A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata

Caríssimo Tiago, levando o teu raciocínio ao extremo sobre o desconhecimento do sindicalismo sul-africano (corroborado por um comentador no teu post), então eu também poderia dizer que pouca gente de esquerda em Portugal e na Europa percebe alguma coisa que seja sobre o euro, sobre a economia capitalista ou sobre o marxismo e não se importam de comentar e de escrever sobre o assunto como se fossem entendidos. (E aqui não me refiro necessariamente a alguém em particular mas a uma tendência presente na generalidade da esquerda). Esse argumento do pretenso desconhecimento, a ser válido, impedir-nos-ia de discutir quase tudo… Nem sequer percebo esse argumento do desconhecimento, ainda por cima nos tempos de hoje em que qualquer activista europeu pode aceder à internet e obter facilmente informações sobre as lutas sociais.

Será que precisamos de saber de onde são estes operários para nos solidarizarmos com a sua luta? Foto de Sebastião Salgado

Por outro lado, que eu saiba, a luta dos trabalhadores em qualquer parte do mundo é algo que deve interessar aos comunistas. Foi esse tipo de internacionalismo com a solidariedade do tamanho de um amendoim que deixou comunistas, militantes anticapitalistas (seja de que corrente forem) e trabalhadores morrerem à mão das classes dominantes só porque estão lá longe…

Todas as lutas operárias mais avançadas foram dirigidas a pensar numa libertação internacional dos trabalhadores. O processo revolucionário de 1917-23 começou nas barricadas francesas, russas, alemãs; bateu as ruas de Petrogrado, Budapeste, Berlim; levantou bandeiras vermelhas de marinheiros franceses no Mar Negro; de Londres a Nova Iorque sabotou armamento dirigido contra a Rússia soviética, etc. E o mesmo se passou no período 1968-75 que varreu todo o mundo.

“Não estamos à venda”. Manifestação auto-organizada após ocupação da Fiat pelos trabalhadores (1969), apesar da forte oposição dos seus sindicatos.

Para mim é tão importante uma luta de operários no Vietname, na Nigéria ou no Bangladesh, como uma luta em Portugal, no Brasil ou nos EUA, por mais longínquas as paragens em que essas lutas possam ocorrer. É dos processos entre os longínquos (e desconhecidos) que se constroem novas relações sociais e se iluminam os labirintos das nossas vidas atulhadas de dificuldades e de opressões de todo o tipo.

A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata.

Para terminar, a metáfora da laranja inaugurada no teu post parece-me realmente oportuna para discutir estas questões: o mesmo objecto tanto pode dar vida como pode ser a nossa condenação. A luta anticapitalista tanto pode desembocar em processos emancipatórios, como pode ser a via para a ascensão de novas opressões. Por isso, ou as futuras lutas sociais atingem um tal grau de auto-organização e o controlo da vida social e política será exercido colectiva e democraticamente por todos os trabalhadores ou, como sucedeu na generalidade do século XX, elas são substituídas por uma qualquer vanguarda esclarecida e “socialista” que vai decidir, promulgar e governar pelos outros, mesmo que para isso ferre com os dissidentes na prisão. Cabe a cada activista e a cada anticapitalista escolher a altura do dia em que quer comer a laranja sob pena de cairmos no precipício… A forma é um conteúdo.

Do trabalho assalariado como prisão, ou porque enquanto os trabalhadores não dirigirem directa, colectiva e democraticamente a produção, estarão sempre sob a alçada de novas grilhetas. Foto de Sebastião Salgado

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44 respostas a A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata

  1. rafael diz:

    ó João, eu bem sei que tenho andado desatento aos teus posts, mas tu bateste com a cabeça na parede?

    • João Valente Aguiar diz:

      Isso é que é argumentar Rafael… Muito profundo sem dúvida.
      E que é que eu disse assim de tão mal para merecer um comentário teu tão ríspido e deselegante?

      • rafael diz:

        olha: em primeiro lugar não reconheço essa tua animosidade relativamente ao PCP e à CGTP. Pura e simplesmente não a reconheço e parece me algo novo e, sinceramente, estranho que tenhas uma tão radical mudança de postura face ao Partido. Não conheço os motivos, mas parece-me estranho que há uns meses atrás compreendesses as motivações que levaram o GP do PCP a votar contra a adopção de crianças por casais homossexuais e hoje perante um comunicado que a todos os niveis me parece correcto (o que o Tiago falou não foi de não comentar mas que o comentário do PCP é através dos seus contactos internacionais, o que me parece lógico) te insurjas de modo tão violenta.

        Em segundo lugar, considerares todas as experiencias de construção do socialismo no século XX como uma espécie de saco de merda totalitária sem fazer a análise dos seus erros, dos seus crimes mas também das suas virtudes, da sua contribuição para o progresso mundial e para a elevação da qualidade de vida de todos os trabalhadores parece-me a mim um bocado primário.

        Espero não te ver proximamente a equiparares comunismo a fascismo…

        • João Valente Aguiar diz:

          1- que eu saiba o post tem a ver com a questão do “desconhecimento” do que se passa lá fora como argumento para não se abordar um determinado assunto e não unicamente com o PCP… Nem com o Tiago (que muito estimo) mas com o argumento que referi. Eu não critico as pessoas, critico os argumentos e as teses políticas.

          2- onde é que eu disse que tudo o que se passou na URSS, etc. foi mau? Como é que eu poderia fazer o tal balanço que falas num mero post? O seu início emancipador de poder operário tem todo o meu apoio e admiração não a posterior introdução de medidas que esvaziaram os sovietes… Medidas que depois resultaram na repressão e amordaçamento dessa mesma dinâmica operária de base. Kronstadt ou a introdução do gestor único nas fábricas por nomeação directa do Estado soviético (em vez disso partir como inicialmente da eleição democrática e colectiva dos trabalhadores) são só dois exemplos. Ou Brest-Litovsk, etc. E isto ocorreu com pessoas e revolucionários que achavam que estavam genuinamente a construir o socialismo. Aliás, o problema é esse: confundir-se um real sentimento genuíno de emancipação da humanidade com práticas que reproduzem em novos moldes práticas hierárquicas. Pessoalmente, há muito mais a criticar nos que hoje deveriam reflectir sobre os erros e sobre os limites estruturais (para mim óbvios) de certas soluções e modelos, do que os que no passado fizeram asneira mas que realmente acreditavam que estavam a construir uma sociedade socialista.

          3- a tua última frase nem merece resposta.

          • rafael diz:

            João, por pontos:

            1-acho que partes de pressupostos errados. dizes que a questão central é a falta de informação como argumento ao não comentário, mas em nenhum dos posts aqui escritos no 5 dias assim como no comunicado do PCP é afirmado tal disparate, o que é dito é que, naturalmente, o PCP informa-se junto dos partidos e organizações com quem tem relações priveligiadas (logo existe uma relação de confiança) e a partir daí assume a sua posição. Os posts do Renato que deram origem à resposta do Tiago e consequentemente ao teu post têm como alvo central o PCP e a CGTP e a “insustentabilidade” das suas posições relativamente a esta matéria; argumentares que a questão central é a informação e a pretensa não tomada de posição (que sinceramente reitero não encontro em nenhum lado), deixando de lado o que originou este debate parece-me sinceramente pouco sério e daí coloco a questão de não reconhecer em ti a animosidade com que te insurges relativamente ao comunicado do PCP…

            2- relativamente à URSS (que eu não mencionei, mencionei sim todas as experiencias de construção do socialismo do século XX) foste tu próprio que afirmaste: “como sucedeu na generalidade do século XX, elas são substituídas por uma qualquer vanguarda esclarecida e “socialista” que vai decidir, promulgar e governar pelos outros, mesmo que para isso ferre com os dissidentes na prisão.” Compreenderás que toda esta frase é um programa, daí a minha questão…

            3-não era para responderes, era mesmo uma provocação gratuita e infantil 😉

          • Rafael Fortes diz:

            e já agora, deixo-te aqui a frase concreta que tinha lido tua de há alguns meses e que me fez fazer-te a pergunta inicial: “isto [a adopção de crianças por casais homossexuais] só está a servir para atacar o PCP precisamente num momento em que este é o único partido que tem levado a cabo uma luta consequente de massas (e não apenas cingida a meia dúzia de intelectuais pós-modernos) contra o programa de agressão da troika. O resto é conversa”. as palavras são tuas…

          • João Valente Aguiar diz:

            E que isso tem a ver com o que discuti??? Estamos a discutir um argumento que sempre permeou a generalidade da esquerda que se foi colocando (e bem) à esquerda da social-democracia: ser solidária apenas (ou quase) com as organizações irmãs e mto raramente com a classe. Por isso estamos a discutir esta questão ou o que eu pensava ou deixava de pensar? Por outro lado, acaso alguém é obrigado a ter a mesma opinião eternamente??? (Que argumento refinado para quem diz que está preocupado em discutir os erros e insuficiências das pretensas experiências socialistas do século XX). Se calhar esse é (também) um dos mais profundos problemas da esquerda e que a mantém esclerosada e suspirante por modelos passadistas e hierárquicos…

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    “A luta anticapitalista tanto pode desembocar em processos emancipatórios, como pode ser a via para a ascensão de novas opressões. Por isso, ou as futuras lutas sociais atingem um tal grau de auto-organização e o controlo da vida social e política será exercido colectiva e democraticamente por todos os trabalhadores ou, como sucedeu na generalidade do século XX, elas são substituídas por uma qualquer vanguarda esclarecida e “socialista” que vai decidir, promulgar e governar pelos outros, mesmo que para isso ferre com os dissidentes na prisão.”

    Este bocadinho vai ficar atravessado na garganta de muita gente…

    • João Valente Aguiar diz:

      Caro Nuno,
      Se eles ainda quisessem realmente discutir estas questões de forma franca e objectiva já seria óptimo. Apesar de ser cada vez mais pessimista quanto à esquerda actualmente existente, mantenho apesar de tudo a esperança que a discussão e o debate ainda possam frutificar. Se não no imediato pelo menos a prazo as coisas irão mudar. Têm de mudar.

  3. um gajo qualquer diz:

    silly season?

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    JVA, em primeiro lugar eu não escrevi que não sabia nada de sindicalismo sul africano. Eu escrevi que sabia tanto de sindicalismo sul africano como do jogo da laranjinha – deixando-te a dúvida se já li, ou não, a tese da Graça Índias Cordeiro.
    Em segundo lugar o meu argumento não é de desinteresse sobre os dois assuntos que considero essenciais: a luta dos trabalhadores e o terrorismo de estado.
    Um e outro pouco se discutiram no 5dias.

  5. miguel serras pereira diz:

    João, caríssimo,
    tal como foste à caixa de comentários de um meu post, sobre outro assunto, que considera mais as práticas do BE do que as do PCP e sua área de influência, mas que levanta a mesma questão fundamental (essa, a que CC chamou a de “recomeçar a revolução” ou a de “como lutar?”), aqui me tens acorrendo, pobre em recursos mas sem regatear energias, a secundar o teu exemplar combate, recorrendo a um excerto que pareces ter apreciado no que escrevi e que calha aqui a propósito:

    “o debate que seria politicamente imperativo travar [ é o que incide] sobre o modo de organização de um movimento político que tem por objectivo final ou fim primeiro a democracia de uma sociedade de iguais, ou também sobre o modo como esse objectivo final ou fim primeiro deve informar desde o início os meios e as formas de organização que o visam — sendo que só, através da sua actualização permanente, o poderão visar com um mínimo de verdade e eficácia”.
    (http://viasfacto.blogspot.pt/2012/08/o-be-na-sua-cortina-de-fumo-densa-mas.html)

    Solidário abraço

    msp

  6. Rascunho diz:

    o debate é mesmo urgente e necessário, mas antes de se partir para ele, será (talvez) importante ter isto em conta:

    observo a vida em constante mutação
    assim sendo, a verdade não é o que não se altera
    mas sim o que deixa de ser a todo o instante

    até este anti-dogma, não passa de um dogma… poderá valer como tentativa

    • João Valente Aguiar diz:

      Caro,
      Não sei porque razão não consegui responder ao post no teu blog. Quando carreguei para submeter o comentário deu erro. Certamente por azelhice minha. Por isso aqui fica mais ou menos o que tinha escrito inicialmente.
      A verdade é que o presente não existe. Ele é o conjunto das contradições do passado conforme as visualizamos num momento, momento esse onde tentamos entrever e prever alguma coisa no que virá a ser o futuro passado.
      Por outro lado, queria ainda dizer que as discussões que eu, o Renato, o Tiago, etc. fomos tendo sobre isto não se resume apenas a pura divagação diletante ou quase clubístico. Apesar do tom polémico, elas reflectem o que disse no parágrafo anterior. Não há política possível sem a expressão do passado no presente, no imediato. E nem se trata de se saber se o Trotsky, o Marx ou o Lénine, etc. etc. são, em conjunto ou isoladamente, “santos” que nos podem ajudar ou não a pensar o mundo em que vivemos. Claro que esse sentimento de capela existe e é muito forte. Por isso é que devemos discutir teses, argumentos, pensamentos, acções, whatever. Saber qual o santo que devemos seguir isso pouco importa. O que não menoriza os contributos de pensadores e revolucionários. Pelo contrário o valor (naturalmente variável) de qualquer um só faz sentido enquanto análise, crítica e debate de teses e não da sua santificação pessoal.
      abraço

      • Rascunho diz:

        Olá J.V. Aguiar,

        de facto, não recebi nenhum comentário – publico todos, sem problema nenhum – isto que fique bem expresso e claro – e acredito que acreditam.

        Azelhice não creio – algo se terá passado que nos escapa.

        Mas vamos por pontos:

        1. “A verdade é que o presente não existe. Ele é o conjunto das contradições do passado conforme as visualizamos num momento, momento esse onde tentamos entrever e prever alguma coisa no que virá a ser o futuro passado.”

        Se o presente não existe, por mais fugaz que seja, como pode o passado e o futuro existirem? Falamos de tempo – como tal, de tudo. Mas sobre isso, também escrevi, entre tantas outras coisas, isto:

        olha para o horizonte
        ignora toda a recordação
        todo o passado e o futuro
        eles não existem
        o que existe é a ideia
        e a ideia é sempre presente

        ignora toda a traição
        o que existiu e existirá – existe
        é sempre presente

        (cada um de nós é que dá existência ao passado, presente e futuro)

        Mas percebo o que queres dizer, como é óbvio – este presente que acabo de escrever já faz parte do passado para ti que leste. Porém, para os que ainda não leram é/será futuro/presente Portanto, o passado não deixa de ser futuro para o(s) que ainda o desconhece(m)… Claro que tenho muitas outras «cenas» sobre o tempo… não vivo de outra coisa 😉

        2. “Por outro lado, queria ainda dizer que as discussões que eu, o Renato, o Tiago, etc. fomos tendo sobre isto não se resume apenas a pura divagação diletante ou quase clubístico. Apesar do tom polémico, elas reflectem o que disse no parágrafo anterior. Não há política possível sem a expressão do passado no presente, no imediato.”

        João, até certo ponto acho saudável a vossa «discussão», e até tenho vontade de entrar nela, com um sentido construtivo. Porque é, realmente, necessário canalizar esforços para o que aí vem. E, por vezes, existe aqui/aí alguma ambiguidade – que não creio ser saudável. Trata-se da minha mera opinião. Acredito que é possível contrariar o que está mal, verdadeiramente mal, sem se terem que ofender. Observo um desgaste desnecessário que (por pormenores), quero crer, podem ser transcendidos com simplicidade – se se derem um pouco mais ao diálogo. Mas a casa é vossa – sou um mero espectador. Posso deixar de admirar o “espectáculo”… é o que, ainda que nem sempre de forma clara, tenho tentado dizer – ultimamente com alguma acutilância, reconheço, e até despropósito, por vezes.

        3. «E nem se trata de se saber se o Trotsky, o Marx ou o Lénine, etc. etc. são, em conjunto ou isoladamente, “santos” que nos podem ajudar ou não a pensar o mundo em que vivemos. Claro que esse sentimento de capela existe e é muito forte.»

        Claro que não, João. A haver santos, eis-nos! 😉

        Abraço (também à casa)

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  8. rafael diz:

    João

    A minha questão inicial prendia-se, sim, com o facto da tua mudança de opinião e era isso que eu pretendia discutir: em 3 meses passar de considerar o PCP como ” o único partido que tem levado a cabo uma luta consequente de massas (e não apenas cingida a meia dúzia de intelectuais pós-modernos) contra o programa de agressão da troika.” para burocratas, escloresados e outros mimos parece-me assim, a modos para o esquisito, mas tu lá saberás das tuas motivações…

    • João Valente Aguiar diz:

      Não volto ao assunto por isso aqui fica a minha última palavra sobre isto. Aliás, nem sei porque respondo à contínua avalanche de provocações mas como te tenho em boa conta e já que há tanto fetiche e curiosidade mórbida sobre o que eu acho ou deixo de achar (agradeço o valor que me dão) aqui vai. Não responderei nem aprovarei mais nenhum comentário de ninguém sobre este assunto.Eu acho que sem o PCP a (já pouca) resistência contra a troika seria ainda menor. Eu não critico tanto o papel do PCP na resistência mas 1) o seu modo de procedimento e 2) o seu programa político. Aliás, não sei o porquê da preocupação com a minha posição, até porque eu fui pensando e escrevendo sobre o que deveria orientar a esquerda anticapitalista e sobre quais as minhas posições nesse quadro. Se há coisa que não falta de ruptura (mais nuns temas do que noutros) com posições anteriores são escritos meus sobre o assunto (uns mais de circunstância e mais de picardia, outros mais extensos e mais sistemáticos). Ninguém tem de os ler, na íntegra ou parcialmente. Não podem é acusar-me de mudar de posição como se eu tivesse actuado porque “teria batido com a cabeça na parede”. Se eu mudasse porque sim, ainda poderia ter interesse.
      Essa mania de se achar que uma pessoa ou se mantém ossificada para sempre ou então que nunca tivesse uma determinada posição parece-me um tanto ou quanto dogmática e mecânica. Por outro lado, quem assim raciocina está a esquecer-se de dois pormenores mto significativos. 1) Activistas e dirigentes anticapitalistas de variada índole e ao longo dos últimos 200 anos tomaram e modificaram de posições imensas vezes e sobre os mais diversos assuntos. Basta pegar nos exemplos canónicos do Marx e do Engels como anti-eslavistas e mesmo eurocêntricos relativamente a determinados povos e como isso contradiz a sua teoria da exploração ou o porquê de o partido bolchevique ter modificado a sua posição de apoio ao proletariado alemão e húngaro ao ter assinado o tratado de Brest-Litovsk ou como o Lénine mudou literalmente de posição numa viagem de comboio sobre a participação dos bolcheviques no governo provisório, ao contrário do que até então tinha defendido. 2) Eu sempre participei de forma transparente e honesta quando estive no PCP. Nunca tive problemas com ninguém e quando militei, fi-lo com todo o entusiasmo. Contudo, as crises são como as revoluções. Se as crises económicas têm o lado terrível de comprimir ainda mais as condições de vida e os salários dos trabalhadores, do ponto de vista político as crises também contribuem para esclarecer as linhas com que as várias correntes políticas se vão cosendo. Contudo, não encontro resposta para o porquê de alguns (poucos) activistas romperem com os empecilhos da ideologia dominante (nacionalismo, divisão entre economia “real” e “produtiva” VS economia financeira e “parasitária”, crítica dos governos e não do Estado, ausência de crítica das relações de produção, etc.) e o porquê de outros, ainda por cima em clara maioria, aprofundarem ainda mais os equívocos e ambiguidades que sempre têm caracterizado a esquerda. Militei normalmente como outro militante qualquer e não tenho nenhum embaraço por ter sido militante do PCP. Quando reflecti que não me identificava com a linha política do PCP saí. Transparente. É como um divórcio amigável. Não há muito em comum, logo cada um segue o seu caminho.

      • Tiago Mota Saraiva diz:

        João, acho que este teu comentário tem muito pouco de racional. E nem li mais nada a partir da 6ª linha.
        Não aprovarás mais nenhum comentário de ninguém sobre este assunto? Que não respondas, estás no teu direito. Mas que não aproves comentários de ninguém sobre este assunto? Não te apercebes do ridículo da coisa?

        • João Valente Aguiar diz:

          O assunto do post é uma coisa. Por exemplo, o teu comentário anterior cingiu-se a isso. A curiosidade mórbida e a provocação é outra coisa.

          • Rafael Fortes diz:

            Se consideras que as questões que te coloquei relativamente à mudança do teu posicionamento e discurso são mera curiosidade mórbida, estamos conversados, João…

            Abraços burocráticos e esclerosados

      • Leo diz:

        “Quando reflecti que não me identificava com a linha política do PCP saí. Transparente.”

        É um direito que lhe assiste. Entrou livremente, saiu livremente.

  9. Leo diz:

    “A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata” ????

    Esta é uma das velhas sentenças populares cuja falsidade está mais que provada, João.

    • Rascunho diz:

      Não, não está…
      os ditos populares têm o seu quê – sempre. E este deve-se ao seguinte. A laranja é um fruto característico (era, hoje com as estufas…) do inverno. Algumas pessoas, após uma hora de terem jantado, dirigiam-se a uma laranjeira e colhiam uma. Sumarenta como é, comiam-na… e, por vezes, morriam (não se ficando pela indisposição) de congestão. É uma probabilidade diminuta, mas é bem real…
      Claro que no meu caso, em concreto, a laranja é sempre intragável 🙂

      • Leo diz:

        “É uma probabilidade diminuta” ???

        Eu diria, inixestente…

        • João Valente Aguiar diz:

          No post fala-se em “metáfora”…

          • Leo diz:

            Ir buscar uma velha sentença popular quando se discute uma questão da actualidade é em si mesmo uma metáfora, parece-me…

        • Rascunho diz:

          Não é inexistente, é real – científica…

          • Leo diz:

            E estabelecida por quem? Cadê os estudos sobre a coisa?

          • Rascunho diz:

            JVA – lamento fazer fuga ao essencial, mas vou responder, pela última vez, em relação ao ditado popular.

            “Leo”
            “E estabelecida por quem?”

            Por quem quiser pensar um pouco… Ou queres colocar em causa a morte por congestão? Se se pode ter uma congestão a beber uma cerveja, após uma hora de se ter almoçado ou jantado, beber um sumo de laranja, colhido num ambiente natural a rondar os 4º ou menos (imagine aldeias em Dezembro, à noite) ou comer uma, por exemplo, a probabilidade de se ter uma congestão é real, ainda que diminuta – devido ao choque térmico. Daí ter dito que o ditado tem razão de ser – tudo uma questão de interpretação.

            Já agora, para que deixes de levantar qualquer suspeita, vou aqui abordar mais um dito, que a maioria continua a não perceber o real significado e fundamento, o famoso: «É dos carecas que elas gostam mais»… É óbvio que isto não se prende com a cabeça de cima, mas com a de baixo. Creio que em relação a este, não serão necessárias mais explicações.

            “Cadê os estudos sobre a coisa?”

            Faça procura, via google, em Prof. Dr. Luís F. Simões, doutorado na Lusófona – qualquer semelhança ou tentativa de comparação com o Dr. Relvas, é mera coincidência…

          • João Valente Aguiar diz:

            Sempre à vontade meu caro.

          • Leo diz:

            “beber um sumo de laranja, colhido num ambiente natural a rondar os 4º ou menos (imagine aldeias em Dezembro, à noite) ou comer uma, por exemplo, a probabilidade de se ter uma congestão é real, ainda que diminuta – devido ao choque térmico.”????

            Desisto, é imaginação demais para a minha cabeça!

          • Rascunho diz:

            Uff “leo”… estava a ver que não

  10. RG diz:

    respondendo à pergunta que legenda a foto do Sebastião Salgado, respondo: precisamos de saber de onde são e ao que vêm; isto de serem as massas é tudo muito bonito, mas não é por delas provirem que faz com que sejam de natureza libertária.
    Quantas vezes não está em causa um discurso, uma acção que mais não é do que uma expressão do fascismo.

    • João Valente Aguiar diz:

      Concordo consigo e agradeço a sua observação. Referia-me à luta que coloca (ou tenta colocar) em causa algum aspecto da opressão ou da exploração. Quando fala em fascismo você toca num ponto muito importante: este colocou massas em jogo e é isso que lhe deu um aspecto até hoje pouco compreendido mesmo pela esquerda. Se o fascismo fosse só repressão… O fascismo utilizou as massas contra os “agiotas” e os especuladores em defesa dos trabalhadores e dos empresários produtivos, no âmbito de uma luta do que um historiador chamou de “revolta dentro da ordem”.

      • RG diz:

        Continuando … o que só por si dá conteúdo à ideia de partido de vanguarda e da necessidade de uma organização sindical forte e politicamente determinada.

        • João Valente Aguiar diz:

          Não existe luta sem vanguarda. A classe nunca tem toda o mesmo nível de consciência. A questão é saber qual o papel das vanguardas. Elas substituírem-se aos trabalhadores só dá bronca, como sempre deu…

          Deixo um excerto de um texto do João Bernardo sobre este assunto:
          «É difícil duvidar de que existam vanguardas, qualquer que seja o nome que se lhe dê (“minoria ativa”, por exemplo). Em qualquer luta há os que são mais ativos, mais articulados, mais faladores, os mais bem relacionados, os que assumem mais tarefas, os que dispõem de mais tempo e recursos, os que conhecem na prática certas técnicas de mobilização. Esta é uma evidência, basta olhar. Um fato político de tamanha relevância para as lutas anticapitalistas só pode ser negado por quem quer que já se haja estabelecido enquanto vanguarda, mas prefira disfarçá-lo para tentar garantir privilégios; ou por quem pretenda, com razão, submeter aqueles primeiros a um rigoroso e necessário controle, negando sua existência na teoria na vã tentativa de fazê-los desaparecer na prática com suas palavras mágicas.
          É difícil também duvidar de que os dois problemas principais que as técnicas da organização política revolucionária se destinam a resolver são o estabelecimento de uma coesão no seio da vanguarda e a formação de canais de relacionamento entre a vanguarda e as massas. Assim, enquanto os leninistas concentram a atenção no aperfeiçoamento dos canais que permitem veicular as ordens das vanguardas, ou seja, no aperfeiçoamento das formas de enquadramento das massas sob a autoridade das vanguardas, é preciso preocupar-se acima de tudo com o reforço da capacidade de ação das massas, que lhes permita exercer o máximo de controle sobre as vanguardas e, tanto quanto possível, suplantá-las ao exercer diretamente o máximo de atividade. Daí a necessidade de reduzir progressivamente a distinção entre vanguarda e massas, através de sua indicação direta pela base; de sua substituição a qualquer momento em que as próprias “bases” o desejem; de impedir a cristalização de determinados indivíduos como “lideranças naturais”, através da rotação frequente de funções; da gestão cada vez mais direta dos processos de luta pelo corpo social dos trabalhadores.
          Mas é igualmente difícil crer que o fato de certas pessoas constituírem a vanguarda de uma dada luta ocorrida em dado lugar em dado momento deva servir de pretexto para as converter em vanguarda de todas as lutas em todas as circunstâncias. Esta eternização das vanguardas é um dos mecanismos fundamentais da sua conversão em elites e, portanto, da sua passagem para a classe dos gestores.

          Nos processos revolucionários o autoritarismo e o centralismo são sempre um sintoma de recuo, não de avanço, e resultam do fato de a base ter por um motivo ou outro se tornado incapaz de conduzir autonomamente as lutas. A burocratização começa sempre pela base de um movimento, nunca pelo seu topo. Por mais que os dirigentes queiram às vezes assumir uma postura independente das bases, consagrar os seus privilégios momentâneos como um direito próprio e instituir um tipo de ditadura sobre as bases que os legitimam, jamais o poderão fazer se a luta mantiver um dinamismo coletivo e os trabalhadores comuns se conservarem ativos e vigilantes. Mas se os obstáculos que forem surgindo, o desânimo e as desilusões contribuírem para dissolver os elos coletivos e para transformar a atividade em passividade, então manifesta-se e desenvolve-se a burocratização, que constitui sempre uma forma de isolamento dos dirigentes..»

          Acho este um dos melhores textos sobre o tema que li até hoje.

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            Não poderia estar mais de acordo. Por isso me sinto cada vez mais próximo das correntes libertárias de esquerda (por vezes identificadas como anarquistas), não podendo deixar de me surpreender pela quase total ausência dessas correntes – salvo um ou outro episódio folclórico – no nosso país.

  11. RG diz:

    Atenção: respondi em termos abstractos e não em função do que se passou na África do Sul.

  12. RG diz:

    O texto é muito bom. Escapa-lhe a meu ver algumas nuances que só a praxis política permite alcançar, tais como:

    a) que começam por ser as massas a esperar que seja a vanguarda a definir posições e orientações (ainda hoje conversava com uma camarada por quem tenho enorme apreço pela sua acção que se lamentava por o Partido não ter definida uma política em relação às touradas, e exemplos como este tenho ao molhes);
    b) que por demissão dos militantes de base da acção, muitas tarefas importantes acabam por ser desempenhadas pelos funcionários do aparelho partidário e que naturalmente este está normalmente aparece mais identificado com os dirigentes.
    Em determinado momento já defendi (e em tese continuo a defender) uma determinação estatutária que limitasse o acesso dos funcionários aos órgãos de cúpula; hoje perante o momento de defensiva entendo que uma matriz mais assente no centralismo leninista (como gosta de lhe chamar) é que melhor pode responder, dada a limitada participação dos militantes de base.

    • miguel serras pereira diz:

      Caro RG,
      de acordo com o diagnóstico – “começam por ser as massas a esperar que seja a vanguarda a definir posições e orientações” -, mas não tanto com a conclusão: “hoje perante o momento de defensiva entendo que uma matriz mais assente no centralismo leninista (como gosta de lhe chamar) é que melhor pode responder, dada a limitada participação dos militantes de base”.
      Com efeito, a solução proposta só pode perpetuar a ausência de participação igualitária e de direcção colectiva, a distinção entre dirigentes e executantes, homóloga dessa outra, entre governantes e governados, que é um traço distintivo da hierarquia e da dominação de classe. O papel daquilo a que o JVA e o JB chamam a “vanguarda” só pode ser propor, através da intervenção na acção, a participação dirigente (auto-dirigente) do conjunto dos implicados nas decisões – de luta ou de “governo” e de “gestão” – que lhes dizem respeito.

      msp

      • RG diz:

        Caro MSP,

        Um partido é uma estrutura bem mais complexa que uma comissão de moradores ou de trabalhadores, aí de facto é possível e acontece “a participação dirigente (auto-dirigente) do conjunto dos implicados nas decisões – de luta ou de “governo” e de “gestão” – que lhes dizem respeito”, fora desse âmbito não estou a ver como seria possível.

  13. RG diz:

    Caro MSP,

    Um partido é uma estrutura bem mais complexa que uma comissão de moradores , de trabalhadores, aí de facto é possível e acontece “a participação dirigente (auto-dirigente) do conjunto dos implicados nas decisões – de luta ou de “governo” e de “gestão” – que lhes dizem respeito”, fora desse âmbito não estou a ver como seria possível.

  14. Rocha diz:

    João. O último disfarce do reformismo é o “internacionalismo”. Acho que um dia vais compreender.

    Aquilo que tu chamas nacionalismo de esquerda, não é um elemento antagónico mas sim a verdadeira raiz e cerne do internacionalismo proletário.

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