Directamente da Marmeleira Pacheco Pereira volta a pronunciar-se sobre arte, cultura e o Estado (na “Sábado”)

GABRIEL OROZCO

Mea culpa, mea culpa, de entre vários livros que publiquei (por acaso, em poucos anos mais do que o barão do Castelo do Queijo, Pacheco Pereira, para quem a cultura acabou em Thomas Mann, e a outra cultura, a contemporânea, acabou no La Féria do seu íntimo amigo Rui Rio), de entre vários livros que publiquei, e publicarei, como muitos autores (classificativo que não reconheço ao baronete do Castelo do Queijo), são financiados ora pela FCT ora pela DGL / Direcção Geral do Livro: o meu “Deus e Caravaggio” lá teve o selo do Estado. Inaceitável, para mim 100 Ave Marias, auto-flagelação, etc.

Diz ainda o baronete do Castelo do Queijo e da ignorância supina que suponho não ter perdido nenhuma obra cultural do seu grande amigo Rui Rio dos automóveis (o “Fanático Dos Popós”): “O Estado não deve cuidar nem da criação cultural, nem de ter comunicação social, nem de fazer jornalismo, nem de interferir no gosto. O seu papel é garantir o património, garantir que a educação seja também ‘para as artes’ [estas aspas dizem tudo da natureza da criatura]” (…), etc., e chega, trampa a mais também é absurdo – fim de citação. Logo, a acção do Estado na cultura deve ficar-se por estes dois tópicos que a mais rançosa, pedregosa e inculta extrema direita acha serem os únicos para a “acção” cultural ou financiamento público: o património e a educação.

Claro, este presciente habitante do Castelo do Queijo sabe de antemão que uma obra de Emmanuel Nunes, as fotografias de Cindy Sherman e Thomas Struth, os livros de Rui Nunes, Golgona Anghel ou Diogo Vaz Pinto (e, note-se, o baronete deve achar que isto são marcas de pneus), ou as coreografias de Keersmaecker ou as instalações de Marcel Broodthaers e Gabriel Orozco, o cinema de Pedro Costa e Miguel Gomes ou os vídeos de Pierre Huyghe ou do meu amigo João Onofre, nunca mas mesmo nunca serão património, nada disso – nada como Alcobaça, a Batalha, o castelo de Leiria e o Castelo do Queijo!

Continuemos: “Não deve haver ministério, nem secretaria de Estado, mas as questões da ‘cultura’ são da educação e do património, do comércio externo e dos negócios estrangeiros”. Assim fala um calhau cultural deste país. Um outro indivíduo, o serventuário da Fundação Pingo Doce, até sabe o prejuízo do Estado anualmente por cada cadeira do Teatro de S. Carlos! Mas este, o do Pingo Doce, tem desculpa: o sr. do blogue Jacarandá (ou lá o que é) ainda acha que uma fotografia (creio que se considera fotógrafo também) se faz com um dedo em vez de ser com o cérebro. É a vida!… Nunca ninguém lhe disse que com um dedo muitas outras coisas se fazem que não fotos, estas, com efeito, fazem-se com o cérebro e o pensamento. Apenas e de nenhuma outra maneira.

Mas por que é que Pacheco Pereira acha bem, na sua postura “liberal”, que a Cornucópia, por exemplo, agonize? Por uma razão muito simples: porque nunca lá pôs os pés, nem lá nem numa sala de concertos onde se trabalhe música depois de Bach (acabou-lhe a mente por aí). Nunca lá pôs os pés como nunca pôs os pés numa sala onde se represente obra de coreógrafos ou coreógrafas dos nossos dias, cineastas, artistas plásticos, galerias, não sabe o que é a Documenta de Kassel, não sabe o que é crítica de arte: uma vez li um “texto” (com muitas aspas) do indivíduo sobre o seu amigo Ângelo de Sousa  (que eu tive o prazer de prefaciar o “Jornal da Exposição” quando de uma retrospectiva ainda na Casa de Serralves) – foi para mim uma experiência triste. Fiquei em depressão por haver gente que não reconhece um espelho para se ver. O indivíduo não domina um único termo, uma única palavra, um único conceito do vocabulário plástico nem crítico. E teria de dominar? Sim.

E qual é, no fundo, o problema da personagem? É que não sabe distinguir entre arte e cultura: esta é institucional, a arte é excepcional. Ou seja, como diz o outro, a arte é a excepção, a cultura é a regra e faz parte da regra querer anular a excepção. Pacheco Pereira que não perceberá isto nem que lhe ofereçam mais 100 mil livros (diz ele que os tem, mas, meu caro, não chega, pelos vistos!…), também não percebe que defende a instituição (educação, património) contra a arte. E um inimigo da arte, da criação e da excepção, deve ser eliminado do nosso horizonte e reduzido à inexistência, tal como a regra quer eliminar a excepção. Boa noite.

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9 respostas a Directamente da Marmeleira Pacheco Pereira volta a pronunciar-se sobre arte, cultura e o Estado (na “Sábado”)

  1. Em resumo :
    1 — O seu Caravaggio é óptimo ! Creio que o génio indomável gostaria de o ter, ver e ler.
    2 — José Pacheco Pereira perante a arte contemporânea, actual, “parou”, há décadas. Telefonaria à polícia para retirar a “bola” do Orozco da via pública, para desimpedir o trânsito.
    3 — J.P.Pereira, afinal, não sabe o que é criatividade literária, sonora, visual e plástica post década de 1960. Pelo que, se Ministro da Cultura, os artistas post Ângelo ou José Rodrigues, estariam tão menosprezados como foram ao tempo de secretários de estado (incluindo o actual) e de ministros culturalmente “a recibo verde” –e só isso, culturalmente “a recibo verde”.
    4 — J.P.Pereira, indiscutivelmente homem culto mas sem querer entender a criatividade vigente, está a elaborar pontualmente um bom trabalho diário no seu blog e no Público (não leio nem ouço outras suas intervenções) como opositor ao governo de Relvas e de Passos. Como é hábito, quando está na oposição “interna”, escreve algumas verdades bastante incómodas.

    • Carlos Vidal diz:

      Ele passa por culto porque se insinuou nos meios da cultura lá da terra dele.
      E as pessoas como são eduicadas deixaram-no entrar.
      O homem não conhece um único conceito da estética, nem Francisco de Holanda (que conhece por fait divers), nem de Didi Huberman, nem Warburg, nem Baumgarten, nem Rosalind Krauss ou Buchloh. O que teria achado o Ângelo de tamanha ignorância e incapacidade de conhecimento? Ora, nada, o Ângelo era uma pessoa a sério.

  2. JgMenos diz:

    Estamos a falar de arte ou de subsídios aos artistas?
    Fiquei confuso!
    Depois vem outro e diz que PPereira ‘não quer entender a criatividade vigente’!
    Vigente? Foi alguma lei que a decretou, ou é ainda a arte que vigora sob a lei dos subsídios?
    Muito confuso!

  3. Está, Carlos Vidal, “a falar” de Arte ! De Cultura !
    No diccionário encontra o significado de “vigente”.

  4. Carlos Vidal,
    J.P.Pereira tem a sua concepção de Cultura diferente de muita gente, de si, de mim, formata o seu conhecimento e vivência cultural com parâmetros próprios, conhece vagamente a arte contemporânea e actual, mas, discordo de si, porque é uma pessoa culta.
    J.P.Pereira “insinuou-se” no meio artístico e cultural do Porto, viveu-o com alguma intensidade nas décadas de 1960-70’s, “deixaram-no entrar”, tal como ele “deixou entrar” quem quis nos seus círculos restritos.
    Conheci e conheço algumas pessoas que com ele privaram e embora discordando dele sobre algumas questões, nunca ouvi a mínima afirmação de que não é uma pessoa culta — pelo contrário !
    O Ângelo conhecia-o bem. Achava-lhe “piada”. Foram amigos.
    (Este meu comentário nada tem a ver com posições e militâncias partidárias de J.P.P. nessa época e hoje).

    • Carlos Vidal diz:

      Compreendo-o, mas é um facto que a cultura do sr PP vem definhando com o tempo. Tornou-se uma “cultura” tipicamente anti-intelectual. Faz parte de uma equipa abjecta nesse projecto do “ataque à subsidiodependência”: alinha com António Barreto, Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente são quatro almas penadas e solitárias no mundo da arte contemporânea que odeiam.

      Curiosamente, Vasco Graça Moura até parece fazer parte desse mundo, mas nem por sombras. Por acaso, a última vez que o vi numa exposição foi na inauguração do Jorge Pinheiro nos Artistas Unidos. São genuinamente amigos em espectros políticos opostos, e VGM aprecia o Jorge Pinheiro, meu antigo professor e sobre quem publiquei um livro (Caminho). É um abstraccionista “difícil” e VGM sabe o que está a ver: VGM olha e comenta e fala das obras, Pacheco Pereira, ao invés, refugiar-se-ia na vida no Porto nos anos 60, cafés, e tal, etc. O Jorge Pinheiro e o Ângelo são os dois génios dos 4vintes (falecido o Ângelo, activo o Jorge): os outros dois não iria agora comentar.

      • De acordo com o seu primeiro parágrafo.
        Também de acordo que J.P.Pereira quando tenta escrever sobre um pintor ou escultor “enclausura” o texto na vida portuense, no Piolho, no Majestic, na universidade, e pouco mais.

        Sobre os trabalhos dos Quatro Vintes : gosto imenso do Ângelo, (só) um pouco menos do Jorge Pinheiro. Armando Alves nunca me prendeu mais do que “4” minutos a vê-lo, e o José Rodrigues (hoje muito mal de saúde) criou algumas obras “maravilhantes”, “certinhas”.

  5. almajecta diz:

    “E acabou-se. Começa aqui a anedota, findou a tragédia. Venham os críticos, os psiquiatras, os historiadores da Arte, os embalsamadores da vida. Tomem a minha orelha, taxidermistas do porvir! Empalhem-na: e descubram como quiserem o sentido desse gesto demente. Não tenho mais nada a alegar em minha defesa. O único que podia compreender-me partiu hoje para Paris. Fiat voluntas mea. Assim seja. Amen.”

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