“360”, de Fernando Meirelles

De MagnoliaColisão, de Amor Cão a 21 Gramas (e Iñarritu é o mestre do género), não faltam exemplos de grandes histórias em mosaico, filmes em que um determinado acontecimento, real, metafórico e/ou filosófico, é o ponto de partida para a reunião de personagens com, à partida, percursos  disjuntos. Este não será um deles…

Quando, numa decisão mais forçada que intencional,  Alan abdica de um encontro com uma prostituta eslovaca e resolve ser fiel à mulher, dá o mote para um conjunto de situações, de encontros ou desencontros, que vai atingir um leque diverso de personagens: a esposa de Alan, um casal brasileiro a viver em Londres, um casal russso e um dentista árabe radicados em Paris, um condenado por abusos sexuais e um americano à procura da filha desaparecida. O amor, a solidão e uns pozinhos de reflexão social, de formas não previsíveis e sem grandes clichés, são a base de tudo e não é por esse conceito primitivo que 360 se afasta das grandes obras do género. O problema está, por um lado, na falta de consistência e de tempo concedido às personagens, ficando a clara impressão que o filme ganharia muito se tivesse menos intervenientes que, por sua vez, teriam uma participação mais profunda na trama. Por outro, as cenas finais, repletas de uma precipitadíssima e simplória análise existencialista sobre a circularidade da vida, incutem um pretensiosismo disparatado a 360 e aproximam-no de um dos piores filmes do estilo: Hereafter, em que Clint Eastwood se deixou levar pelo misticismo do além e assinou aquele que foi muito provavelmente um dos piores filmes da sua carreira.

Tudo é mau? Óbvio que não, até porque tem cenas de cinema bem interessantes (o momento em que a brasileira e o condenado vão para o quarto tem a intensidade dramática certa) e os apontamentos musicais têm um carácter contemplativo muito bonito (quando, por exemplo, se usa um tema maravilhoso da saudosa Lhasa, não há como falhar). É um filme que se vê bem e não é tão fraco como a inócua e, como tal (dado o livro em questão), pavorosa adaptação da obra-prima Ensaio Sobre a Cegueira. Mas está a léguas do melhor Meirelles, presente em A Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro.

5/10

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