e preconceitos que estão longe da verdade…

    Por exemplo, sabiam que o MRPP se opõe determinantemente à política socio-económica praticada na ex-URSS, na Coreia do Norte, ou na China?

    Pois foi o PCP que veio lamentar a morte do ditador Kim Jong-il…

    É lamentável que vivamos num país do voto útil a 5 partidos! É urgente pôr o MRPP na AR para haver uma voz que não se cale, não se venda, contra as politicas praticadas !!!

    • José Jardim diz:

      Viva o Camarada Pol Pot e um Kampucheia livre…já que estamos numa de nostalgia de revolucionário mais revolucionário que a Revolução..pelo menos no teclado…que isso de lutar nos Sindicatos, na rua,nas empresas,nas freguesias …….isso ´e tarefa para os “sociais fascistas””.

    • mehmet shehu diz:

      … E votaram Eanes contra Otelo nas primeiras presidenciais. Traidores da classe operária!

  2. Antónimo diz:

    Isso é uma convergência com o Sérgio Lavos neste post http://arrastao.org/2616539.html, e de facto Nogueira anda muito murcho (embora me pareça que para a murchidão da classe também contribua a ausência na luta de muitos professores laranjas anteriormente empenhados nela).

  3. Gormit diz:

    Estes maoístas é sempre o mesmo disco, incrivel. Amigo, o MRPP apoiou a candidatura do Alegre, caso não se lembre, o que faz de vocês tão traidores como os bloquistas que o apoiaram. Deixe-se de choradinho e procure pela resolução politica do ultimo congresso do PCP, já agora, o próximo congresso é em finais de Novembro, também não se esqueça.

    Despeço-me com a subtil pergunta: onde está o MRPP junto das massas, dos jovens, trabalhadores, pensionistas? …

    • José Jardim diz:

      Nem mais gormit…onde anda o meu conterraneo Arnaldo de Matos..o grande “educador da classe operária”?
      Algures nas avenidas novas,na sociedade de advogados cujos clientes são os “tubarões” do regime da “Mamadeira” incluindo autarcas corruptos como foi o Lobo da Ponta do Sol que o Educador foi o defensor no respetivo tribunal da Ponta do Sol,hospedado no melhor cinco estrelas do Funchal o Reids Hotel.

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  5. Luís Branco diz:

    Renato, a citação que fazes do meu artigo não é correta, o que escrevi é que “É já no dia 15 de setembro que o segundo ano do memorando da troika encontrará na rua a primeira grande resposta ao empobrecimento forçado de todas as gerações”.

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  8. Graza diz:

    Caro Renato:
    Parabéns pelo texto. Gostei francamente. Confesso que foi provavelmente mais pelo que me revela de ti do que pela forma como o transmites, coisa que fazes aliás, sempre bem. Permite-me contudo para melhor entendimento dizer-te onde tenho as minhas dúvidas, ou onde acho que poderias ter sido mais claro. Por exemplo: “A luta política espartilhou-se,…”, mas logo a seguir dizes e muitíssimo bem: “multiplicou-se por vários movimentos e diferentes tipos de resistência,” ora, se ela se multiplicou, nunca pode ser um espartilho, independentemente de o ter feito fora das tais “tutorias”, a menos que consideres assim pelo fato de não o ter conseguido fazer com “elas”. De qualquer forma, e mesmo assim nunca considero que seja um espartilho. Concluis depois muito bem quando dizes que: “e não encontro razões para isso não ser positivo.

    Agora, a cereja no topo do bolo, é a primeira parte do segundo parágrafo, do qual fiz um link apressado, sem mais comentários, no Arroios, por ser de tal forma importante e soberbamente bem dito. Para que fique mais claro, isto: “O tempo das tutorias acabou. Os gestores do descontentamento já não têm margem para gerir o descontentamento de todos, até porque o dos outros é substancialmente maior dos que já só sabem fazer política assalariada. Com a recuperação das plataformas com democracia de base, o movimento social, ainda débil é certo, percebeu que pode e deve ser ele a interpretar a sua revolta, com as suas forças e contradições, sem depender dos comités dos suspeitos do costume.” Não exulto com o que escreves por ser contra alguém, mas pelo grito de liberdade que representa. Parabéns por isso.

    Continuar a análise tornava o comentário extenso demais para este espaço. Fica com uma grande saudação.

  9. mehmet shehu diz:

    “Com a recuperação das plataformas com democracia de base, o movimento social, ainda débil é certo, percebeu que pode e deve ser ele a interpretar a sua revolta, com as suas forças e contradições, sem depender dos comités dos suspeitos do costume.” Donde se prova que os trotskistas sempre foram anti-leninistas no que concerne ao papel dirgente do Partido. Está explciado porque nunca cosneguiram tomar o poder, dirigir uma luta, ter uma vitória política que fosse.

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