Antena 1 e os mineiros da África do Sul: «cheirava a carne queimada mas não sabíamos…»

Hoje de manhã tive o azar de ouvir a Antena 1, onde uma peça «jornalística» sobre o massacre dos mineiros da África do Sul me lembrou aqueles tipos que viviam nas imediações de Dachau, na Alemanha, e, quando no fim da guerra lhes perguntaram se não sabiam dos campos de concentração disseram: «cheirava a um odor que parecia de carne humana mas não tínhamos bem a certeza…». O jornalista não defendeu os mais frágeis – quem trabalha – nem o direito dos trabalhadores se armarem contra a exploração. Não tinha que o fazer como jornalista. Estava porém obrigado a dizer, no mínimo, as razões da polícia e as razões dos mineiros, para que nós possamos formular uma opinião, em vez de ter a sua opinião. Ficou-se pelas razões da polícia (nem uma entrevista a um mineiro, nem uma palavra de um sindicato, tudo se resumiu às declarações da comissária da polícia). Entre os argumentos estava o da greve ser «ilegal» e que os trabalhadores estavam armados. Tivemos assim, na Antena 1, uma declaração de um político, cúmplice da barbárie, travestido de « jornalista».

Estes mineiros acordam de manhã e vão para a mina trabalhar x horas para pagar o seu salário (3, 4 horas?) e  ficam lá a trabalhar x horas a mais (6, 8?) para entregar o lucro ao patrão – chama-se extracção do sobretrabalho. Estes mineiros lutavam por aumentos salariais, contra os cortes impostos desde a crise de 2008, o tal aumento que Marx dizia que não tem tecto máximo a não ser a força da luta. Só este ano morreram em acidentes em minas na África do Sul 40 mineiros. Entre 1900 e 1993 – notem bem nesta cifra – morreram 69 000 mineiros nas minas da A. Sul e cerca de 1 milhão ficou ferido.

A greve é uma paralisação da produção por quem trabalha, um confronto político, económico e a sua moldura jurídica (legal ou ilegal) é irrelevante a não ser para quem desconhece que historicamente a maioria das greves foram e são ilegais; mesmo que a greve seja ilegal não há nenhuma legitimidade para atirar rajadas de metralhadores sobre os trabalhadores; mesmo que os trabalhadores estivessem armados a polícia do Estado não tem que entrar dentro de uma mina privada ou pública e resolver com a força das armas um conflito que é entre o patrão e os trabalhadores. A não ser que assumamos que este Estado serve para treinar assassinos armados (polícias) para defender a propriedade privada e a extracção do sobretrabalho.

Cheira a queimado na África do Sul: os culpados têm nome. São o ANC, provavelmente o próprio presidente Jacob Zuma, o patrão da mina, a comissária da polícia, os polícias.

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11 Responses to Antena 1 e os mineiros da África do Sul: «cheirava a carne queimada mas não sabíamos…»

  1. Myriam Zaluar diz:

    ler os comentários nos jornais online portugueses a este respeito (e a muitos outros) deixa qualquer ser humano profundamente doente. Pergunto como é possível acordar no dia seguinte a isto e continuar o rame rame do quotidiano como se nada fosse? como é possível que as pessoas comentem este caso com enormidades como “sāo pretos, eles sāo os piores racistas” ou “eles estavam armados,os polícias apenas se defenderam”? que mundo é este???

  2. TC diz:

    (…)mesmo que a greve seja ilegal não há nenhuma legitimidade para atirar rajadas de metralhadores sobre os trabalhadores; mesmo que os trabalhadores estivessem armados(…) A sério? Mesmo tendo em conta os mortos conhecidos nos dias anteriores (tanto do lado dos mineiros como do lado da policia) você acha mesmo que a policia (ou fosse qualquer outra pessoa) não iria ter a mesma reacção? Ver um grupo de homens armados a carregar sobre si acha mesmo que a reacção da policia iria ser virar costas e fugir?
    Não estou com isto a dizer que defendo a actuação da policia nesta greve, mas daí a dizer que neste caso em concreto a culpa é da policia…

    • Oui,m'a non plus diz:

      E,pelos vistos a policia bem podia atirar para as pernas mas,como nao teem cabeça nem pontaria…e agora,Mandela???

    • Rascunho diz:

      Deixo um comentário do meu irmão, Paulo Simões: “Pois é, D.Emília, e chamam áquilo polícia! Por detrás de cada uniforme daqueles esconde-se um assassino da pior espécie…”

    • Caxineiro diz:

      Fossem eles grevistas, hooligans, adventistas do sétimo dia ou outra coisa qualquer, aquilo foi mau demais Foi um massacre, caramba!
      As imagens são claras demais. Reveja as imagens e repare nas “armas” dos mineiros. A polícia não se está a defender, não está a responder a nenhuma agressão, nem a dar tiros de aviso, está a abater seres humanos como se fossem gado
      Como pode aprovar esta merda?…

  3. TC diz:

    Já agora, a imagem que seleccionou para este post não bate muito certo com o que escreveu… Ou será a pessoa fotografada um policia infiltrado com o objectivo de causar desacatos como o que aconteceu?

  4. JgMenos diz:

    O direito inalienável dos trabalhadores explorados de massacrarem polícias que se intreponham entre eles e o patrão, é um princípio de Raquel Varela vai levar às mais altas instituições internacionais.
    Esta é uma comuna como deve de ser!
    Não como esses teóricos de ‘capinarem sentados’. Larga a pena e pega na azagaia , quero-te nas capas dos jornais!
    Avante!

  5. Torcato Ribeiro diz:

    TC,
    Se reparara, após o tiroteio a polícia aproximou-se dos corpos juntamente com um veículo que tinha no tejadilho um canhão de água. Se a intenção não fosse matar, este instrumento teria entrado em acção e neutralizava com facilidade as catanas e os paus. Só que, para mal daqueles desgraçados, a intenção não era essa.
    O resto é conversa da treta.

  6. hobshawm_legacy diz:

    O ANC ainda é um movimento de libertação que integra o PCAS?

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