João Arsénio Nunes: Política comunista e previsão histórica

O texto que se segue foi enviado pelo autor, por uma questão de facilidade de “postagem” foram retiradas as notas bibliográficas que acompanham o original. No final está o link ao texto do Miguel Urbano referenciado pelo João Arsénio Nunes como uma das razões que o levou a esta reflexão.

João Arsénio Nunes

Política comunista e previsão histórica*

Vivemos um tempo em que é difícil resistir a interrogar os oráculos, sobre o destino individual e colectivo. Subsiste ou não o euro?, reforça-se ou dissolve-se a União Europeia? resolve-se ou aprofunda-se a crise económica mundial?, são, entre muitas outras, interrogações que todos os dias ouvimos formular e das quais sabemos dependerem as vidas de cada um. Não faltam os que dão por ultrapassado o tempo em que se podia pensar que algo dependesse da vontade, da criatividade e das capacidades de acção individuais e colectivas. Às profecias que noutros tempos anunciavam a sucessão necessária do capitalismo pelo socialismo, a espécie de marxistas invertidos que domina a cena mediática, numa lógica economista que supera todo o dogmatismo conhecido, contrapõe uma bateria de “inevitabilidades” – do “ajustamento” orçamental, portanto da descida dos salários, portanto da renúncia aos direitos sociais, e mesmo da renúncia parcial ou total à democracia, que é um luxo caro…tudo em obediência aos imperativos cientificamente indiscutíveis da globalização.

“Na realidade, pode prever-se ‘cientificamente’ apenas a luta” (Gramsci)
Essa perspectiva, que abole os sentimentos, a experiência e a vontade dos indivíduos e dos grupos sociais como factor da História, foi em tempos agudamente criticada por Antonio Gramsci, que considerou pueril a tentativa de considerar a causalidade e a previsibilidade dos factos sociais à imagem das ciências físicas. Como ele escreveu: “Na realidade, pode prever-se ‘cientificamente’ apenas a luta, mas não os momentos concretos desta, que não podem deixar de ser resultados de forças contrastantes em contínuo movimento (…) Realmente ‘prevê-se’ na medida em que se opera, em que se aplica um esforço voluntário e portanto se contribui concretamente para criar o resultado ‘previsto’.”
O recente artigo de Miguel Urbano Rodrigues no diário.info – “As rupturas revolucionárias não são prèdatadas” – inscreve-se nesta linha de pensamento revolucionário. Aos que, perante os avanços da reacção social e política à sombra da lógica das inevitabilidades, se sintam inclinados à resignação e ao pessimismo, Miguel Urbano lembra outras situações históricas de crise da democracia e do progresso social a que sucedeu, num curto lapso histórico, a emergência de revoluções, considerando mesmo que estas são em geral imprevisíveis.
Se a sua tese é útil para animar a confiança no futuro e a disposição de luta no presente, ela vai porém tão longe na negação da possibilidade do conhecimento objectivo das situações históricas e das suas possibilidades de transformação que, a ser verdadeira, os conhecimentos teóricos do marxismo de nada valeriam enquanto “guia para a acção”. Também a este propósito o já mencionado Gramsci produziu, aliás em crítica ao oportunismo político, uma observação pertinente e que merece reflexão: “se os factos sociais são imprevisíveis e o próprio conceito de previsão é um simples rumor, o irracional não pode deixar de dominar, e toda a organização de homens é anti-história, é um “preconceito”: só resta resolver caso a caso, e com critérios imediatos, os problemas práticos singulares postos pelo desenvolvimento histórico (…)” .
Para Miguel Urbano, sendo a crise de civilização do capitalismo global e final, a revolução como cataclismo redentor pode irromper em qualquer tempo e lugar. A “análise concreta da situação concreta”, de que falava Lenin, das possibilidades e dos limites que ela coloca à acção, deixaria de ser necessária.
Em ano de congresso partidário, a análise de Miguel Urbano merece especial atenção, porque dá forma coerente e expressão elegante a sentimentos, opiniões e perspectivas que, mesmo não coincidindo com os expressos em documentos partidários, se encontram bastante generalizados entre militantes e simpatizantes comunistas e encontram nesta sua versão a vantagem da clareza e da consequência.
Vale a pena portanto reflectir com algum detalhe sobre as suas teses.

“A política parece-se mais com a álgebra que com a aritmética” (Lenin)
A primeira coisa a sublinhar e que é de extrema importância, é a noção claramente expressa (e que está longe de ter sido assimilada pela maioria do povo, dos intelectuais e dos responsáveis políticos, inclusive no campo progressista) de que, no quadro da presente crise mundial (não só económica), o regime democrático aberto em Portugal pelo 25 de Abril e estruturado na Constituição de 1976 se encontra hoje à beira da ruptura. A frase é minha, mas creio resumir uma das teses estruturantes do seu raciocínio e base da afirmação de esperança de que “será finalmente o povo a pôr fim” à actual política.
Partindo da acertada constatação de que “as rupturas revolucionárias não são pré-datadas” nem “facilmente previsíveis”, Miguel Urbano deriva no entanto rapidamente – e aqui já não o acompanhamos – para a sugestão de que não há análise racional possível que permita prever algo válido no que respeita à duração e ao fim dos regimes políticos.
É bem verdade que as revoluções não são “facilmente previsíveis” e que em geral nada em política (como história no próprio processo de se fazer, história do “momento actual”) é facilmente previsível. Não é fácil porque, como também Lenin observou, “a política se parece mais com a álgebra que com a aritmética e mais ainda com as matemáticas superiores que com as matemáticas elementares.” .
Os exemplos que Miguel Urbano aponta em abono da ideia da imprevisibilidade das revoluções, sendo válidos para mostrar a complexidade e até a falibilidade da “ciência política” do marxismo, não podem porém servir para demonstrar a impossibilidade de apontar tendências e possibilidades das situações históricas. É oportuno observar que o próprio acto de nascimento do marxismo como teoria e como doutrina – o Manifesto Comunista de Marx e Engels, escrito em 1847 e publicado em Fevereiro de 1848, coincidindo com o início dos acontecimentos de Paris que marcaram o princípio de revoluções que abalaram a Europa e constituíram a entrada em cena do movimento operário à escala internacional -, é indissociável justamente da previsão de acontecimentos de alcance histórico em que a classe operária seria protagonista (“um espectro paira sobre a Europa, o espectro do comunismo”). Que as capacidades de previsão não tenham sido bastantes para apreender imediatamente os recursos de reacção e adaptação de que as classes dominantes dispunham – e com eles a possibilidade de duração e expansão ulterior do capitalismo -, em nada diminui o mérito da análise que o Manifesto inaugurara. Foi equipados com estas possibilidades de análise que os marxistas da II Internacional previram, com bastante certeza, a probabilidade de eclosão de uma revolução na Rússia, que em 1905 se verificou . Se alguns tiraram de tal previsão uma conclusão de passividade, expectativa e renúncia, por a considerarem revolução “objectiva e necessariamente burguesa”, Marx encarou o problema, no fim da vida, com muita prudência, não desprezando a possibilidade de as tradições comunitárias do campesinato russo virem a encontrar uma via de ligação com o movimento revolucionário do proletariado ocidental . E Lenin, a quem a História viria a incumbir a liderança da primeira revolução socialista, foi também o teórico do “Desenvolvimento do capitalismo na Rússia” (título da sua primeira obra de fôlego) e sobretudo da construção da hegemonia do proletariado na revolução democrático-burguesa, que permitiria o desenvolvimento ulterior no sentido do socialismo, verificando-se determinadas condições. É verdade que, no princípio de 1917, Lenin dizia aos jovens socialistas suíços que “talvez nós os velhos não vejamos as lutas decisivas da revolução iminente” , mas toda a análise do imperialismo, que então desenvolve, compreende e relaciona-se com a previsão de que a Guerra mundial em curso ocasionaria rupturas revolucionárias. E todo o seu esforço, nomeadamente a partir da revolução de Fevereiro de 1917, assenta na análise – na previsão – das possibilidades de desenvolvimento da revolução democrático-burguesa em revolução proletária: sobretudo pelo sublinhado de que entre as duas não há uma “muralha da China”, mas sem deixar de ter em conta os limites que a estrutura económico-social da Rússia colocava e que, portanto, a passagem ao socialismo não podia resultar de simples decisão de vontade ou de um gesto de audácia.
Não podendo aqui, até por falta de competência, debruçar-me sobre todos os exemplos apontados por Miguel Urbano de revoluções “imprevisíveis”, julgo no entanto que aquilo a que se refere – e que, isso sim, é justo afirmar – é à forma como certos desenvolvimentos bruscos, que por vezes se operam no decurso dos processos revolucionários e do processo histórico em geral, têm escapado à possibilidade de previsão, e principalmente de calendarização, mesmo dos melhores revolucionários. É certo que era impossível de prever o começo da guerra revolucionária no Vietname pouco tempo depois de Ho-chi-minh ser recebido em França, a seguir à II Guerra mundial, e assinar acordos que admitiam uma longa transição para a independência; ou que os jovens revolucionários cubanos se declarassem marxistas-leninistas e encetassem uma revolução socialista escassos dois anos depois de terem conquistado o poder com ideias de liberdade que não ultrapassavam o quadro democrático-liberal.

Era imprevisível a revolução portuguesa de 1974?
Tal corresponderia a defender que o 25 de Abril nada teve ver com o diagnóstico que, pelo menos desde o Rumo à Vitória, escrito dez anos antes, o PCP fazia das contradições no seio do regime salazarista e da aproximação duma crise decisiva. Mas não só a ruptura e o fim do regime foram, em termos gerais, previstos. Com o aparecimento do movimento dos capitães, começou a ser possível em certa medida calendarizar a possibilidade de eclosão da ruptura.
É claro que era difícil de prever, e ninguém previu, que a ruptura do regime fascista tivesse uma base de apoio tão ampla e contasse com a participação determinante de figuras que pouco antes nele tinham tido lugar de destaque. Era igualmente difícil de prever que, nestas condições, um processo revolucionário se desenvolvesse tão rapidamente que em pouco mais de um ano iniciaria transformações socialistas.
Mas – e esse é um mérito que o PCP sempre tem justamente reivindicado – a análise da estrutura e das dinâmicas da sociedade portuguesa permitiu prever com bastante aproximação a natureza das classes sociais interessadas e participantes na revolução, bem como o necessário envolvimento de parte das Forças Armadas (ainda que o protagonismo da iniciativa e a dimensão decisiva deste envolvimento não tenham sido previstos). Tal análise permitiu ainda definir a natureza dos objectivos prioritários a alcançar, de modo a defender e consolidar a revolução e conservar para ela uma ampla base social de apoio. Permitiu igualmente equacionar – dez anos antes de os acontecimentos se verificarem – quais os objectivos que eram adequados (e excluir outros, inadequados) à realidade objectiva da sociedade portuguesa, e portanto susceptíveis de conquistar apoios sociais bastantes para lhe permitir avançar para além da fase inicial da conquista da liberdade política e aproximar-se dos objectivos de transformação socialista.
Mas a capacidade de previsão do PCP – previsão que não é expectativa, mas tomada em conta de todos os factores objectivos e subjectivos de uma situação, portanto inseparável da organização para a intervenção na realidade – não se esgotou nesse delinear antecipado duma possibilidade histórica. Traduziu-se na capacidade de analisar situações e colocar objectivos que correspondiam ao sentimento popular e à sensibilidade dos militares democratas, o que lhe deu, no decurso do processo revolucionário de 1974-75, uma capacidade inigualada de incidência sobre a evolução das relações de força políticas e elevou o Partido à condição de protagonista decisivo da revolução.
Em suma, a tese de Miguel Urbano sobre a “imprevisibilidade” das revoluções é justa enquanto lembra que na vida social e política dos povos as coisas são muitas vezes diferentes do que parecem, e que a actual aparência de estabilidade político-social e de “inevitabilidade” da aceitação das medidas reaccionárias em curso – tema predilecto dos defensores da desordem estabelecida – é enganadora e gera o fatalismo.
Representaria porém um grave erro, para quem pretende combater a ofensiva anti-democrática em curso, a renúncia a uma análise o mais possível científica, objectiva (o que inclui a subjectividade social das classes e dos partidos) e exaustiva da situação, que é não só indispensável mas crucial para a intervenção que a situação requer. Em Setembro de 1917, Lenin não idealizava a redenção da humanidade pelo socialismo. Mais prosaicamente, equacionava “a catástrofe iminente e os meios de a combater”. É do mesmo género a tarefa que temos pela frente.

Evitar a catástrofe iminente requer uma análise objectiva da situação
Embora recuse a previsão e a “calendarização”, o texto de Miguel Urbano assenta numa avaliação da época actual, que define como crise de civilização e como “tempo de mudança”. Sem dúvida que a presente crise do capitalismo – em todas as suas dimensões, não só económicas – é global. Não é a primeira crise mundial do capitalismo – a primeira foi a de 1847, que esteve na origem das revoluções de 1848. Também não é por enquanto tão global como a crise de 1929, que esteve na origem da depressão dos anos 30, da expansão dos fascismos e da tentativa nazi de domínio mundial.
Seja qual for a apreciação que se faça das origens da actual crise mundial e das suas perspectivas, nenhum marxista está dispensado da análise concreta dos seus efeitos e consequências, necessariamente diversificados e contraditórios entre diferentes países e regiões. É esta uma consequência necessária da natureza intrinsecamente contraditória do imperialismo, que não é um sujeito histórico uno mas uma estrutura do capitalismo, exprimindo portanto diferenças nacionais, regionais e outras, alianças e antagonismos que derivam, em última análise, da natureza concorrencial do modo de produção capitalista.
Justamente a análise diferenciada destes efeitos, numa situação de crise mundial de outro tipo, como foi a da I Grande Guerra, permitiu a Lenin prever a possibilidade de uma ruptura revolucionária como a que se verificou na Rússia em 1917 – não simples expressão imediata do “esgotamento histórico” ou da “crise civilizacional” do capitalismo chegado à etapa imperialista, mas sim efeito concreto de uma crise geral numa sociedade cujas contradições específicas – opressão política, desequilíbrios económicos e sociais, crise cultural, experiência revolucionária acumulada – faziam dela um “elo mais fraco”, possível de quebrar, da cadeia do imperialismo.
Este mesmo critério de análise levou Lenin a sublinhar, neste período, que o amadurecimento das condições da superação do capitalismo, como sistema dominante a nível mundial, não significava que perdesse importância outro tipo de antagonismos históricos, como a contradição entre países dominantes e dominados, a possibilidade de revoluções burguesas anti-imperialistas, a contradição entre capital monopolista e pequena-burguesia, as contradições políticas, ideológicas, religiosas, etc., no seio da própria classe dominante, contradições que o movimento comunista não podia ignorar.
A experiência do movimento comunista internacional depois de Lenin, tanto no período da III Internacional como depois do fim desta em 1943, não fez senão acentuar a necessidade destas análises diferenciadas. Foi na base delas que os comunistas encabeçaram os movimentos de resistência anti-fascista antes e durante a II Guerra mundial e foram protagonistas maiores das transformações democráticas que liquidaram os fascismos e, através de duras lutas, tornaram possível, na Europa e no mundo, nas três décadas após à Guerra, um período histórico que foi no seu conjunto de progresso social e de grandes avanços na emancipação dos povos dominados.

A revolução democrática em Portugal envolveu classes e tendências políticas diversas
Neste processo de conjunto se insere a história da luta dos comunistas portugueses contra o fascismo salazarista, como vanguarda que realmente foram da Resistência democrática e anti-fascista. Este não foi o movimento duma pequena minoria, mesmo se é certo que só uma pequena minoria (principalmente, não apenas, de comunistas) se dispôs a uma acção política continuada e aos riscos inerentes. A subestimação que Miguel Urbano exprime da participação de massas na resistência – em graus e formas muito variados, com modalidades de empenhamento, consciência e sacrifício os mais diversos – não é independente da ideia de acontecimento súbito, repentino e imprevisível, quase taumatúrgico, que atribui ao 25 de Abril, nem da concepção da evolução do processo revolucionário e do seu fim como acontecimentos igualmente imprevisíveis e inexplicáveis. De facto, se não se reconhece que, nas condições do fascismo, a simples luta por uma “vida normal” – quantas vezes pela sobrevivência alimentar, mas também pela dignidade própria, ou pelo fim de uma guerra porque não era possível vencê-la, ou pelo acesso aos “frutos da civilização” que a emigração e a televisão davam a conhecer – colocava a maioria dos Portugueses em oposição ao regime, então não é possível explicar como militares com uma longa tradição de obediência (mas entre os quais os episódios de revolta nunca cessaram), num breve prazo se converteram no braço armado do sentimento popular. Nem como dessa revolta politicamente elementar, em prazo igualmente breve, muitos deles evoluíram para a consciência da necessidade de medidas anti-monopolistas e socializantes, como condição da sobrevivência da própria revolução que tinham iniciado (tomada de consciência em que a coerência programática do PCP, bem como o longo e paciente trabalho de esclarecimento e influência cultural construída ao longo de décadas tiveram importância decisiva).
Se não se reconhece que na origem da queda do fascismo e do processo revolucionário subsequente estiveram classes sociais diferentes – com um papel sem dúvida mais destacado da classe operária, do proletariado rural e de sectores da intelectualidade e dos estudantes – e tendências políticas diversas (em que se destaca a continuidade de acção dos comunistas), então a revolução e o seu desenvolvimento são vistos como “inimagináveis” e permanecem inexplicáveis. Para os explicar, é preciso ter em conta essa diversidade, e como justamente a compreensão dela pelo PCP permitiu em cada momento ajustar a formulação dos objectivos prioritários à correlação de forças existente, consolidando posições alcançadas e atraindo elementos oscilantes. Mas, também para perceber as razões do refluxo do processo revolucionário – e, mesmo assim, da extraordinária capacidade de contenção desse refluxo evidenciada pelo Partido, sem a qual o Estado democrático, formalizado na Constituição de 1976, se não teria consolidado (nem possivelmente chegado a edificar) – é preciso entender o que fracassou na política dos comunistas. Não basta encarar os governos do general Vasco Gonçalves – cujas políticas necessariamente registaram grandes evoluções, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975 – como a encarnação do Bem, a que sucederia, por culpa da traição de Mário Soares, um reino do Mal instaurador de trevas cada vez mais densas, até à actual escuridão absoluta (que, confia-se, um novo sol virá inevitavelmente resgatar).

“O nosso sectarismo é tal que pode ter contribuído para um certo isolamento”(Álvaro Cunhal)
É tempo de encarar o que falhou na prossecução das políticas de unidade democrática durante o período revolucionário, que contribuiu não só para a divisão dos militares democratas, mas também para a divisão do povo, em condições desfavoráveis para a esquerda. E nesse aspecto é imperativo sublinhar que “gonçalvismo” não era comunismo. O primeiro-ministro general Vasco Gonçalves marca sem dúvida o período mais progressista da história contemporânea portuguesa e moralmente merece toda a admiração. Mas não era um militante do PCP e, se o fosse, a política do “gonçalvismo” (e da Esquerda militar) teria sido necessariamente diferente. Não só: uma melhor assimilação e observância da orientação do Partido pela generalidade dos militantes e simpatizantes poderia ter propiciado uma superação da crise político-militar do Verão de 1975 em termos mais favoráveis à esquerda, quer dizer à continuidade da revolução. Algumas lições desse período merecem ainda hoje ser recordadas. A este respeito, vale a pena reler o que dizia Álvaro Cunhal em plena crise (e que em muitos aspectos se pode aplicar quase quatro décadas depois, numa situação de crise completamente diferente, como a actual): “Em muitos casos as nossas organizações fecharam-se dentro de si próprias. Os comunistas em muitos casos convivem com os comunistas (…) Em muitos aspectos o nosso sectarismo é tal que pode ter contribuído para um certo isolamento social e político.” E ainda: “(falta) na verdade a educação política e a educação unitária que leve à aproximação com outras classes, com outros sectores, às soluções de fusão, de unificação de esforços na luta pelos grandes objectivos da Revolução portuguesa.” Noutra passagem, aborda-se a questão das alianças políticas em termos que hoje é de novo indispensável ter presentes: “Não devemos sobrestimar as nossas forças. Devemos pensar que sozinhos não faremos a Revolução nem poderemos assegurar a sua vitória. Necessitamos de alianças. As alianças ao nível das massas em si são fundamentais mas não resolvem todos os problemas. As alianças ao nível político e as alianças com o MFA são essenciais (…) A busca de soluções unitárias, de acordos unitários, particularmente onde seja possível com militantes do Partido Socialista (…)”
Como é conhecido e Miguel Urbano recorda, com o derrube do governo de Vasco Gonçalves e posteriormente o golpe de 25 de Novembro, na sequência de uma mobilização civil e militar cuja responsabilidade incumbe em primeira linha a Mário Soares e à direcção do PS, ficou inviabilizado o apoio militar ao desenvolvimento ulterior do processo revolucionário no sentido do socialismo. Não findou aí porém a revolução democrática e nacional que o PCP preconizava. A Constituição de 1976, essencial à formação do Estado democrático e em cujo quadro transformações socialistas continuavam a ser possíveis, entrou em vigor já após a conclusão do período revolucionário. Embora a revolução democrática e nacional tenha permanecido “inacabada”, como mais tarde o PCP viria a definir, não se pode ignorar nem subestimar o facto de que em aspectos essenciais ela se realizou e que muitos desses aspectos, de importância decisiva, ainda hoje subsistem. Mesmo que a acção de todos os governos posteriores a 25 de Novembro de 1975 seja caracterizada como reaccionária – o que entretanto não dispensa uma análise mais aprofundada das circunstâncias, da acção e dos efeitos concretos de cada um desses governos -, tal é só uma parte da questão. Não menos essencial é o reconhecimento de que, apesar de todos os obstáculos governamentais e da subsistência e revigoramento do regime capitalista, a transformação democrática teve lugar. Não só no aspecto jurídico-formal e das instituições do Estado, aos níveis central e local. Mas também aspectos essenciais da vida do povo português, como a democratização do ensino e da cultura, os direitos sindicais e laborais, a elevação dos níveis de vida, o serviço nacional de saúde, a legislação da segurança social, foram frutos concretos da revolução do 25 de Abril – em vários casos (como o SNS ou as leis da segurança social), instituídos já depois do fim do período revolucionário Trata-se de direitos conquistados, implementados ou consolidados ao longo de décadas e que de maneira nenhuma se esgotam nas mudanças do período revolucionário.
Isto mesmo, e portanto a relativa consolidação do regime democrático (burguês) em Portugal, foi expressamente assumido pelo PCP, no final da década de 80, ao dar por encerrada (embora inacabada) a “revolução democrática e nacional” e elaborar o novo Programa, adoptado em 1988, da “democracia avançada no limiar do século XXI”. Tal correspondeu a reconhecer como ultrapassado o período revolucionário, e a definir um programa adequado à conquista do máximo de projecção política e social, no quadro democrático estabelecido, do Partido e das classes sociais que representa.
Esta aceitação do quadro político democrático e o integral comprometimento com ele nunca levou porém o PCP a ignorar a natureza contraditória e as consequentes fragilidades da democracia em regime capitalista. Pelo contrário. Com o conhecimento histórico do passado do País e a experiência do processo contra-revolucionário que efectivamente se desenvolveu desde 1976, o PCP considerou sempre que tal acção contra-revolucionária, assente no restabelecimento e fortalecimento do capital monopolista e na dependência externa, tenderia a pôr em causa o próprio quadro político-institucional democrático. O fortalecimento e consolidação deste era, em contrapartida, vital para as forças democráticas e progressistas.

Lutar pela democracia avançada é defender “os valores de Abril no futuro de Portugal”
Tal foi sem desfalecimentos nem descontinuidade o empenho do PCP, e ligado a ele múltiplas e diversificadas tentativas – tanto antes como depois da adopção do programa da democracia avançada -, para reatar os fios da unidade democrática e da esquerda, considerando sempre que, apesar da orientação de direita da sua direcção, o PS não podia ser ignorado nesse reatamento. E não o podia porque, pela sua composição social, formação ideológica e história vinculada à tradição anti-fascista, constituía o termo de referência político-ideológica, nomeadamente em termos eleitorais, para milhões de trabalhadores sem os quais a alternativa de esquerda, pela qual o Partido sempre lutou – e que hoje aponta como urgente – não podia ser concretizada. Até no plano sindical, não obstante a origem artificial e a função divisionista da UGT desde o seu nascimento, nunca a CGTP, organização sindical de classe, desprezou a possibilidade de envolvimento daquela em acções de luta como as greves gerais.
É evidente que tal busca da unidade dos trabalhadores e do povo não dispensa nem pode atenuar a crítica das posições de sistemática capitulação e colaboração (às vezes mesmo em antecipação às posições da direita) desta espécie de social-democracia portuguesa que é representada pelo PS e a UGT. Também não deve fazer ignorar a possibilidade de surgimento de novas formações políticas a partir do próprio terreno ideológico das camadas social e politicamente intermédias que se têm visto representadas no PS, e eventualmente susceptíveis de adoptarem um posicionamento mais democrático, como aconteceu nos anos 80 com o PRD. Mas não se pode fazer depender a política de unidade da esperança no desenvolvimento de tais fenómenos, por natureza contingentes e de destino incerto, como aliás o citado caso do PRD a curto trecho revelou. Mais produtivo será procurar relacionamentos, em torno de objectivos concretos, com sectores e personalidades, de qualquer filiação partidária ou sem ela, que, mesmo que limitadamente, possam contribuir para a deslocação no sentido da esquerda de massas actualmente influenciadas pelo PS. Foi o que por exemplo se realizou, em 1986, com a mobilização, resolutamente apoiada pelo PCP, em torno da candidatura presidencial do dirigente histórico socialista Salgado Zenha. Em termos mais limitados, mas de não menos consequência, foi também o que sempre o Partido fez com o apoio na segunda volta aos candidatos em condições de baterem os candidatos presidenciais da direita, assim evitando o risco maior da concentração nas mãos da reacção dos poderes parlamentar, governamental e presidencial, a que ela desde sempre ambicionou. Tal foi a política invariável e, até às eleições presidenciais de 2005 que deram a vitória a Cavaco Silva, sempre bem sucedida do PCP (inclusive, como é conhecido, quando tal implicou, em 1986, o apoio eleitoral a Mário Soares).

É hoje imperioso reatar e ampliar a unidade por uma política alternativa
Embora a adopção do programa da democracia avançada, com a especificação das suas vertentes de democracia política, económica, social e cultural, tenha significado um ainda mais explícito empenho do Partido na defesa e aprofundamento do regime democrático fundado na Constituição de 1976, vários factores determinaram, nas últimas duas décadas, uma redução ainda mais acentuada das possibilidades de convergência democrática e de esquerda, indispensável para lhe dar concretização. Agravou-se brutalmente o contexto internacional, com profundos reflexos no movimento comunista, forçando o PCP a uma luta prioritária pela própria integridade. Agravou-se o enfeudamento do PS ao imperialismo, às políticas neo-liberais e ao “europeísmo”, bem como a sua arrogância (que os factos entretanto desmentiram) na pretensão à representação eleitoral da esquerda. Surgiu uma nova formação política, o Bloco de Esquerda, que, apesar de aspectos positivos, cultivou o terreno das ilusões e ambiguidades ideológicas (nomeadamente sobre a União Europeia) e teve certo sucesso na sedução de camadas de eleitorado, nomeadamente intelectuais, que o PCP define como integrantes das suas alianças básicas. Finalmente, ilusões reformistas e eleitoralistas, nascidas no terreno do próprio Partido, suscitaram uma salutar reacção de defesa da identidade que, por força da sua dinâmica, não podia deixar de gerar desconfiança e até reacções sectárias relativamente a iniciativas ou contactos que pudessem afectar ou pôr em causa a mesma identidade.
Com tudo isto enfraqueceu a possibilidade de dar concretização, pelas vias institucionais, a uma política conforme à Constituição. Inversamente, alargou-se a possibilidade – no contexto, anterior à recente crise económica mundial, de desenvolvimentos especulativos que facilitaram a atracção de vastas camadas – de penetração no próprio regime democrático de práticas tendentes a corrompê-lo e subvertê-lo por dentro, pondo no entanto entre parênteses, ou remetendo para segundo plano, o objectivo de liquidação da Constituição e das bases institucionais do Estado democrático, que noutros momentos fora obsessão constante das classes dominantes e dos partidos da direita. Isto não significa que tal projecto de liquidação e “superação” da democracia tenha sido abandonado. Ele reemerge ciclicamente, em artigos de opinião e grémios (“think tanks”) diversos, em iniciativas “intelectuais” como foi há uns anos o “Compromisso Portugal”. Vê-se que está muito presente no subconsciente de responsáveis políticos, pronto a emergir em declarações espontâneas e mais ou menos “impensadas” de que tem havido notícia, como a alusão pseudo-irónica aos benefícios da suspensão da democracia por seis meses, a proposta de suspensão das eleições nas autarquias endividadas, ou o recente “que se lixem as eleições, o que importa é Portugal”, da boca do primeiro-ministro. O núcleo substancial da política de direita é sempre o mesmo, trata-se da expropriação dos direitos políticos e sociais da maioria e do reforço dos mecanismos de concentração do poder económico, político e ideológico duma restrita minoria. Se tal operação se realiza através do esvaziamento progressivo dos direitos num quadro de continuidade institucional, como até aqui, ou se implica uma ruptura formal – com a mudança de Constituição e eventualmente o uso da violência militar –, depende de muitos factores, nomeadamente internacionais. Nos últimos trinta anos a ofensiva reaccionária desenvolveu-se sob o signo do chamado neo-liberalismo, quer dizer de uma recuperação formal dos valores originários da burguesia, como classe motora do progresso técnico e económico. A globalização capitalista reclamou os princípios do livre-câmbio generalizado e da abolição das barreiras nacionais. No plano institucional, renegaram-se as ditaduras e sagrou-se a democracia liberal como o quadro adequado à “livre iniciativa” capitalista. A sobrevivência do regime democrático em Portugal teve muito a ver com este quadro de conjunto e com o facto de a integração na União Europeia ter ocorrido, até há poucos anos, num ambiente “triunfal” de expansão económica e crescimento da própria UE como centro de poder económico e político.

As democracias estão em crise, mas cada crise é específica
No entanto, a precaridade e os elementos de crise estiveram sempre presentes neste desenvolvimento, e isso teve também a sua expressão ao nível político numa tendência para o esvaziamento e a perversão da democracia, que não é uma realidade apenas portuguesa. Em particular na última década, a resposta à crise acentuou as pulsões nacionalistas e as fórmulas populistas de gestão do poder. Países com larga tradição de democracia parlamentar de base partidária, como a Itália, passaram a ser governados, mediante manipulações do sistema eleitoral em nome da “governabilidade”, por consórcios de partidos que se revezam ou associam no poder. A organização dos partidos cada vez menos assenta na participação dos seus membros, e cada vez mais numa relação plebiscitária “directa”, pseudo-democrática e realmente anti-democrática, entre um chefe e a base. Discussões ideológicas e programáticas são abolidas e substituídas pelo marketing das promessas eleitorais. Neste processo, as relações entre o poder económico e a esfera política são ao mesmo tempo cada vez mais estreitas e mais obscuras.
Uma vertente complementar, só em parte contraditória, deste processo, é o crescimento e consolidação ideológica e organizativa, em moldes variáveis, de movimentos fascistas, que levantam a cabeça com expressões eleitorais como não eram conhecidas desde a II Guerra mundial. O que neles se exprime ideologicamente como negação da política, da democracia e dos partidos, como culto do chefe e afirmação de autoridade, é o mesmo que, sob outras formas, vai fazendo o seu caminho no funcionamento dos partidos do “sistema” e na sua relação com os eleitores. A formação dos regimes fascistas, no período entre guerras, resultou sempre duma combinação entre estes dois tipos de processos: degradação da democracia no funcionamento dos sistemas políticos e crescimento dos movimentos de massa anti-democráticos contra os “sistemas” existentes. A guerra ao sistema da república de Weimar foi peça essencial da retórica do nazismo numa fase em que ela de facto já não funcionava como democracia .
É possível que, no contexto actual de aprofundamento da crise económica mundial, de agudização da competição económica e dos conflitos na política internacional – que tende a pôr em causa a globalização na sua forma neo-liberal e a reavivar os nacionalismos -, tal combinação venha a repetir-se.
É impossível neste momento prever se na vida política portuguesa continuará a prevalecer o esvaziamento dos direitos num quadro de continuidade formal da Constituição e das instituições, ou se as classes dominantes se orientarão para uma ruptura de regime. Todas as combinações são possíveis.
Como dizia Gramsci, “pode prever-se ‘cientificamente’ apenas a luta”. A responsabilidade dos comunistas é preparar as condições para a travarem com a máxima concentração de recursos, apoios e aliados, ao mesmo tempo que procuram isolar, privar de bases, de apoios e de recursos o inimigo.
Não se pode perder de vista que, na luta de classes, os recursos da classe dominante são normalmente muito superiores aos das classes populares. Assim se explica a série de derrotas históricas que estas sofreram, não obstante as condições materiais para a substituição do capitalismo pelo socialismo estarem há muito maduras à escala mundial. Tais recursos não são apenas os do poder económico e da influência política e mediática. Eles assentam em primeiro lugar na constituição atomizada, particularizada, dos indivíduos e dos seus interesses, na generalização da lógica e da ética da competição, que se faz necessariamente em relação aos meios de acesso aos recursos que estão socialmente estabelecidos e codificados nas leis. Sobre isto edificam-se as “superestruturas ideológicas” da educação, da religião, da escola, dos meios de comunicação. Numa situação de “salve-se quem puder”, como a que a crise económica gera, os comportamentos de concorrência entre os indivíduos – a divisão na classe operária, a concorrência entre os trabalhadores – intensificam-se em lugar de se atenuarem. O desemprego agrava o “salve-se quem puder”, ao mesmo tempo que priva os trabalhadores da possibilidade de fazer valer a solidariedade de classe, de colher as suas vantagens e de experimentar o seu valor ético.
Miguel Urbano vê nas manifestações do povo grego contra as imposições da finança mundial representada pela UE e o FMI, na resistência às medidas de “austeridade” e na crise dos partidos tradicionalmente dominantes nesse país, os sinais da maturidade da Revolução. Mas não há revolução sem organização das classes revolucionárias e direcção política destas. Ora aquilo a que se assiste na Grécia é, sim, a uma crise do sistema político vigente e dos partidos tradicionais, mas também ao crescimento da abstenção eleitoral e do fascismo (com requintes de simbologia nazi). No campo da esquerda, cresceu efectivamente, sem nenhumas garantias de que o fenómeno dure, uma formação politicamente heteróclita, o Syriza, com ambições desproporcionadas à sua consistência social e ideológica e que não é nem pretende ser revolucionária.

A democracia política é irrelevante?
Em Portugal, o facto de a ofensiva capitalista ter sido conduzida sem descontinuidade, ao nível de governo, em especial no decurso da última década, pelos partidos maioritários PS e PSD (associado este ou não ao CDS), não se registando significativas diferenças entre eles, nem de prática, nem sequer de programa sobre as questões económicas e sociais mais importantes, favoreceu a difusão entre os comunistas de uma noção de indiferença de fundo entre os partidos dominantes, vistos como meros instrumentos livremente manipuláveis por um grupo restrito de grandes capitalistas. A impossibilidade de remover esses partidos do poder por via eleitoral, dada a concentração do domínio dos meios de comunicação nos senhores do poder económico, tende a difundir, nomeadamente entre os jovens que não conheceram os custos da luta pela liberdade política, a ideia de que todo o sistema político está comprometido com a exploração, a corrupção e a iniquidade reinantes. Acresce a divulgação de certas temáticas do pensamento não marxista radical (em muitos casos com efectivo conteúdo de crítica social e cultural, porém politicamente inoperante), segundo as quais o capitalismo é hoje um sistema totalitário homogéneo, controlado em todas suas dimensões pelo capital monopolista e unificado no gigantesco mecanismo imperialista mundial. Dentro desta lógica, correspondente a uma assimilação e ampliação apressada da ideia dos governos como “comités de gestão dos negócios conjuntos da burguesia” (segundo a célebre fórmula do Manifesto), a organização concreta dos sistemas políticos, e o que neles ou através deles se possa fazer, tornar-se-ia irrelevante. Restaria aguardar um “novo 25 de Abril” (expectativa em que se conjuga a tradição sebastianista com a experiência das intervenções militares na história de Portugal).
Noutra versão (a que adere Miguel Urbano), o sistema capitalista mundial atingiu, com 100 anos de atraso sobre a expectativa de Lenin (que no entanto era bastante mais prudente na avaliação e na admissão de alternativas), o seu estádio final, a que só pode suceder o socialismo universal. Em Portugal, a revolta popular contra a dominação imperialista e a ignomínia dos dominantes levaria o povo, uma vez superada a ilusão, por enquanto reinante, do “impossível regresso a Abril”, a impor a “destruição do próprio sistema, isto é do capitalismo.”
Seria ir bastante mais longe que a própria revolução de Outubro de 1917, que se pôs como objectivos a paz, a terra aos camponeses e o controle operário da produção.

Como dizia o poeta, “sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança”. A capacidade de sonho é essencial aos revolucionários, sob condição de a combinarem com a atenção às realidades que é necessária para as transformar.
Quando Miguel Urbano escreve que “o mundo se encontra no limiar de uma era de novas revoluções”, não sonha. Faz uma afirmação que tem já hoje elementos de realidade a comprová-la e que é, senão indiscutível, provável.
Questão mais complexa é a de saber que extensão e natureza terão tais revoluções, como se relacionam ou não com o ideal socialista, que grau de coordenação ou identificação terão entre si (tendo em conta que hoje não existe nem Internacional Comunista, nem União Soviética). E ainda: como se relacionarão com as contra-revoluções, quais e como serão vencedoras, quais derrotadas?
“Cientificamente não se pode prever senão a luta.”
É razoável pensar que a história revolucionária portuguesa não terminou em 1975 e que, no contexto de um mundo e de uma Europa em ebulição, novas fases dessa História (iniciada na contemporaneidade em 1820 e que no seu conjunto não desmerece da história revolucionária europeia e mundial) hajam de vir a ter lugar num horizonte não distante.
Mas as revoluções não se fabricam. Como processo social, elas geram-se em contextos extremamente agudos da luta de classes, normalmente em reacção a medidas particularmente violentas e sentidas generalizadamente como intoleráveis pela maioria da população, em situações em que os dominantes “já não podem” continuar a governar como até aí.
Como processo político tendente à tomada do poder, a revolução representa um momento culminante da luta, quando o partido revolucionário dispõe do apoio da maioria da classe que representa, da capacidade de neutralizar sectores oscilantes e de isolar e derrotar os inimigos.
Nem uma coisa nem outra se verifica hoje em Portugal, como de resto Miguel Urbano reconhece.
O que se verifica, isso sim, é a possibilidade de o capital monopolista e as forças políticas da direita, culminando um longo processo contra-revolucionário de dezenas de anos, operarem uma alteração fundamental da estrutura democrática do regime, liquidando – como no fundo sempre ambicionaram – o conjunto de direitos sociais e liberdades políticas formalizados na Constituição e as possibilidades de organização e actuação, nomeadamente partidária e sindical, que ainda hoje vigoram.
É este o perigo iminente. Tal processo pode desenvolver-se por vias predominantemente institucionais, como até aqui. Mas também não está excluído que possa ser impulsionado por movimentos de massa de natureza contra-revolucionária, como aconteceu na crise europeia de entre guerras. Grupos sociais em situação de desespero, que perderam os vínculos da solidariedade de classe, ou que vêem situações anteriores de relativo conforto, e agora comprometidas, como prejudicadas pela “desordem” que atribuem às greves e ao movimento sindical, podem tornar-se facilmente presa de projectos de “salvação da pátria” através da ditadura. Embora a mobilização fascista de massas não tenha em Portugal grandes tradições, a memória do salazarismo continua a ser acarinhada por muitos fazedores de opinião e não deixa de repercutir os seus efeitos.
Por tudo isto é oportuno e indispensável, não declarar impossível o regresso a Abril, mas insistir em que o regime político democrático, conquistado pela revolução de Abril e formalizado na Constituição, está vivo e será defendido. Com ele e através dele é que poderemos assegurar os valores de Abril no futuro de Portugal.
É a trincheira decisiva, que não abandonamos pela miragem da conquista futura de posições mais avançadas. E para a defender não regatearemos esforços a ampliar a unidade e convergência por uma política alternativa – unidade e convergência com forças e elementos democráticos muito diversos, por vezes inconsequentes e contraditórios nas suas posições (que sempre criticamos quando é caso disso), mas que não ignoramos desde que contribuam para defender esta trincheira decisiva. É essa a condição essencial para abrir caminho à política patriótica e de esquerda que liberte o país dos interesses do grande capital, que comece a inverter o curso reaccionário e, num mundo em que se agudiza o confronto entre a revolução e a contra-revolução, permita sonhar e avançar para o socialismo.

*Este texto nasceu da leitura crítica do artigo de Miguel Urbano Rodrigues no diário.info intitulado “As rupturas revolucionárias não são prèdatadas”, acabando por ganhar uma extensão que o autonomiza em relação ao ponto de partida. É oportuno lembrar aqui que, para além da intervenção como escritor e jornalista político, Miguel Urbano tem dado nos últimos anos uma contribuição excepcional à promoção e internacionalização do debate marxista entre nós, nomeadamente através das conferências “Civilização ou Barbárie”, realizadas em Serpa, e da organização da vinda a Portugal de intelectuais como Domenico Losurdo, iniciativas em que tive a honra de poder colaborar.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a João Arsénio Nunes: Política comunista e previsão histórica

  1. De diz:

    Um texto muito bom, que merece leitura mais aprofundada e atenta. De uma forma sumamente elegante, põe o foco na política de alianças a seguir por quem se reivindica de revolucionário. Ancorado não só na praxis política do PCP ( no universo teórico de Álvaro Cunhal), com a convocação para o debate de Gramsci e do próprio Lenine. Duas “citações” que me parecem muito felizes para o objectivo proposto,uma de um, outra de outro (embora esta ultima não propriamente uma citação):
    “Na realidade, pode prever-se ‘cientificamente’ apenas a luta” e “A catástrofe iminente e os meios de a combater”.
    Um texto que merece reflexão e debate aprofundados e que constitui um convite para uma “analise objectiva da situação” (logo,instrumental e revolucionária).

    • JgMenos diz:

      Uns têm a ‘jihad’ outros a ‘luta’!
      Cientificamente, uma fé que se equivale.

      • De diz:

        Podemos abordar o diletante comentário de duas maneiras:
        -Referir que é natural que JgMenos fique com prurido quando ouve falar em “luta”.Que a tente equiparar a uma “jihad” é apenas a prova que tudo serve para afastar dele tal pesadelo.Até a boçalidade.
        -Apontar de forma breve a tarefa a que JgMenos se dedica,ou seja uma “Jihad” longínqua contra tudo o que lhe soe a luta contra o establishment.
        Poderemos dizer , á boa maneira ” científica” de JgMenos ( geralmente a direita não gosta muito do método científico,como se comprova mais uma vez) que é uma fé que este tem em andar a fazer a sua Jihad por este campo de apóstatas.
        🙂

  2. Antónimo diz:

    Embora se compreenda e lamente motivos, os seus posts fazem falta, NRA.

    Sem de todo desfazer nos que têm assegurado os serviços (ou no que dizem), faltam mais entradas diárias.

  3. JgMenos diz:

    «… os comunistas encabeçaram os movimentos de resistência anti-fascista antes e durante a II Guerra mundial e foram protagonistas maiores das transformações democráticas que liquidaram os fascismos …»; o pacto de não agressão germano-russo é disso alto exemplo!
    «…tornaram possível, na Europa e no mundo, nas três décadas após à Guerra, um período histórico que foi no seu conjunto de progresso social e de grandes avanços na emancipação dos povos dominados…»; na Europa de Leste foram precisos mais alguns anos!

    • De diz:

      A discussão do texto deve seguir rumo ao que de facto interessa.Sem nos atermos muito ao que um pequeno neoliberal de direita diz. JgMenos faz o seu mister.Tal como os neoliberais que nos conduzem à catástrofe iminente.

      http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2011/09/ai-esquecida-cronologia.html

      Quanto à Europa de leste se já sabemos o rumo que tomou (sabemos?),na Europa Meridional somos espectadores diários do que fazem e que caminhos tomamos.

      Citemos o artigo, já que é o artigo que nos interessa:
      “…o projecto de liquidação e “superação” da democracia … reemerge ciclicamente, em artigos de opinião e grémios (“think tanks”) diversos, em iniciativas “intelectuais” como foi há uns anos o “Compromisso Portugal”. Vê-se que está muito presente no subconsciente de responsáveis políticos, pronto a emergir em declarações espontâneas e mais ou menos “impensadas” de que tem havido notícia, como a alusão pseudo-irónica aos benefícios da suspensão da democracia por seis meses, a proposta de suspensão das eleições nas autarquias endividadas, ou o recente “que se lixem as eleições, o que importa é Portugal”, da boca do primeiro-ministro. O núcleo substancial da política de direita é sempre o mesmo, trata-se da expropriação dos direitos políticos e sociais da maioria e do reforço dos mecanismos de concentração do poder económico, político e ideológico duma restrita minoria.”

      É contra esta política que lutamos.É a favor desta política que JgMenos …

    • roko diz:

      o “pacto de não agressão” foi o que permitiu a derrota do nazi-fascismo!!!! em relação a direitos sociais veja onde começaram as férias a ser um direito remunerado, onde foi que as mulheres tiveram mais avanços, onde foi que a saúde, ou a educação foram tidas como universais…

  4. licas diz:

    JgMenos
    Um texto num crescendo de curiosidade
    de como seria o desfecho (espécie de tragédia clássica)
    . . . e depois a conclusão absolutamente deliciosa.
    Na URSS os dirigentes *ilusionistas* conseguiram uma coisa pasmosa :
    isolaram os *súbditos* que vivendo no inferno, fizeram-nos crer,
    (soberbo exemplo de quanto a propaganda é capaz) que habitavam estavam o paraíso.
    Pode ver-se ainda noutros países como os dirigentes combatem a Net encarniçadamente:
    agora na comodidade do sofá podemos *visitar * os sítios mais tenebrosos do planeta,
    por exemplo o Irão dos *tontinhos* . . .

  5. JP diz:

    Isto parece-me um brado de alerta, de chamamento à defesa da identidade do PCP como partido revolucionário antifascista, defensor da revolução democrática e nacional, do capitalismo não monopolista e da instauração da democracia avançada, contra uma deriva esquerdista de um PCP como partido revolucionário comunista, defensor da revolução socialista, da abolição do capitalismo e da instauração da democracia socialista.
    Tempo virá em que ficará claro que a esquerda militar, não sendo constituída maioritariamente por militantes do PCP, era mais comunista que o democrático e nacional PCP, a quem substituiu em muitas propostas revolucionárias e de quem não encontrou o apoio de massas necessário para secundá-las nuns casos e consolidá-las noutros. A verdade acabará por vir ao de cima, como o azeite.
    Perante o “esquerdismo” do Miguel Urbano, não tardarão a surgir outros textos alertando contra a perigosa deriva que será identificar o PCP como partido comunista. Onde chega a desfaçatez do jornalista achar que perante uma crise sistémica do capitalismo o levantamento popular será para destruir o sistema! Parece não ver, pela análise das situações concretas, que as crises sistémicas têm levado é ao surgimento do fascismo! E que é numa ampla política de alianças antifascistas que se deve basear a linha política do PCP!
    Dantes, a linha do partido era para sairmos do fascismo e regressarmos à democracia burguesa; depois, foi para defendermos a democracia burguesa avançada plasmada na Constituição; agora, é para evitar regressarmos ao fascismo. E não saímos disto, do antifascismo. O socialismo será para quando o capitalismo cair de podre, ou nem então.

  6. roko diz:

    Aos camaradas JAN e Urbano:

    Eu cá para mim fazia a discussão no sítio certo e deixava-me de porras!

  7. licas diz:

    Sinto- me lisonjeado do tempo de análise que os meus textos
    levam aos *camaradas* do lápis azul. É verdade que
    acabam sempre por serem suprimidos, mas que importa, se me delicio com
    * o meu quarto de hora * de glória?

  8. Carlos Carapeto diz:

    ” o pacto de não agressão germano-russo é disso alto exemplo!”

    Os acordos de Munique assinados onze meses antes, ainda são de uma exemplaridade maior.

    A grande proeza que o capitalismo alcançou na Europa de Leste foi destruir em meia duzia de anos o melhor que os comunistas construiram em 40 anos.

    Porque será que escondem os resultados das sondagens sobre as condições de vida atuais em muitos desses países?
    Têm medo? Talvez mais cedo do que julgam vão prestar contas por banditismo social que provocaram!

  9. vitor dias diz:

    Tal como tenho perguntado a outros, pergunto a JgMenos se nos sabe dizer a data do Pacto de Munique e a data do pacto germano-soviético.

  10. JP diz:

    NRA.
    O meu comentário de há dois dias atrás era assim tão ofensivo que não aconselhasse a sua publicação e fosse censurado? Ou perdeu-se pelos caminhos esconsos da net? Quero acreditar nesta última hipótese e reenvio-o. Espero que publique, para não pensar muito mal de si.

    “Isto parece-me um brado de alerta, de chamamento à defesa da identidade do PCP como partido revolucionário antifascista, defensor da revolução democrática e nacional, do capitalismo não monopolista e da instauração da democracia avançada, contra uma deriva esquerdista de um PCP como partido revolucionário comunista, defensor da revolução socialista, da abolição do capitalismo e da instauração da democracia socialista.
    Tempo virá em que ficará claro que a esquerda militar, não sendo constituída maioritariamente por militantes do PCP, era mais comunista que o democrático e nacional PCP, a quem substituiu em muitas propostas revolucionárias e de quem não encontrou o apoio de massas necessário para secundá-las nuns casos e consolidá-las noutros. A verdade acabará por vir ao de cima, como o azeite.
    Perante o “esquerdismo” do Miguel Urbano, não tardarão a surgir outros textos alertando contra a perigosa deriva que será identificar o PCP como partido comunista. Onde chega a desfaçatez do jornalista achar que perante uma crise sistémica do capitalismo o levantamento popular será para destruir o sistema! Parece não ver, pela análise das situações concretas, que as crises sistémicas têm levado é ao surgimento do fascismo! E que é numa ampla política de alianças antifascistas que se deve basear a linha política do PCP!
    Dantes, a linha do partido era para sairmos do fascismo e regressarmos à democracia burguesa; depois, foi para defendermos a democracia burguesa avançada plasmada na Constituição; agora, é para evitar regressarmos ao fascismo. E não saímos disto, do antifascismo. O socialismo será para quando o capitalismo cair de podre, ou nem então. Ora porra!”

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Caro JP, o NRA está sem acesso a internet não podendo, por isso, aprovar os comentários com a celeridade que o debate exige.

    • De diz:

      Um comentário que nem o facto de ter sido replicado por duas vezes o salva de poder ser acusado de fruto de leituras apressadas e confusas.Ainda bem que atento JP guarda religiosamente os seus testemunhos, para o caso de poder ter que vir a pensar muito mal de quem não os dá à luz com a pressa exigida à hierarquia militar.
      Qual brado de alerta à identidade qual carapuça.Qual deriva esquerdista qual carapuça.A pressa em querer que se leia o que está na cabeça em vez do que está no texto dá nisto.Adicionado de pérolas a falar do azeite enquanto fala na “esquerda militar” e outras tonterias do mesmo quilate.A ignorância objectiva-se no comentário à “desfaçatez do jornalista”.Jornalista? Lol.Percebe-se que algo faz mover esta forma de apreciação do texto.Mas a objectividade não o é com toda a certeza.
      Ora porra isso mesmo.

  11. JP diz:

    Caríssimo De.
    Lamento que as minhas “leituras apressadas e confusas” e a minha “ignorância” o tenham perturbado a ponto de sentir necessidade de responder-me.
    Poderia ter-me elucidado, desfazendo a minha ignorância, mas prendeu-se com piropos.
    Apesar das “leituras apressadas e confusas”, continua a parecer-me que este texto de JAN constitui “um brado de alerta, de chamamento à defesa da identidade do PCP como partido revolucionário antifascista, defensor da revolução democrática e nacional, do capitalismo não monopolista e da instauração da democracia avançada, contra uma deriva esquerdista de um PCP como partido revolucionário comunista, defensor da revolução socialista, da abolição do capitalismo e da instauração da democracia socialista”.
    No fundo, parece-me a defesa da tradição do PCP como partido antifascista contra veleidades de o transformarem em partido comunista. Mas isto é a minha ignorância a falar.
    Não guardo cópias dos meus comentários; guardei do anterior porque se manteve aqui visível por mais de um dia aguardando moderação, não fosse perder-se. Não guardarei deste, ainda que tenha o mesmo destino, porque não vale a pena discutir com quem não percebe o que se escreve.
    Cumprimentos.

    • De diz:

      Caro JP:
      Os factos aí estão.As diversas leituras também.A minha e a sua.Se não reparou tem aí a minha interpretação do texto.Que se distancia das suas interpretações à deriva em busca das derivas de quem quer que seja.
      O futuro dirá quem tem (ou não) razão. O mais do resto não me interessa particularmente porque exercícios um pouco onanísticos (porque sem qualquer fundamento ) sobre o passado, com reflexos conspiratórios no presente são exercícios pueris e que apenas desviam do essencial
      Como acho que já foi percebido.
      Cumps

  12. Rocha diz:

    Três palavras: branqueamento do PS.

    De resto muito fraquinha tentativa de polemizar com Miguel Urbano Rodrigues.

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