A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata

Caríssimo Tiago, levando o teu raciocínio ao extremo sobre o desconhecimento do sindicalismo sul-africano (corroborado por um comentador no teu post), então eu também poderia dizer que pouca gente de esquerda em Portugal e na Europa percebe alguma coisa que seja sobre o euro, sobre a economia capitalista ou sobre o marxismo e não se importam de comentar e de escrever sobre o assunto como se fossem entendidos. (E aqui não me refiro necessariamente a alguém em particular mas a uma tendência presente na generalidade da esquerda). Esse argumento do pretenso desconhecimento, a ser válido, impedir-nos-ia de discutir quase tudo… Nem sequer percebo esse argumento do desconhecimento, ainda por cima nos tempos de hoje em que qualquer activista europeu pode aceder à internet e obter facilmente informações sobre as lutas sociais.

Será que precisamos de saber de onde são estes operários para nos solidarizarmos com a sua luta? Foto de Sebastião Salgado

Por outro lado, que eu saiba, a luta dos trabalhadores em qualquer parte do mundo é algo que deve interessar aos comunistas. Foi esse tipo de internacionalismo com a solidariedade do tamanho de um amendoim que deixou comunistas, militantes anticapitalistas (seja de que corrente forem) e trabalhadores morrerem à mão das classes dominantes só porque estão lá longe…

Todas as lutas operárias mais avançadas foram dirigidas a pensar numa libertação internacional dos trabalhadores. O processo revolucionário de 1917-23 começou nas barricadas francesas, russas, alemãs; bateu as ruas de Petrogrado, Budapeste, Berlim; levantou bandeiras vermelhas de marinheiros franceses no Mar Negro; de Londres a Nova Iorque sabotou armamento dirigido contra a Rússia soviética, etc. E o mesmo se passou no período 1968-75 que varreu todo o mundo.

“Não estamos à venda”. Manifestação auto-organizada após ocupação da Fiat pelos trabalhadores (1969), apesar da forte oposição dos seus sindicatos.

Para mim é tão importante uma luta de operários no Vietname, na Nigéria ou no Bangladesh, como uma luta em Portugal, no Brasil ou nos EUA, por mais longínquas as paragens em que essas lutas possam ocorrer. É dos processos entre os longínquos (e desconhecidos) que se constroem novas relações sociais e se iluminam os labirintos das nossas vidas atulhadas de dificuldades e de opressões de todo o tipo.

A laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata.

Para terminar, a metáfora da laranja inaugurada no teu post parece-me realmente oportuna para discutir estas questões: o mesmo objecto tanto pode dar vida como pode ser a nossa condenação. A luta anticapitalista tanto pode desembocar em processos emancipatórios, como pode ser a via para a ascensão de novas opressões. Por isso, ou as futuras lutas sociais atingem um tal grau de auto-organização e o controlo da vida social e política será exercido colectiva e democraticamente por todos os trabalhadores ou, como sucedeu na generalidade do século XX, elas são substituídas por uma qualquer vanguarda esclarecida e “socialista” que vai decidir, promulgar e governar pelos outros, mesmo que para isso ferre com os dissidentes na prisão. Cabe a cada activista e a cada anticapitalista escolher a altura do dia em que quer comer a laranja sob pena de cairmos no precipício… A forma é um conteúdo.

Do trabalho assalariado como prisão, ou porque enquanto os trabalhadores não dirigirem directa, colectiva e democraticamente a produção, estarão sempre sob a alçada de novas grilhetas. Foto de Sebastião Salgado

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