Partido Comunista Sul Africano pede prisão do…dirigente da greve

A greve dos mineiros  a que o Governo respondeu com o massacre foi dirigida pela Association of Mineworkers and Construction Union (AMCU), um sindicato dissidente do sindicato NUM, o principal sindicato de mineiros ligado à Cosatu, central sindical dirigida pelo ANC, o partido do Governo. A AMCU tem vindo a crescer e radicalizar-se justamente porque o NUM e a Cosatu têm uma política pró governo. O Partido Comunista Sul Africano pede a prisão dos dirigentes sindicais que dirigiam a greve, acusando-os de terem semeado a «anarquia».

Na íntegra, para quem tiver estômago, a declaração do Partido Comunista Sul Africano.

SACP North West Media Statement

17 August 2012

Arrest Mathunjwa and Steve Kholekile as the basis for stability in the Rustenburg mines and institute Presidential Investigation Task Team, says SACP North West.

The SACP NW joins all South Africans in mourning and passing our deep condolences to all Mineworkers killed in the platinum mines in Rustenburg as the result of anarchic, violent, intimidation, murder of workers and NUM shopstewards. The chaos has been initiated under the guise of salary increase demands when in real terms it is the chaos and anarchy we see is being used as the entry point of recruitment for AMCWU. As the SACP we want to state categorically that it should have not been allowed until when death rises for law enforcement agencies and the nation’s leadership to take serious this barbaric act co-ordinated and deliberately organized by AMCWU leader Mr. Mathunjwa and Steve Kholekile who both are former NUM members expelled because of anarchy though at different times.

Before proceeding to get into the detail of this tragedy, we call on an immediate arrest of both Steve Kholekile and Mr Mathunjwa as co-ordinators, planners and leaders of this anarchic and worker to worker violence that has left many lives dead and some injured, and this applies to where they started and not only the current Lonmin process. Mr Mathunjwa could present an innocent face and try to smooth talk himself out of the crisis but we know him for who he is. He should not be allowed to perpetrate violence and appear as an innocent mediator.

We therefore call for a special Presidential Commission to investigate but not limited to: violent nature and anarchy associated with AMCWU wherever it establishes itself (starting with the scars that it has left around Witbank/Mpumalanga where it started), possible breach of both the Labour Relations Act and the SA Constitution on the freedom of association and right to form or join a union of your choice, the role of management of both Impala and Lonmin in the current problems or as facilitating the breach of both the Labour Relations Act and the Constitution, the role of the department of Labour and CCMA, possibilities of amendments to strengthen the LRA on the formation of unions as opposed to the current situation where individuals are allowed to form union like opening personal accounts or joining insurance policies as the current case with AMCWU and Mathunjwa, and the comrades who when they were supposed to be disciplined by Satawu they then formed their own union.

The SACP NW calls on workers to remain united in their fight against the exploitation under the capitalist system. Workers must realize that the class enemy is the system and not a union of NUM’s caliber or other workers. Workers must desist any temptation to mobilise them against NUM or to mobilise them to attack each other. Workers must not kill each other on the basis of demagogy and lies. Employers count loses on production and mineworkers and the working class count loses on injuries on human lives.

Issued on behalf of the SACP North West.

Madoda Sambatha

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25 respostas a Partido Comunista Sul Africano pede prisão do…dirigente da greve

  1. imbondeiro diz:

    As condições de trabalho e de vida dos mineiros são duríssimas, seja na África do Sul, nas Astúrias ou na China. Não me parece boa posição, apoiado numa mais que louvável solidariedade pelos explorados, aderir, de forma automática, à posição dos mineiros. Há

  2. João Valente Aguiar diz:

    Se cá acontecesse algo parecido, a resposta dos “partidos-irmãos” seria exactamente a mesma… Tudo o que a vanguarda “científica” e iluminada não controla é para aniquilar…

  3. imbondeiro diz:

    As condições de vida e de trabalho dos mineiros são duríssimas, seja na África do Sul, na China ou nas Astúrias. Não me parece avisado optar por uma leitura colada às “massas trabalhadoras” sem saber exactamente o que essas “massas trabalhadoras” pretendem atingir ou pretendem reivindicar. É que isto de “massas trabalhadoras” tem muito que se lhe diga: basta pensar nos camionistas do Chile de Salvador Allende.

    • Armando Cerqueira diz:

      Implicação lógica do ‘pensamento’ de ‘imbondeiro’:
      massas trabalhadoras são a numenklatura e os apparatchiki dos partidos ditos de esquerda no Poder: ANC, MPLA, PCUS, PC chinês, etc.

      São as únicas ‘massas trabalhadoras’ bacteriologicamente ou ideologicamente puras, que não cometem erros anárquicos, não fazem reivindicações inconvenientes (inconveniência de quem? Da grande burguesia ‘nacional’ e/ou estrangeira? Então o PC da AS e a ANC identificam-se com a grande burguesia, não é?). As massas trabalhadoras e os sujeitos ao despotismo no Poder não têm direito à reivindicação e ao erro! PCAS/ANC/imbondeiro dixit.

      Pena que os deuses não permitam que ‘imbondeiro’ se visse milagrosamente transformado em mineiro da platina da África do Sul. Seria interessante saber então em que barricada se colocaria…

      Dissidentemente,

      Armando Cerqueira
      Armando Cerqueira

      • imbondeiro diz:

        Implicação nenhuma. Eu ando tão a leste da política sul-africana quanto a esmagadora maioria dos que aqui opinam. Simplesmente, muito simplesmente mesmo, exprimi, tão só, uma dúvida. Que essa dúvida tenha extrapolado para comentário tão elaborado ( e, não duvido, informado) é para mim uma surpresa.

      • imbondeiro diz:

        Quanto às barricadas que escolhemos, ou para as quais somos empurrados, isso só nós sabemos quando lá estamos, não é assim?

        • imbondeiro diz:

          No que diz respeito a este inenarrável massacre: não terá ele muito mais a ver com as orgânicas e tiques internos da polícia sul-africana, coisas difíceis de ultrapassar, como nós bem sabemos, do que com as directivas político-ideológicas do Governo do ANC? É a (humilde) questão que eu deixo à discussão.

    • CausasPerdidas diz:

      Não confunda. A “greve dos camionistas” no Chile não foi greve, foi um “lockout” patronal. Desenhado a par do açambarcamento pelo comércio dos bens de primeira necessidade, estava integrado numa campanha política com o objectivo preciso de torpedear a distribuição de géneros no país. Um alvo preciso: o governo da “Unidad Popular” que havia nacionalizado um sector tão fundamental da economia como era a extracção do cobre – até aí nas mãos de uma multinacional norte-americana. Aqui, no Chile, não foi a falta de coragem do governo contra os saqueio dos monopólios, mas a nomeação de pessoas insuspeitas, como Pinochet, para dirigirem o exército, numa tentativa trágica de evitar a “radicalidade” quando o inimigo há muito havia decidido ser radical.

      Se bem se lembra, táctica idêntica – a do açambarcamento e sabotagem da distribuição – foi tentada contra a Revolução Bolivariana na Venezuela. Só que aqui o governo respondeu à letra, ameaçando tomar posse administrativa das cadeias e empresas de distribuição.

      A greve dos mineiros da África do Sul só é “injusta” porque fugiu ao controlo da burocracia que apoia um governo que vai desiludindo cada vez mais a Classe Trabalhadora sul-africana porque é incapaz de impedir a espiral descendente da pobreza onde cai cada vez mais gente.

      Segundo a BBC, “os mineiros ganham actualmente entre os 4 mil e os 5 mil rands mensais (390 e 488 euros), querem ser aumentados para os 12 500 rands (1 220 euros).”
      (do artigo no “i”, http://www.ionline.pt/mundo/marikana-jogos-poder-sao-polvora-na-mais-negra-matanca-na-africa-sul).

      Na minha opinião, assistimos à reedição trágica da táctica estalinista da “frente popular” (digo “estalinista” porque substituiu a tradição bolchevique-leninista de “independência de classe”), isto é, em nome da participação num governo “patriótico” interclassista mas em favorecimento da manutenção do “status quo” burguês, o partido comunista aceita o papel de refreador do movimento social. O exemplo mais terrível: a sujeição dos comunistas chineses ao “Kuomitang” de Chiang Kai-shek e o massacre do proletariado revoltoso de Xangai.
      E isto depois de tanto debate sobre “coerência de classe” a propósito da Grécia…

      • imbondeiro diz:

        Questão inocente: a táctica estalinista de “frente popular” substituiu a prática leninista de “independência de classe” ou veio no seu inexorável seguimento lógico?

      • imbondeiro diz:

        Só se esqueceu de dizer que essa sujeição fez parte de um plano a longo prazo do PC chinês. Há a táctica e há a estratégia. E os PCs, chineses ou outros, sempre foram exímios numa e noutra. Ou Mao sossobrou face a Chiang Kai Chek?

        • imbondeiro diz:

          “Soçobrou” e não, como erradamente grafei, “sossobrou”. É o que dá escrever quando praticamente nos rendemos a Morfeu. Mil desculpas.

  4. António Paço diz:

    «O SACP (Partido Comunista da África do Sul) junta-se a todos os sul-africanos no luto e apresenta as suas condolências a todos os mineiros mortos nas minas de platina de Rustenburg em resultado da intimidação anárquica e violenta, do assassinato de trabalhadores e funcionários do sindicato NUM.»
    A partir desta frase, vem um relambório contra um sector dos mineiros que dirige um sindicato alternativo ao NUM, o sindicato mineiro filiado na central sindical Cosatu, alinhada com o ANC (actual Governo sul-africano). E nem sequer uma palavra contra os assassinos da polícia sul-africana, os que efectivamente mataram, e que eu e todos os que vimos as imagens do massacre vimos a disparar contra os mineiros como se estivessem numa carreira de tiro! Nada! Os responsáveis, para o SACP, são os mineiros dissidentes do sindicato oficial. Proposta de acção: prender os seus dirigentes e fazer um inquérito presidencial. Ou seja: disparar primeiro, prender os que ficarem de pé e fazer um inquérito. Por esta ordem.
    Por acaso, li recentemente um artigo de uma investigadora alemã sobre as greves na RDA entre 1945 e 1989. Na RDA, formalmente o direito à greve existia. Mas após a violenta repressão das greves e lutas de 1953, todos os movimentos grevistas que existiram aparecem disfarçados de qualquer outra coisa: petições, por exemplo. Os envolvidos eram tratados como «inimigos de classe» e sofriam as devidas consequências: prisão, perda do emprego, perseguição. Alguns daqueles que tiveram algum papel na revolta de 1953 continuaram a ser seguidos pela polícia até ao fim do regime, em 1989.
    Pelos vistos, os filhos do estalinismo, como disse Talleyrand sobre os Bourbon, não aprendem nada e não esquecem nada. Na RDA ou na África do Sul.

  5. Armando Cerqueira diz:

    Olhe Raquel,

    ainda não estou em mim, ainda me sinto agoniado, com a impressão de um potente pontapé no estômago.

    Quando soube pela TV do massacre, do assassínio em massa, vieram-me aos olhos e à memória os anos 1960, Sharpeville. Para quem como nós nos anos sessenta lutou com os movimentos de libertação das colónias contra o Colonialismo, a opressão nacional e a exploração, e arriscou embora modestamente liberdade e vida em Angola, tais factos doem muito.

    Aqueles mineiros até podem ter cometido erros tácticos ou estratégicos (provavelmente não os cometeram) que nada justifica o assassínio em massa perpetrado pelas chamadas forças da Ordem, e o ódio com que os tratam. Ódio de classe, afinal…

    Quando mal saído da adolescência em pleno início dos anos 1960 li o pequeno livrinho de Georges Politzer (Principes élémentaires de philosophie, Paris, Editions Sociales…), aprendi que uma das leis fundamentais da dialéctica consiste na transformação de todos os ‘objectos’ (coisas, forças, instituições, etc) no seu contrário. Comecei então, jovem comunista, a pensar que essa lei se aplicava a todas as coisas, e portanto aos partidos comunistas e às pessoas (tive sempre, desde então, muito cuidado, procurando que essa lei não se aplicasse a mim!). Por isso não me surpreende a ‘posição’ do PC da África do Sul. Como não me surpreende que muitos PCs se tornassem reaccionários e enviassem tanta gente, inclusive valorosos militantes dos seus próprios partidos, para campos de concentração e extermínio, etc…

    Sim Raquel, dói muito ver no que ‘essa gente’ dita progressista se tornou e o sofrimento que infligem ao seu povo.

    Dói muito ver como o MPLA se transformou numa imensa e violenta empresa de opressão e expoliação. Dói muito saber como muitos dos nossos sonhos generosos se transformaram em pesadelos.

    Um abraço de solidariedade

    Armando Cerqueira

    • João Ramos diz:

      Só lhe queria dizer que dá gosto ler um comentário como o seu. É pena que o Partido Comunista Português continue a ver a soberania popular através de rótulos políticos. Se é um país comunista, só temos que apoiar… Se não é, quase tudo é legítimo para o mandar abaixo… E ao pensarem assim nunca colocaram a hipótese que um país comunista pode explorar mais o povo que um capitalista.

    • imbondeiro diz:

      Ao meu amigo ( camarada?) escaparam-lhe uma série de coisas ao longo dos últimos anos. Houve, em Angola, um acordo entre o poder civil ( o MPLA) e os militares: vocês fazem a guerra e ganham-na, e nós, o poder civil, permite-vos meterem-se nos negócios. É claro que o resultado foi o que se viu. Mas viu-se em África, e África, quer queiramos quer não, rege-se por parâmetros africanos. Parece-lhe pouco de esquerda? Parece-lhe nada democrático? Parece-me o mesmo a mim. Mas a questão é a seguinte: ou era isso, ou era uma situação à guineeense: golpe-de-estado e contra golpe-de-estado e assassinatos a esmo. Esse foi o preço da Paz. A quem está de fora, a quem não tem que dar a sua vida e o seu sangue, a quem não vê a sua família e a sua vida destruídas pela guerra, a coisa parece sempre por demais heterodoxa. Para quem suportou tudo isso, o preço actual, por incrível que pareça a olhos europeisticamente educados, é coisa pouca. É que o valor fundamental é a Paz. O resto, o resto que é importantíssimo, virá coma luta quotidiana do povo angolano. E esse, acredite, não precisa de padrinhos. Nunca precisou.

  6. Rascunho diz:

    1. “The SACP NW joins all South Africans in mourning and passing our deep condolences to all Mineworkers killed in the platinum mines in Rustenburg as the result of anarchic, violent, intimidation, murder of workers and NUM shopstewards.”

    É de salientar, não vá escapar aos menos atentos. Então, os tipos apresentaram condolências às vítimas?! Não deveria ser aos familiares das mesmas?

    2. “Employers count loses on production and mineworkers and the working class count loses on injuries on human lives.”

    Números… esta fez-me lembrar um deputado há uns anos – em que numa de se mostrar solidário e altruísta para com os sem-abrigo e doentes em convalescença, disse, sobre os visados, que não deveriam ser excluídos durante as eleições – apelando para que se fizessem chegar meios aos mesmos para exercerem o seu voto.

    Na altura, escrevi um artigo que foi censurado, como é óbvio, pela “imparcialidade” da nossa imprensa, em que dizia, ao ordinário em causa, que o que se deveria fazer chegar aos doentes eram cuidados e medicamentos atempadamente e aos sem-abrigo urnas carregadas de alimentos.

    Enfim…

  7. Rui F diz:

    Agora concordamos, Raquel.

    O PC da África do Sul “abriu caça” ao…sindicalista!
    Incrível.

  8. closer diz:

    Gostava de ler a opinião do Bruno Carvalho sobre este assunto.

  9. xico diz:

    Trabalhei numa câmara onde o partido comunista tinha ganho as eleições com larga maioria. Os trabalhadores, descontente com determinada situação, queixaram-se ao sindicato (CGTP) e este disse (ouvi e vi) que os trabalhadores tinham que compreender o patronato porque este lutava por eles. Mais tarde trabalhei noutra câmara onde ganhava as eleições a AD. Uma situação idêntica levou a uma reunião com a CGTP que aconselhou a greve. Confrontados por mim com a dualidade de critérios, porque ambas as câmaras tinham sido ganhas pelo vontade popular, não souberam o que dizer para além de gaguejarem.

  10. Clint Eastwood diz:

    E dizem-se estas bestas comunistas!

  11. miguel serras pereira diz:

    Ou seja: “novos ratos mostram a avidez antiga”, como no poema de Sophia.
    O problema é que o investimento político num partido (e suas organizações adjacentes) que se institui como portador da legitimidade histórica de dirigir superiormente aqueles que diz representar é, na linha do que o JVA lucidamente sugere num comentário anterior, o investimento numa estrutura, forma e/ou aparelho classista que só pode reproduzir ou reciclar a exploração e a dominação hierárquica, perpetuar a sociedade de classes ao perpetuar a sua própria legitimidade acima da democracia.

    msp

  12. José Manuel diz:

    Pelo que li aqui ninguém sabe com precisão o que aconteceu, nem as forças que se combatem, nem o que pretendem…mas todos têm opiniões convictas sobre tudo e mais um par de botas. Fantástico.

  13. Pingback: A CGTP quer julgar os trabalhadores grevistas na África do Sul? | cinco dias

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