O especulador e o industrial. A esquerda do lado do mito contra a realidade

Texto completo no site Passa Palavra. Por uma questão de economia de espaço e para situar o debate coloco aqui apenas os dois primeiros parágrafos.

Se a força da mera convicção ideológica é maior do que a da reflexão racional, só as lutas sociais dos trabalhadores poderão ultrapassar os alçapões ideológicos que continuam a animar o trabalho político da generalidade da esquerda.

«Com a recente e actual crise económica na zona euro, o que antes era considerado uma mera excentricidade ou uma tendência larvar torna-se numa realidade substantiva e com um peso fortíssimo na definição das propostas políticas. Por isso, se as crises económicas têm o lado terrível de comprimir ainda mais as condições de vida e os salários dos trabalhadores, do ponto de vista político as crises também contribuem para esclarecer as linhas com que as várias correntes políticas se vão cosendo. Contudo, não encontro resposta para o porquê de alguns (poucos) activistas romperem com os empecilhos da ideologia dominante (nacionalismo, divisão entre economia “real” e “produtiva” VS economia financeira e “parasitária”, crítica dos governos e não do Estado, ausência de crítica das relações de produção, etc.) e o porquê de outros, ainda por cima em clara maioria, aprofundarem ainda mais os equívocos e ambiguidades que sempre têm caracterizado a esquerda. Por isso vou-me focar única e exclusivamente no aspecto político do que me parece ser uma das linhas mais perigosas e que se tem aprofundado nalguns meios da esquerda portuguesa (e não só): a tese de que o capital financeiro seria antagónico do capital industrial. Focando-me única e exclusivamente nas teses políticas – e relegando os emissores dos discursos políticos para um plano meramente ilustrativo, circunstancial e secundário – espero que um possível plano de discussão destas questões se cinja ao espaço que realmente importa: a discussão política.

Por isso, proponho-me debater o tema deste texto em dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, chamar a atenção para que a transformação da oposição entre economia “real”/”produtiva” e economia financeira/”parasitária”/especulativa em tese política é um tópico que teve no fascismo o seu principal defensor e difusor. E, em segundo lugar, procurarei mostrar como a diferenciação entre os sectores financeiro e industrial é meramente operacional visto que, na verdade, ambos constituem duas partes integrantes de uma totalidade económica (capitalista) e não dois sectores concorrentes e antagónicos. De facto, é impossível pensar a economia capitalista moderna desligada da complementaridade entre finança e indústria. O seu antagonismo só existe no plano ideológico, nunca no plano material das relações económicas».

Continua aqui.

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30 respostas a O especulador e o industrial. A esquerda do lado do mito contra a realidade

  1. miguel serras pereira diz:

    Extremamente estimulante, sem dúvida, este teu ensaio. Já o linkei no Vias. A meados do século passado, Castordiadis escrevia que os partidários do regime em vigor na URSS e os seus inimigos “ocidentais” discordavam mortalmente em muita coisa, mas havia uma em torno da qual mantinham um acordo a toda a prova: o regime que existia na URSS era socialista e o socialismo era o regime que existia na URSS. É um acordo semelhante que tu mostras existir entre a crítica do capitalismo especulativo conduzida, em nome da “economia real”, ora por social-democratas, ora por leninistas – mostrando, ao mesmo tempo, que, para uns e outros, parafraseando Sartre, o capitalismo é o horizonte inultrapassável dos tempos que correm, uma espécie de princípio de realidade inamovível.
    Enfim, espero não te ter lido mal, e que outros tirem também bom proveito da leitura.

    Abraço

    msp

    • Justiniano diz:

      Caríssimo MSP, sem querer desmerecer outras leituras, especialmente a sua que tão bem considero, como bem sabe.
      Mas, a mim, no fundo, faz-me lembrar, mais, aquela dos “social fascistas” com que os comunistas alemães, nos anos 30 do sec passado, apelidaram os sociais democratas.
      O que, verdadeiramente, o caro JVA, nos vem dizer neste texto é que aqueles, sociais democratas, não entendem que a hipótese de redenção que procuram, e apontam, para o capitalismo é o fascismo!!

      • João Valente Aguiar diz:

        «O que, verdadeiramente, o caro JVA, nos vem dizer neste texto é que aqueles, sociais democratas, não entendem que a hipótese de redenção que procuram, e apontam, para o capitalismo é o fascismo!!»

        Eu não direi que é necessariamente o fascismo mas quando a esquerda portuguesa equaciona teses com proveniência directa do fascismo dificilmente fugirá a uma solução autoritária…

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Não digo isto muitas vezes, mas este é um ensaio brilhante que toca no âmago da questão.

    A questão que preocupa Daniel de Oliveira e muitos outros na esquerda é a ideia de que o empreendorismo é uma qualidade que só os “capitalistas” possuem, e sem a qual os “trabalhadores” pouco mais são do que autómatos, incapazes de fazer prosperar as empresas e a economia. Por isso é preciso preservá-los. O que é falso. É verdade que algumas pessoas têm esse espírito mais desenvolvido do que outras, e o capitalismo dá-lhes a possibilidade de rentabilizar, de forma extrema, essa qualidade. Mas uma economia construida sobre a empresa cooperativa não eliminaria o empreendorismo. Apenas o colocaria ao serviço do colectivo – a empresa cooperativa e os cooperantes. Reprimir o espírito empreendedor é tão viável como repreimir o talento para a música ou para a pintura. O empreendedor é compulsivo no seu talento, e colocá-lo-á ao serviço da cooperativa de forma irreprimível. Por isso acho que a solução não pode ser a de procurar isolar os “bons” empresários produtivos dos “maus” empresários financeiros, mas de substituir a empresa capitalista pela empresa cooperativa, certos de que o espírito empreendedor se continuará a manifestar de forma positiva e benéfica para o colectivo, para a economia no seu todo, e para a comunidade.

    Quanto ao capitalismo financeiro e especulativo, a resposta é a de tornar a banca uma actividade sem fins lucrativos, em que todos os lucros são devolvidos aos clientes e depositantes.

    Não precisamos efectivamente de nenhum capitalismo de estado para resolver os problemas do capitalismo privado.

    • João Valente Aguiar diz:

      Caro Nuno.

      obrigado pelo seu comentário. Não precisamos efectivamente de nenhum capitalismo de estado ou privado. Mas também não creio que o empreendedorismo seja solução… Aliás, o empreendedorismo é imanente ao capitalismo das últimas décadas. A não ser, claro, que se esteja a referir ao facto de o conjunto dos trabalhadores terem de ser dinâmicos, talentosos e criativos na construção de novas relações económicas. Como o capitalismo utiliza o empreendedorismo hoje em dia para melhor integrar os trabalhadores na produção e mais facilmente lhes subtrair as capacidades intelectuais, por vezes confunde-se esse empreendedorismo mainstream com algo que intrinsecamente não tem nenhum mal: os trabalhadores serem dinâmicos, talentosos e criativos. Todavia, no capitalismo tudo isso é apropriado para criar novas mercadorias e expandir os negócios em vez de estarem ao serviço de um desenvolvimento humano global.

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        “A não ser, claro, que se esteja a referir ao facto de o conjunto dos trabalhadores terem de ser dinâmicos, talentosos e criativos na construção de novas relações económicas.”

        Era de facto a este tipo de empreendedorismo que me estava a referir. A qualidade de integrar todo um conjunto de factores produtivos num resultado eficaz.

  3. Nuno Cardoso da Silva diz:

    “Empreendedorismo”, e não “empreendorismo” como por lapso escrevi… As minhas desculpas…

    • tóbom diz:

      Get lost!Empreendedorismo é o que existe desde sempre no Bangladesh,p.ex-e,é o que se vê?Querer outro país começado por ‘A’?,ou por……………………Francamente.

  4. Justiniano diz:

    Caríssimo JVA, de uma forma simplística e impressiva, poder-se-á dizer que esse enunciado acompanha a história, está na matriz do catolicismo. O fascismo replica uma parte da ideia como instrumento de uma construção total, mas não inaugura o género nem o desenvolve!! Há ali um puro maniqueísmo jacobino (Jacobino no sentido em que o discurso apenas opera ao nível da legitimação circunstancial) (sobre este ponto, ao nível das políticas económicas poderiamos dizer muito mais. Que não encontrará identidade nessas políticas nem nos modelos de desenvolvimento entre Salazar, Mussolini e Franco – O primeiro, como conservador, ortodoxo, via a moeda, relação cambial, entesouramento e desinflacção como valores em si próprios (um tipo actual, portanto – perceberia muitíssimo bem o Euro), o segundo via a moeda, como tudo, como puro instrumento de crescimento económico sem temer a erosão inflaccionária, o terceiro é demasiado heterodoxo para conseguir definir, quando falido, pejado de dívidas, abriu-se ao capital estrangeiro, muito similar às ditaduras sul americanas a que o JVA faz referencia noutro texto).
    De um modo genérico, retirando as putativas inferencias ao nacionalismo, fascismo, o que nos diz está correcto (Vcmcê, exagera um bocado com os espectros do fascismo e nacionalismo em todo o lado —- e, repare, que não digo que os não haja), no sentido de afirmar o discurso da aparente contradição entre capitalismo redentor produtivo e capitalismo vil, destrutivo, financeiro, como logro ou patranha discursiva. Diga-se, a bem da verdade, que esta entoação dá-se apenas no discurso mediatico e não meditado, uma vez que, rigorosamente, no discurso liberal esta realidade não existe pois que a ambivalencia também não, do ponto de vista conceptual o discurso liberal vê o mercantilismo e capitalismo como uno e decorrente da legitimação liberal, sem aquela contradição (Não existe, sequer no plano ideológico, como refere no seu texto, esse antagonismo).
    Parece-me evidente, como bem refere o caro JVA, a moeda de que a acumulação de capital é acumulação de capital e que esta tem a sua identidade no mercantilismo comercial e industrial.
    Aquela pretensa amoralidade do capitalismo, ou seja a ideia de que se abstrai de toda a virtude servindo desalmadamente a máquina, que está subjacente a muito do discurso regenerador (finança vs industria – pecado vs virtude) a que alude aqui o caro JVA , não é, verdadeiramente, correcta. O egoismo como virtude pode ser bem enunciado, ética e moralmente.
    Mas também é evidente, e não apenas de um ponto conceptual, que as possibilidades, ou oportunidades, puramente especulativas da “industria financeira” (como no comércio, industria…) existem (açambarcamento, especulação…) pela própria natureza da coisa. E esta parte da identidade da coisa é puramente desconsiderada pelo caro JVA.
    O facto de apenas operar de um lado da realidade tem sido o seu grande defeito, caro JVA. Na questão do Euro, na identificação do fascismo….

    • João Valente Aguiar diz:

      «esta entoação dá-se apenas no discurso mediatico» – plenamente de acordo. O problema aliás de boa parte da esquerda portuguesa é esse: cinge-se ao universo do discurso e da ideologia quando, na prática, a especulação ocorre sempre de modo bidireccional – tanto da indústria como da finança.

  5. AMCD diz:

    Há um antigo ditado, julgo que confuciano, que diz que aquele que persegue dois coelhos em simultâneo, acaba por não apanhar nenhum. E que tal se nos ocupássemos primeiro em apanhar um coelho e depois nos ocupássemos do outro. Não seria mais inteligente? O que João aguiar propõe, ao contrário de Daniel Oliveira, é que se persigam os dois coelhos ao mesmo tempo: o capital financeiro e o capital industrial, querendo confundir os dois coelhos com um só.

    O capital financeiro actualmente é incomparavelmente maior e mais poderoso do que o dos anos 20 e 30 do século XX e a sua relação com o capital industrial é cada vez mais desigual, estando este cada vez mais na dependência daquele. Hoje o palco de actuação do capital financeiro é o planeta inteiro, escapando a qualquer regulação nacional e o seu tempo de actuação é o da velocidade da luz – ou o do simples toque num botão dum teclado ou num ecrã. Já o capital industrial não é tão móvel (embora também tenha a sua mobilidade) nem tão rápido a deslocar-se. Hoje o capital industrial, para não dizer a sociedade inteira, encontram-se submetidos ao capital financeiro e não o contrário. Ora isto é inadmissível.

    • João Valente Aguiar diz:

      A questão acima de todas é que não existe um capital financeiro e um capital industrial. Se alguém se der ao trabalho de ver as composições de accionistas e de investimentos das ditas duas partes verificará que essa pretensa oposição não existe, como aliás vem evidenciado na 2ª parte deste texto. As pessoas (sobretudo muitas de esquerda) continuam a achar que o desenvolvimento de um é separável do outro. Não é. A própria transnacionalização do capital financeiro das últimas décadas foi decorrente das próprias necessidades do capital industrial em dividir a cadeia de produção em imensas redes e unidades mais pequenas (a subcontratação). Repare nos pequenos exemplos que dei na 2ª secção do artigo: a) como explicaria que a Apple (empresa por excelência relacionada com a produção e inovação de bens) capta mais capital-dinheiro no mercado financeiro do que no seu ramo normal de actividade? E quem diz a Apple diz a Ford, a General Motors ou a General Electric. b) quem apostou na chamada financeirização da economia e quem a dinamizou foram também os grupos predominantemente industriais nos anos 80. Aliás, estes foram e são importantes actores. Portanto, não há oposição entre grandes grupos predominantemente financeiros e grandes grupos predominantemente industriais. Pelo contrário, eles complementam-se.
      Para terminar, não se trata do Daniel Oliveira ou de qualquer indivíduo e até organização mas de uma tese relativamente abraçada pela esquerda, de uma tese que foi (e continua a ser) central no discurso fascista do passado e que parece não estar a ser equacionada de qualquer maneira. Pelo contrário tem sido abraçada de modo acrítico e sem nunca discutindo a partir dos processos reais mas do que acham que a realidade é ou deveria ser.

  6. AMCD diz:

    Queria dizer “João Aguiar” e não, “João aguiar”. Peço desculpa pelo lapso.

  7. João. diz:

    Alguém viu por aí um comentário que deixei a este post com uma crítica a uma de suas teses? Ou não vale criticar?

    • João Valente Aguiar diz:

      Não tenho aqui nenhum comentário seu…

      • João. diz:

        Ok. Desculpe então. Eu realmente coloquei um comentário mas por alguma razão alheia a si não passou.

        Em todo o caso a minha crítica começava por pegar nesta passagem:

        “De facto, é impossível pensar a economia capitalista moderna desligada da complementaridade entre finança e indústria. O seu antagonismo só existe no plano ideológico, nunca no plano material das relações económicas».”

        e lá dizia que concordo com o primeiro período mas já não com o segundo que considero inexacto. A complementaridade da finança com a indústria não deixa, no entanto, de relevar pelo menos um antagonismo importante, precisamente na medida em que não são separados para cada vez mais embutidos um no outro.

        É que o ritmo de concretização do capital industrial, desde a concepção do produto à sua comercialização, sofre, a meu ver, uma resistência maior do que a que sofre os produtos financeiros. Estes circulam com muito mais rapidez e como o valor da indústria está muitas vezes indexado à percepção dos mercados financeiros acontece que a indústria é pressionada por expectativas de curto prazo que são cada vez mais independentes das realizações materiais da indústria.

        Quando você critica nas notas de roda-pé isto:

        “«A livre circulação de capitais veio tudo facilitar. A criação de uma União Económica e Monetária, com a moeda única e o Banco Central único são episódios desta cavalgada de desmaterialização, não da economia mas das finanças, pois afasta cada vez mais o circuito monetário fictício e creditício do circuito da economia real, para cujo acompanhamento aquele teve origem e razão de ser. O que apenas é possível por demissão do controlo político nacional sobre os movimentos, não de livre mas de libertina circulação, enquanto as outras liberdades de circulação, sobretudo a de trabalhadores, se constrangem, quando conveniente, e não importa com que violência»”

        Julgo que é você que presume que o PCP separa, no capitalismo, completamente a economia das finanças, mas penso que você está simplesmente a forçar a sua tese. É que uma coisa é a complementaridade da finança e da indústria no capitalismo e outra coisa é o curso dessa complementaridade. É neste curso, na sua metrialidade, que o financeiro e o industrial se encontram com o seu antagonismo.

        Parece-me que o que a crise de 2008 mostrou foi precisamente a independência que o capital financeiro conquistou em relação ao capital industrial, ou seja, como o financeiro criou uma sucessão de produtos especulativos baseados em rendimentos futuros sem um real embasamento na produção material. O ritmo de circulação e concretização destes produtos é muito mais rápido de modo que, a meu ver, tende a desviar o crédito da indústria e da economia para estas operações de prazo muito mais curto e de menor resistência.

        Claro que se pode dizer que é tudo capitalismo, e é verdade que assim é, mas a esquerda não pode apresentar-se como lutando contra o capitalismo em geral, como um todo, simplesmente, sem articular as contradições que negam o que a ideologia capitalista diz sobre o capitalismo. Sem esta articulação resta a pregação ou as teorias da conspiração.

        A tese da complementaridade sem antagonismo entre o financeiro e o económico é a tese da direita de modo que cabe a esquerda, a meu ver, desmontar este discurso. É preciso mostrar como este antagonismo é “resolvido”, como os benefícios fiscais e isenções de toda a espécie de que goza exclusivamente o capital financeiro servem para tentar garantir liquidez num sistema de alto risco, ou seja, em vez de tentar diminuir o risco por restrições à actividade especulativa oferece-se a maior liquidez possível ao seu desenvolvimento.

        Em resumo, é verdade que há essa complementaridade que refere mas o que realmente importa saber é o modo como essa complementaridade se concretiza, ou seja, extraír a sua verdadeira natureza e é neste registro que, a meu ver, se deve interpretar as posições do PCP, nomeadamente aquela que citei do seu artigo e cuja você, a meu ver erradamente critica.

        • João. diz:

          “É neste curso, na sua metrialidade, que o financeiro e o industrial se encontram com o seu antagonismo.”

          Leia-se “materialidade”.

        • João Valente Aguiar diz:

          1 – «A complementaridade da finança com a indústria não deixa, no entanto, de relevar pelo menos um antagonismo importante, precisamente na medida em que não são separados para cada vez mais embutidos um no outro».

          Podíamos discutir isto filosoficamente mas complementaridade permite descortinar que ambos são componentes de uma unidade e não duas unidades… E antagonismo significa colocar uma fracção do capital contra outra… Não como inventar. As citações do artigo do Daniel Oliveira, de Sérgio Ribeiro, etc. são, a este título, bem visíveis. Não adianta inventar.

          2 – «o ritmo de concretização do capital industrial, desde a concepção do produto à sua comercialização, sofre, a meu ver, uma resistência maior do que a que sofre os produtos financeiros. Estes circulam com muito mais rapidez e como o valor da indústria está muitas vezes indexado à percepção dos mercados financeiros acontece que a indústria é pressionada por expectativas de curto prazo que são cada vez mais independentes das realizações materiais da indústria».

          O capital-dinheiro sempre circulou mais rápido do que o capital-mercadoria. Ou você acha que no século XIX eles levavam cem biliões de dólares em notas da bolsa de Nova Iorque para a de Londres de barco??? Sobre as expectativas de curto prazo. Você devia estudar as componentes dos mercados financeiros. Os derivados, por exemplo, não dependem directamente do que você chama de «realizações materiais da indústria». Mas o mercado de acções tem tudo a ver com os resultados económicos das empresas. E mesmo os derivados ou são controlados parcialmente por empresas transnacionais ou são sempre equiparados de alguma forma a activos materiais. Por exemplo, a crise do subprime não foi só financeira mas teve a ver com o facto de as vendas das casas (e o amortizar dos créditos) não acompanhar a crescente oferta. Ou seja, algo que os marxistas deveriam lembrar-se antes de embarcarem na saga anti-especulador: as crises de sobreprodução. Não sendo esta crise estritamente uma crise de sobreprodução ela tem este componente bem vincado e demonstra ela mesma como finança e indústria se articulam.

          3 – «Julgo que é você que presume que o PCP separa, no capitalismo, completamente a economia das finanças, mas penso que você está simplesmente a forçar a sua tese. É que uma coisa é a complementaridade da finança e da indústria no capitalismo e outra coisa é o curso dessa complementaridade. É neste curso, na sua metrialidade, que o financeiro e o industrial se encontram com o seu antagonismo».

          Quem escreveu que há um caminho para o capitalismo (o da exploração do trabalho) e outro (o da finança) não fui eu… E não adianta dizer que a complementaridade resulta no antagonismo. Nem sequer vou pegar na questão de que os primeiros a avançar com essa tese foram os fascistas. Também diziam que a materialidade do capitalismo teria ido da indústria para a finança e esta teria pervertido a produção de riqueza… Não estou com isto a dizer que são similares mas aparentadas. O problema do seu comentário é que você discute economia como se de uma questão lógica se tratasse. Ora, não há maneira de falar de economia sem usar termos económicos e sem usar números. Ora, você (e a generalidade da esquerda que se diz anticapitalista, antineoliberal, etc.) tende a querer ver a economia a partir das suas convicções e não a partir de dados concretos. Ora, todos os dados existentes (e eu só dei uma breve amostra) demonstram precisamente a interpenetração entre indústria e finança. Se você dissesse que muitos grupos transnacionais (Apple, etc.) estão a privilegiar (ou a “facturar” mais com) investimentos financeiros relativamente a investimentos industriais, tudo bem. Agora, como você pode explicar o antagonismo entre finança e indústria se alguns dos mais importantes actores nos dois “lados” são os mesmos? O departamento financeiro é mau e o de desenvolvimento de produtos já é bom? As empresas industriais sofrem de esquizofrenia? São elas Janus, o deus de duas faces??
          Espantoso como os marxistas que mais deveriam defender a obra do Marx quando ele desenvolveu que o motto do capitalismo é a produção de mais-valia e os seus herdeiros se dedicam a querer encontrar a produção de riqueza no capitalismo (e suas contradições) estariam tão-somente na “malévola” da finança…
          Mas voltando à crise da dívida e este assunto. Não sei se já reparou que os mercados financeiros andam em cima das dívidas públicas grega, portuguesa, espanhola, etc. e falam sempre que a situação económica só melhorará por via do melhoramento da produtividade e competitividade das economias dos países da zona euro. Ora, os títulos da dívida pública são trocados nos mercados financeiros e não estão relacionados directamente com a produção (e com as condições de exploração da força de trabalho). Se o problema das dívidas fosse apenas uma questão desses mercados e das contas públicas as troikas nunca andariam preocupadas com as questões laborais. Ora, a cotaçao dessas dívidas relaciona-se intimamente com a produtividade dentro de cada componente nacional de cada dívida. Veja o que escrevi sobre o assunto aqui: http://passapalavra.info/?p=60016
          «se a Alemanha foi bem-sucedida na transnacionalização da economia europeia (dentro e fora da eurozona), a verdade é que tal transnacionalização foi (e continua a ser) “manca”, na medida em que não foi capaz de resolver o problema da organização política da União Europeia. Ao mesmo tempo, dadas as condicionantes nacionais anteriores à implementação do euro a Alemanha construiu a eurozona a partir de uma cisão demasiado vincada entre um centro exportador e com maior concentração nos processos de mais-valia relativa (e no incremento dos níveis de produtividade) e uma periferia importadora de bens produzidos no centro. «Mas é talvez mais significativo ter em conta os valores acumulados da década do Euro. Entre 2001 e 2010, os lucros do capital alemão aumentaram 41,7%, enquanto os custos unitários do trabalho reais tiveram uma redução 4,6%. O mesmo se passou na Zona Euro, onde os lucros aumentaram 35,8%, enquanto os custos unitários do trabalho reais tiveram uma redução de 1,1%. Também em Portugal, onde os lucros cresceram na última década 25,6%, por conta de uma redução dos custos unitários do trabalho reais de 1,3%» (idem)».
          (…) «Com efeito, a segmentação regional da zona euro, entre um centro ligado intimamente ao incremento da mais-valia relativa e a generalidade de um anel meridional sem uma orientação macroeconómica definida no mesmo sentido, aliou-se a uma discrepância na orientação macroeconómica do modelo de interdependências entre as componentes do espaço monetário europeu. Este facto repercutiu-se a vários níveis, mas aqui quero focar apenas dois: ao nível das dívidas pública e privada e ao nível das balanças comerciais. Sobre o primeiro nível das dívidas começo por citar a avaliação da BBC acerca dos processos de crise das dívidas soberanas europeias. «Houve um grande crescimento das dívidas em Espanha e Itália antes de 2008, mas isso não teve nada a ver com os governos. Inversamente, foi o sector privado que começou a pedir empréstimos. As taxas de juro baixaram a níveis sem precedentes nos países europeus do sul quando estes aderiram ao euro. Foi isso que encorajou um boom alimentado pela dívida» (idem). Assim, os dados do Banco de Pagamentos Internacionais citados neste mesmo artigo da BBC revelam a estabilização da dívida pública espanhola entre 2000 e 2010 (passou de 71% para 72% do PIB) e italiana (de 126% para 129%), mas o crescimento exponencial da dívida privada no mesmo período: de 187% para 283% no caso espanhol e de 126% para 181% no caso italiano. Por seu turno, a França teve um aumento na ordem dos 33% nos dois tipos de dívida. A dívida pública passou dos 73% para os 97% do seu PIB e a privada dos 170% para os 224%. Todavia, o peso da dívida privada é mais do dobro do da dívida pública. Para terminar, a Alemanha teve um relativo aumento da dívida pública, de 61 para 77% do PIB, ao passo que a dívida privada conseguiu diminuir de modo residual (de 165% para 164%). Para surpresa dos que conhecem a crise económica europeia, apenas a partir dos media da burguesia o facto é que, salvo o caso grego, as dívidas privadas são muito superiores aos valores das dívidas públicas. Não se trata de defender os benefícios do estatismo sobre o capitalismo privado mas, inversamente, de, por um lado, dessacralizar o mito das ineficiências do sector público relativamente ao privado e, por outro lado, dar conta da explosão das dívidas privadas no triângulo França – Itália – Espanha (onde estes últimos aparentam ser os dois vértices mais frágeis) como um sintoma das dificuldades das empresas aí sediadas».
          Em suma, a dívida pública enorme de países como Portugal, Grécia e Itália e a dívida privada (bancária) em Espanha relacionam-se com os seus níveis de produtividade. Portanto, até títulos de dívida pública não são inseparáveis do nível produtivo que a esquerda inventa em querer ver.

          Mas apesar das diferenças quero agradecer o seu comentário. Enquanto houver algum debate as coisas não estão perdidas de todo…

        • João Valente Aguiar diz:

          Ontem você disse que eu forçava a nota sobre o PCP. Se tiver dúvidas repare na substituição do discurso da luta de classes pelo soberanismo nacional e pela oposição capital financeiro/capital produtivo. Vem hoje no Avante: «Passos Coelho, embora não vendendo volfrâmio a Angela Merkel, como Salazar fazia relativamente a Hitler, não deixa de alienar a nossa soberania aos interesses da agiotagem financeira internacional». http://www.avante.pt/pt/2019/temas/121290/

          • João. diz:

            Há ou não antagonismo entre capital industrial e capital financeiro?

          • João Valente Aguiar diz:

            Claro que não. Achava que tinha sido claro a esse respeito como o exemplo da conexão entre o juros das dívidas públicas e os níveis de produtividade parecem demonstrar.

          • João. diz:

            Você está a ver apenas um lado da questão.
            Entre o financiador e o financiado há complementaridade mas há também antagonismo uma vez que o retorno ao financiador do seu investimento é mediado pela incerteza do projecto financiado. O financiamento é feito com base em projecções, em hipóteses já o retorno do financiamente é feito com base em realizações que correm num outro plano que aquele das projecções e hipóteses. No primeiro momento, o do financiamento, governa o imaginário*, quer dizer, a coisa abstraída da materialidade do mundo do desejo e do trabalho; no segundo momento, o do retorno, governa esta materialidade, precisamente a que ficou de fora no primeiro momento.

            É que temos dois planos diferentes, um feito de abstrações, expectativas, hipóteses e outro feito do curso dessas abstracções no plano social, no tecido económico, onde as variáveis excedem aquelas pesadas no primeiro momento.

            *Imaginário, aqui, não quer dizer propriamente fantasia mas aquele domínio onde os consumidores não falam por si, são antes falados. No plano económico entra o domínio onde os consumidores falam, desejam – quer dizer, o domínio das relações sociais concretas. Então, uma coisa são as hipóteses de como vão reagir as pessoas a um determinado produto industrial, hipóteses em que se baseia o financiamento – isto é o imaginário – outra coisa é o que as pessoas em concreto vão pensar do produto, o que vão dizer dele, o quanto vão desejar adquirí-lo, o quanto vão estar disponíveis para investir concretamente na sua aquisição. O produto no plano imaginário em que se apresenta para financiamento é uma coisa, no plano da actualidade, do desejo e do trabalho, no plano social, é outra coisa.

          • João. diz:

            (Continuação)

            Para tentar concretizar mais um pouco, a expansão da esfera de influência do financeiro sobre o económico é então a expansão da influência do imaginário, da abstração, sobre a materialidade das relações económicas – as primeiras, hoje, já não são o que eram, ou seja, já não são a abstracção dos resultados concretos da actividade económica mas cada vez mais a imposição de abstracções sobre esta actividade. O caminho tem sido o da crescente influência do abstracto sobre o concreto e o abstracto cai sobre o concreto em forma de ordens directas, em forma de determinações a cumprir quase a todo o custo.

            É isto que é o programa da tróica, uma conjunto de ordens, de determinações que têm de ser cumpridas quase independentemente das consequências concretas, das consequências económicas. Se o resultado for desastroso não é o programa o primeiro a ser questionado mas tudo o resto. Veja que hoje o BCE já vem dizer que o aumento do desemprego se deve ao facto de a queda dos ordenados não ter sido feita mais cedo, isto apesar do programa da tróica, em suas previsões, não contemplar o aumento do desemprego nos níveis em que está a ocorrer, ou seja, apesar das previsões do programa para o desemprego não estarem correctas o BCE sugere basicamente que a culpa não é do programa mas do facto do programa não ter sido aplicado mais cedo. Porém, se não foi aplicado mais cedo, não é, na verdade, possível saber se seria realmente como o BCE diz, mas isso não importa porque basta ser dito que seria para já ser tomado como se fosse, como um factor concreto de avaliação do programa.

  8. AMCD diz:

    O filósofo Cornelius Castoriadis (não se trata de um pensador qualquer) disse uma vez que o “empreendedor schumpeteriano, que conjuga uma inventividade técnica com a capacidade para juntar capitais, para organizar uma empresa, para explorar, penetrar e criar mercados, está em vias de desaparecimento, encontrando-se substituído pelas burocracias empresariais e pelos especuladores.” (Castoriadis, 2012: 102). Ora o mercado de compra e venda de instrumentos financeiros é um dos que, neste momento, apresenta a maior expansão a nível mundial devido à utilização e generalização de programas informáticos que permitem a cada um de nós, por exemplo, comprar e vender barris de petróleo, sem o incómodo de os termos de guardar no quintal. E quem diz barris de petróleo, diz acções duma empresa qualquer, milho, ienes, dólares, etc. Para quê então, darmo-nos à maçada de montar um negócio produtivo, como faria um “empreendedor schumpeteriano”?

    Julgo que a questão relativa à separação do capital em capital financeiro e capital industrial não é um equívoco, sendo, pelo contrário, cada vez mais pertinente, pois tudo indica que caminhamos rapidamente para a formação de sociedades de especuladores: as antigas sociedades pré-industriais de produtores deram lugar às actuais sociedades industriais de consumidores e estas por sua vez, tudo o parece indicar, darão lugar a sociedades terciárias de especuladores. Por outras palavras, os especuladores não serão apenas os barões da indústria. Haverá (já está a verificar-se) uma “democratização” da especulação. Mas é claro só quem tiver unhas e que tocará viola.

    • João Valente Aguiar diz:

      Repare, eu não contesto a existência de uma instância financeira mas ela não se separa da esfera produtiva. Na realidade, a primeira centraliza a riqueza produzida na segunda de modo a rentabilizar esse capital-dinheiro e, subsequentemente, reaplicá-lo em múltiplos investimentos. E evidentemente também existem imensos investimentos financeiros deslocados da esfera industrial. Não é isso que me importa. O que me importa é querer separar esferas que existem profundamente imbricadas e mutuamente interligadas: tanto há bancos e sociedades financeiras que tomam conta de grupos predominantemente industriais, como há grupos destes que têm “bancos de grupo”, investimentos enormes nos mercados de acções e até de derivados. O problema político da separação entre ambos os componentes é um: tomar partido pelos que supostamente criariam riqueza (que aliás quem cria são os trabalhadores e não nenhum destes mas isso é outra história) tem uma génese indesmentível no fascismo como procurei mostrar com alguns exemplos muito elucidativos na parte I. Por outro lado, a tese de que haveria “especuladores” de um lado, e “produtivos” (empresários) do outro parte do pressupostos que os primeiros podem determinar os juros como lhes apetecer (com uma gula insaciável) quando o juro está sempre associado ao volume total de mais-valia extraída no domínio da produção.

    • miguel serras pereira diz:

      De acordo, mas o problema é que a própria “dinâmica do capitalismo”, nos termos em que a analisa Castoriadis, resulta na desqualificação do “empresário schumpereiano” e o torna caduco – ou como, de outro ponto de vista, poderíamos dizer ainda: o empresário schumpeteriano engendra um capitalismo financierizado que o orna obsoleto. E, sobretudo, acresce que nada estava mais longe do pensamento de Castoriadis do que a ideia da “restauração” de um capitalismo produtivo como alternativa ao capitalismo de casino.

      msp

      • Justiniano diz:

        Caríssimo MSP, eu acho um bocado estranha a ideia ou percepção do “capitalismo financeiro” ou “financeirizado” como um fenómeno recente, quando se trata de um fenómeno mercantilista histórico e repetido em ambientes de liberdade de criação de actos jurídicos negociais.
        Um não existe sem o outro, são o mesmo fenómeno e a mesma natureza!!

        • miguel serras pereira diz:

          Tem razão, atentíssimo Justiniano. Em certo sentido, o capital financeiro é primeiro (e não só no sentido cronológico). É mesmo anterior à época em que as relações sociais de produção capitalistas se tornam dominantes. Mas é também verdade que o actual capital financeiro tem traços diferentes e específicos. Sem que devamos por isso absolutizar a sua diferença. É, de resto, contra uma representação absolutista das diferenças e/ou contradições entre a “economia produtiva” e a “parasitária” que o ensaio do JVA se inscreve.

          Seu interlocutor cordial

          msp

  9. AMCD diz:

    PS – A obra do Castoriadis que referi é:

    Cornelius Castoriadis (2012), A Ascensão da Insignificância. Bizâncio. pp. 102.

  10. Dédé diz:

    ” a) como explicaria que a Apple (empresa por excelência relacionada com a produção e inovação de bens) capta mais capital-dinheiro no mercado financeiro do que no seu ramo normal de actividade?”

    Começaria por explicar que o capital captado pela Apple através das acções é uma pequena parte do actual valor bolsista da Apple. Uma acção da Apple em 1984 valia em bolsa menos de 3 $US, agora vale mais de 600 $US. Ou bem que é especulação ou bem que é valor criado na empresa e apropriado pelo capital financeiro, ou mais provavelmente uma mistura das duas coisas.
    Por outro lado, como é do conhecimento geral, a Apple não se financia nos mercados, ao contrário tem excedentes de caixa, actualmente à volta de 100 mil milhões de $US. Provavelmente este valor é superior ao que a Apple recebeu da venda de TODAS as suas acções.

    Com esta qualidade de “input” o artigo de JVA arrisca-se a ser mais um caso de “garbage in, garbage out”.

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