Quem tem medo compra um cão?

Não percebo bem porque é que estas notícias são tratadas no Correio da Manhã e não há uma exigência nacional de não tolerar, sob pena alguma, gente que ao medo que tem responde com aterrorizar os outros, sobretudo aqueles que pode aterrorizar sem esforço, os mais frágeis, as crianças. Andar com um cão que pode matar uma criança e dizer que «ele não morde», «tudo depende do dono» é uma fraude linguística. Andar com um cão que aterroriza os outros, pela trela, é o mesmo que andar com uma arma, mão no gatilho, e dizer «tenha calma, não dispara». É aterrorizar gratuitamente o próximo. Não tem nada a ver com o cão ou o dono, tem tudo a ver com uma sociedade em que os mecanismos de cooperação e, sobretudo de sanção social de quem não coopera, estão desfeitos.

Acidente ocorreu num apartamento na Rua de Camões, no Porto
“Banho de sangue” e “cenário horrendo”: uma bebé morreu esta terça-feira à tarde vítima de um cão que estava na mesma casa em que ela fora deixada para passar a tarde. A família, e a comunidade, estão em choque.
“Eu tentei, mas não consegui carregar a minha irmã Babi… Só consegui fugir para a casa de banho”. As palavras são da menina de 8 anos que, ontem à tarde, viu a sua irmã de 20 meses, Bárbara, ser atacada, e morta, por um cão de grande porte, um dogue-argentino, no 1.o andar dum apartamento na Rua de Camões, Porto.A irmã, cujo lamento foi reproduzido por uma vizinha, “muito chocada e toda a tremer”, é uma das três testemunhas do ataque, que ocorreu pelas 16 horas na sala de estar.

Na altura dos factos, estavam ainda presentes a dona da casa, de nome Alexandra, que é amiga da família e ficou encarregue de tomar conta das duas crianças, mais a sua mãe. Esta, que é idosa e se desloca em andarilho, ainda terá tentado separar o cão da criança, usando o aparelho como arma, “mas já não conseguiu nada, coitadinha, está muito destroçada”, diz a mesma vizinha, que pede anonimato. “A dona da casa não chegou a fazer nada – desmaiou e foi para o hospital”.

Ataque durou segundos 

“Que desgraça, foi um banho de sangue, Jesus!”, diz outra vizinha, que pede também anonimato. “Havia sangue na sala, nos corredores, nas escadas, até a ambulância ficou toda manchada”, diz a mulher. O cenário seria tão horrendo que “até os polícias e os auxiliares do INEM estavam chocados e comovidos”.

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13 Responses to Quem tem medo compra um cão?

  1. Este caso é sem dúvida horrível e trágico. Mas queria acrescentar alguns factos que me parecem pertinentes e fazer um comentário ao post. O cão em questão era da raça dogue argentino, uma das raças legalmente consideradas perigosas e por esse motivo têm de andar na rua com trela e açaime. Este incidente porém teve lugar em casa da Alexandra (dona do cão, diz o CM) que com sua mãe (idosa de andarilho) tomavam conta das duas pequenas vizinhas, incluindo pela primeira vez da falecida Barbara.
    Ter começado este post falando sobre aterrorizar o próximo com cães, como se estes fossem revólveres (analogia que me parece exagerada), parecem-me assim sair fora das implicações do caso específico. Parece atestar sim para um mau juízo da dona do cão e sua incapacidade de controlar o cão e providenciar um meio seguro para as crianças ao seu cuidado, mas também um mau juízo da mãe das crianças em deixá-las num apartamento com um cão perigoso (embora admito, poderia não ter outra solução). Ou seja parece-me sim apontar para o dono, responsável pelo cão, e (embora custe admitir) da mãe também. Se a criança tivesse sido deixada numa casa em que também habita um reconhecido sádico, um ataque da parte deste seria reconhecido como também um mau juízo da parte da mãe.
    Mas este caso acho que se presta para perguntar-mos porque as raças reconhecidas como perigosas continuam a ser legais.

    • Raquel Varela diz:

      André,
      Totalmente de acordo com o teu comentário, em tudo, incluindo no «porque continuam a ser legais?». Agora, é um facto que estes cães provocaram já vários acidentes e muitos na rua.

  2. Doorstep diz:

    O lobby “pró cães de ataque” existe e cuida dos seus interesses.

    Os cães de ataque estão no centro de um vultoso comércio de apostas ilegais – lutas de cães, e constituem um dos equipamentos de dotação obrigatória para as estruturas intermédias das máfias da droga – armazenistas e tesoureiros. Daí saem exemplares que são comercializados com o label “protecção pessoal”.

    Os lobbyistas mais poderosos são os consumidores de “protecção pessoal”, que em percentagem importante animam outros lobbys… igualmente poderosos…

    Este estado é um vómito permanente, só nos resta esperar que se engasgue e sufoque.

  3. miguel serras pereira diz:

    Como leitura que ilumina algumas das questões de fundo subjacentes ao caso, aqui fica a recomendação do extraordinário romance de 2008 de Maria Velho da Costa: Myra, Lisboa, Assírio e Alvim.

  4. Mário Estevam diz:

    O treino destes cães custa alguns milhares de euros. Estes cães são extremamente perigosos e não devem estar acessíveis a qualquer zé. Estes vão ser abatidos e espero que os donos passem pela correcção prisional.

  5. João diz:

    “O proprietário dos quatro cães de raça rottweiler suspeitos de terem morto uma mulher na Várzea de Sintra em 2007, foi hoje condenado a ano e meio de prisão, com pena suspensa, e a pagar 125 mil euros de indemnização.”
    Também não penso que seja esta a solução, mas antes a pura proibição da posse desses animais.

  6. Zuruspa diz:

    É preciso ser um dogo argentino (sim, em português é dogo) para fazer isto? Nem nada que se pareça. A filha do meu primo ficou sem quase meia cara e cega de um olho por coisa semelhante, com um cäo de tamanho normal. Estavam a brincar e o cäo deu-lhe uma “dentadinha amigável”, como fazem com os outros cäes. Felizmente a menina “só” ficou com cicatrizes como recordaçäo, após muita cirurgia.

    Se calhar este dogo até só estava a brincar com o bebé. Só que a mandíbula é forte demais e a carne tenra de menos, muito mais tenra que os ossos ou paus com que habitualmente brinca. Por isso näo há outra maneira que proibir esta raça, criada há menos de 100 anos precisamente para ser agressiva.

  7. m diz:

    pois não é preciso ser um dogo , é só ser um cão..o meu irmão mais novo com 7 anos foi mordido na cabeça ( tem uma cicatriz e peras no escalpe , um milagre não ter morrido) por um pastor alemão . nem sequer estava a brincar com ele , estava de costas prá besta. não posso com cães. tanta coisa com o tabaco , e essas escravos felizes passeiam-se à vontadinha incomodando , mordendo e matando.

    • JDC diz:

      Sim, tabaco e animais são iguais. Não saber controlar um cão ou fmar é exactamente a mesma coisa…….

      • Caxineiro diz:

        Gostaria de perceber os caminhos tortuosos que percorreu até chegar a essa conclusão : )
        “tanta coisa com o tabaco”, sim. Tanta propaganda contra os fumadores que só se prejudicam a si próprios, (quando se prejudicam) e é raro falar-se nesta epedemia que é a moda de ter um cão perigoso a passear-se pelas ruas prejudicando os outros perante a “vista grossa” ou ignorancia da polícia de SEGURANÇA PÚBLICA
        Aqui para os meus lados já se resolveram alguns problemas deste tipo da maneira mais básica, mas mais prática tambem: com a promessa de uma carga de lenha ao dono
        Já imaginou o que é estar à noite na praia a pescar e levar com um pitbul ou doberman em cima?…Prefiro 50 fumadores

  8. Tima diz:

    Para quem estiver interessado.
    Se algum dia forem vítimas de um ataque (ou tentativa) de um cão e principalmente se estiver qualificado como “cão perigoso” dirigijam-se a uma esquadra e de imediato apresentem uma queixa crime. À data dessa queixa o dono do cão terá que ter os seguintes requesitos totalmente preenchidos:

    1º Registo como cão de raça perigosa passado normalmente pela junta de freguesia da área.
    2º Obrigatória identificação electrónica ( CHIP).
    3º Seguro Obrigatório contra acidentes pessoais a terceiros causados pelo animal.
    4º Boletim de vacinação em dia.
    5º Quando em via pública estes cães têm de ter uma trela especialmente reforçada com não mais de 1 metro de comprimento.
    6º Em via pública terão de estar sempre com açaime.

    Qulaquer destes elementos em falta constitui de imediato factor de incriminalização.
    É óbvio que a maior parte das pessoas não cumpre estes requesitos e em caso de algum de vós ser vítima deverão de imediato proceder judicialmente.

  9. LAM diz:

    Neste como noutros assuntos há especialistas para tudo.

    A lei existente está mal feita, à pressa, e reflecte aquilo por que passam as leis feitas em cima dos acontecimentos.
    Foram tipificadas raças de cães cujo comportamento e caracter eram susceptíveis de serem considerados perigosos e a chamada força de mandíbula. Daí partiu-se para uma lista que englobaria os animais comuns a ambas as listas, tendo como resultado sido classificadas 7 raças de cão.

    O problema disto começa logo sobre a tipificação das raça: um animal proveniente de cruzamento, segundo os especialistas, não é um animal daquela raça “x”. O pit bull, por exemplo, segundo alguns especialistas, nem é considerado “raça”. (é ali uma coisa qualquer cruzada com o yorkshire bull terrier, essa sim uma raça considerada). Ou seja, nenhum polícia ou alguém menos “expert” estará em condições de, face à lei que existe, obrigar às precauções de trela, açaime, etc.

    Depois há o problema da força de mandíbula: há muitas raças que, não sendo consideradas perigosas pelo “carácter”, têm força de mandíbula nalguns casos muito superiores às tais 7 raças consideradas perigosas. (um serra-da-estrela ou um boxer, só para dar dois exemplos, têm força de mandíbula equivalente e nalguns casos superior a algumas raças consideradas perigosas – e nem queiram ver, um ou outro, “virados do avesso”…).

    Abreviando, pela experiência que tenho, e se me permitem tenho alguma, qualquer cão de peso superior a 20 kg , INDEPENDENTEMENTE DA RAÇA, devia ser obrigado a circular com trela e açaime.
    Não quero dizer que sejam mais perigosos na globalidade dos acidentes com cães – os mais pequenos, estatisticamente e por largo, mordem mais, mas os maiores, às vezes até por excesso de carinho a que se dedicam (a maior parte dos acidentes com crianças tem a ver com isso) podem deixar marcas irreparáveis.

  10. LAM diz:

    Outra coisa sobre este assunto: não há “raças mais amigas de crianças”. Há raças amigas das crianças DA CASA, das conhecidas e que convivem mais ou menos diariamente. Todas as outras são para eles …outros cães. Cuidado com algumas dessas ideias feitas.

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