Louçã, o Grande!

Ao invés de se curar o trauma da burocracia com uma burocracia melhor, seria preferível que houvesse mais preocupação em interpretar direcções democráticas e, sobretudo, melhores políticas. Enquanto isso continuar a ser uma miragem para parte significativa da esquerda, o quem é quem dos representantes dificilmente permitirá discutir, aprofundar e escolher os caminhos que se seguem, sendo que os nomes continuarão a obedecer aos vícios assimilados, aos complexos jogos de poder da teia partidária e, claro, às escolhas do grande líder.

O BE, que inicialmente procurou, e bem, substituir os presidentes e os secretários-gerais por porta-vozes, acabou por criar o único líder insubstituível, sobretudo aos olhos de quem já devia estar preparado para o render. Em mais de uma década foi incapaz de formar uma nova geração para assumir o partido pelo que apenas lhe resta o retrato desgastado da renovação, convenientemente decorado pelo género oposto. O primeiro, o inefável Semedo, ficará célebre por ter acusado a dissidência de parasitar o partido, a segunda, a simpática Catarina, por assumir que estava no parlamento e no BE não para fazer política mas para tratar da cultura. Em toda esta discussão não haverá uma virgula quer sobre os erros do passado, nem uma ideia sobre o que se quer para o futuro.

A experiência cidadã, nomeadamente nos Fóruns Sociais, já tinha mostrado que uma organização que proclama a ausência de uma direcção, de uma liderança e de líderes, tem na verdade uma direcção, uma liderança e líderes duplamente perniciosos. Sem o estorvo da decisão sobre como e quem dirige, dispensa-se o estorvo de sequer ter que ser eleito e poupa-se, naturalmente, o desconforto de ser confrontado com a hora de saída. Não se chega verdadeiramente a ser escolhido e apenas sobre si recai a responsabilidade de decidir sobre o tempo e o espírito das coisas.

Francisco Louçã continuará assim a ser o principal dirigente do Bloco de Esquerda e, tal como de todas as outras vezes, vai voltar a prescindir de ser eleito. O paternalismo da sua carta e a fé suprema dos seus súbditos – “Quem nos vai guiar neste momento tão difícil?” pode ler-se num dos comentários – é disso um dramático exemplo e um reflexo cruel do vazio de quadros e de estratégia que reina na coligação do PSR, da UDP e do Manifesto.

Não sobra BE ao Louçã, mas sobrará Louçã ao BE.

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