AVANTE, Festa, Debate, Convite:

Repare-se no punho cerrado ao centro (deste esboço preparatório, modificado): é o gesto de um militante comunista, como Picasso, em luta e manifestação, ou é uma referência à “Crucificação” de Rubens?

Rubens: vem daqui o punho cerrado de Picasso? Provavelmente, pois Picasso sabe que a pintura se alimenta da história da pintura, não exactamente por citação, mas por apropriação. Entretanto, será a proposta crucificação-ressurreição a de Picasso na Guernica. Não em termos religiosos, mas em termos de uma reedificação do mundo, que ressurge, da utopia que ressurge.

Debate

«A arte e a luta política»

Oradores

José Casanova

Pedro Cabral Santo

Pedro Pousada

Manuel Gusmão

Carlos Vidal

7, Sexta-Feira

21:30, Auditório de Debates

É hoje, portanto. O pretexto, a razão de ser da iniciativa, é o de assinalar e comemorar os 75 anos da “Guernica”: apenas propaganda (pouco provável), retrato de uma das maiores tragédias criminosas do século XX (também é isso, mas um retrato não “ilustrativo”), retrato de quê, de que personagens (o que na obra nos permite identificar o seu facto/ponto de partida, o seu tempo, o seu século?)? Ou antes imersão do autor nos arquétipos sombrios da Ibéria (a partir de uma crucificação e dos símbolos da tauromaquia), para com eles produzir uma alegoria da própria condição humana, que é morte e continuidade? A conversa estará ligada a uma exposição documental em torno da obra.

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6 respostas a AVANTE, Festa, Debate, Convite:

  1. almajecta diz:

    “Reflejar la realidad no puede ser el contenido del arte, pero esto no impide que sea expresión válida del esfuerzo empeñado por los grandes poetas. Dicho reflejo es el comportamiento particular del poeta épico. Desplegar el plan natural en toda su amplitud es propio de él, igual que es propio para el dramaturgo hacer un corte en la estructura del acontecer, y es propia del lírico la infinita concentración de la existencia.”

  2. De diz:

    Uma tremenda pena não poder estar aí em Lisboa.
    Ainda revoltado com o terrorismo social, mais uma vez expresso em alta voz pelo próprio primeiro-capacho da troika, vai daqui, a meias com o pesar da ausência, a certeza que a “conversa” também será uma lufada de ar fresco no meio desta mediocridade a que nos querem por a vegetar.
    E novas forças para a luta.Pela dignidade da Condição Humana.

  3. Justiniano diz:

    Ora, caríssimo Vidal, valores de estética objectiva formal, aos punhos!!
    Guernica e a marcha da humanidade são tremendos monumentos àquela forma trágica de ver, na morte e continuidade, como diz o meu caro, uma condição estrita da humanidade!!
    Mas que nunca me encantou a humanidade, e sempre me revi, mais, no friso da vida de um tipo, caríssimo Vidal!! Especialmente aquele tipo de mãos vazias frente a portas fechadas!!
    Também não pude estar ali, impossível!! Espero que tenha sido inspirador para quem pôde assistir!
    Um bem haja a todos,

    • Carlos Vidal diz:

      Parece que o “Punho Fechado” do grande Rubens chocou/confundiu uma ou duas pessoas na assistência, mas que fazer?, ele está lá, o punho, não é verdade? O malaguenho mergulhou nas profundezas da Ibéria negra, produziu uma cena de Calvário e uma mítica Tauromaquia. E está lá também o “Punho Sofrido” e a expressão das mãos do crucificado desse inquietante Retábulo de Isenheim que o meu bom amigo deve bem conhecer, desse estranho Grünewald. E está lá a história da arte e da humanidade (como sabemos – não é apenas Guernica, que é sobretudo mas não apenas).
      Felicitações ibéricas.
      cv

      • Pedro Pousada diz:

        Carlos
        A cultura do choque, do estranhamento, da distorção dos códigos é também um contribuinte para o combate político como bem o explicaste ontem, e remeto-te para este poema de Baudelaire. Faltaram condições para um visionamento de imagens que proporcionasse aos espectadores mesmo aos mais incrédulos (e também menos dialécticos) contextualizar o nosso discurso.Fica para a próxima, foi de qualquer forma um grande prazer participar e assistir a este debate.Abraços

        49. Assommons les pauvres!
        Pendant quinze jours je m’étais confiné dans ma chambre, et je m’étais entouré des livres à la mode dans ce temps-là (il y a seize ou dix-sept ans); je veux parler des livres où il est traité de l’art de rendre les peuples heureux, sages et riches, en vingt-quatre heures. J’avais donc digéré, — avalé, veux-je dire, — toutes les élucubrations de tous ces entrepreneurs de bonheur public, — de ceux qui conseillent à tous les pauvres de se faire esclaves, et de ceux qui leur persuadent qu’ils sont tous des rois détrônés. — On ne trouvera pas surprenant que je fusse alors dans un état d’esprit avoisinant le vertige ou la stupidité.

        Il m’avait semblé seulement que je sentais, confiné au fond de mon intellect, le germe obscur d’une idée supérieure à toutes les formules de bonne femme dont j’avais récemment parcouru le dictionnaire. Mais ce n’était que l’idée d’une idée, quelque chose d’infiniment vague.

        Et je sortis avec une grande soif. Car le goût passionné des mauvaises lectures engendre un besoin proportionnel du grand air et des rafraîchissants.

        Comme j’allais entrer dans un cabaret, un mendiant me tendit son chapeau, avec un de ces regards inoubliables qui culbuteraient les trônes, si l’esprit remuait la matière, et si l’oeil d’un magnétiseur faisait mûrir les raisins.

        En même temps, j’entendis une voix qui chuchotait à mon oreille, une voix que je reconnus bien; c’était celle d’un bon Ange, ou d’un bon Démon, qui m’accompagne partout. Puisque Socrate avait son bon Démon, pourquoi n’aurai-je pas mon bon Ange, et pourquoi n’aurais-je pas l’honneur, comme Socrate, d’obtenir mon brevet de folie, signé du subtil Lélut et du bien-avisé Baillargé?

        Il existe cette différence entre le Démon de Socrate et le mien, que celui de Socrate ne se manifestait à lui que pour défendre, avertir, empêcher, et que le mien dedaigne conseiller, suggérer, persuader. Ce pauvre Socrate n’avait qu’un Démon prohibiteur; le mien est un grand affirmateur, le mien est un Démon d’action, un Démon de combat.

        Or, sa voix me chuchotait ceci: «Celui-là seul est l’égal d’un autre, qui le prouve, et celui-là seul est digne de la liberté, qui sait la conquérir.»

        Immédiatement, je sautai sur mon mendiant. D’un seul coup de poing, je lui bouchai un oeil, qui devint, en une seconde, gros comme une balle. Je cassai un de mes ongles à lui briser deux dents, et comme je ne me sentais pas assez fort, étant né délicat et m’étant peu exercé à la boxe, pour assommer rapidement ce vieillard, je le saisis d’une main par le collet de son habit, de l’autre, je l’empoignai à la gorge, et je me mis à lui secouer vigoureusement la tête contre un mur. Je dois avouer que j’avais préalablement inspecté les environs d’un coup �il et que j’avais vérifié que dans cette banlieue déserte je me trouvais, pour un assez long temps, hors de la portée de tout agent de police.

        Ayant ensuite, par un coup de pied lancé dans le dos, assez énergique pour briser les omoplates, terrassé ce sexagénaire affaibli, je me saisis d’une grosse branche d’arbre qui traînait à terre, et je le battis avec l’énergie obstinée des cuisiniers qui veulent attendrir un steak.

        Tout à coup, — ô jouissance du philosophe qui vérifie l’excellence de sa théorie! — je vis cette antique carcasse se retourner, se redresser avec une énergie que je n’aurais jamais soupçonnée dans une machine si singulièrement détraquée, et, avec un regard de haine qui me parut de bon augure, le malandrin décrépit se jeta sur moi, me pocha les deux yeux, me cassa quatre dents, et avec la même branche d’arbre me battit dru comme plâtre. — Par mon énergique médication, je lui avais donc rendu l’orgueil et la vie.

        Alors, je lui fis force signes pour lui faire comprendre que je considérais la discussion comme finie, et me relevant avec la satisfaction d’un sophiste du Portique , je lui dis: «Monsieur, vous êtes mon égal! veuillez me faire l’honneur de partager avec moi ma bourse; et souvenez-vous, si vous êtes réellement philanthrope, qu’il faut appliquer à tous vos confrères, quand ils vous demanderont l’aumône, la théorie que j’ai eu la douleur d’essayer sur votre dos.»

        Il m’a bien juré qu’il avait compris ma théorie, et qu’il obéirait à mes conseils.

        • Carlos Vidal diz:

          Lembrei-me depois que faltou evocar o Grünewald, mas falta sempre qualquer coisa.

          O poema, o texto baudelairiano….. é coisa para o nosso tempo, o que prova que todo o tempo é o nosso tempo, por isso devemos sempre ocupar-nos de todas as digressões históricas. Sobretudo, cortar a direito, não branquear, não somos “Rui Ramos”, não é verdade?

          je veux parler des livres où il est traité de l’art de rendre les peuples heureux, sages et riches, en vingt-quatre heures.

          Essa monstruosidade incapaz (até mesmo para os liberais) chamada Paços Coelho (assim grafado fica melhor, como diria Debord, devemos sempre redigir mal e mentir em relação ao nome do inimigo, a verdade é só para nós comunicarmos entre nós), essa monstruosidade acha que descobriu livros de fazer felizes gentes, mas se lhe perguntares quais ele dá-te livros que nunca existiram, “A Fenomenologia do Ser”… O pobre não pode mais. Colapsou e os gloriosos anos 80 de Gaspar (Thatcher, Pinochet, Reagan) já não voltam mesmo que o tipo os invoque.

          Agora estamos na era do negacionismo, dos Rui Ramos. Está tudo ligado.
          Descaro sem limites: “a guerra até não foi muito mortífera”.

          Se calhar o indivíduo tem razão, porque é mesmo preciso que seja mortífera. Não preciso de dizer para quem, não é?
          Abraço
          cv

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