“Elena” de Andrei Zvyagintsev

As primeiras cenas mostram logo o registo deste “Elena”: planos longos, cenas muito pausadas, poucos diálogos e a aposta na exposição crua e prolongada das cenas do quotidiano (o acordar, a toilette ou o pequeno almoço a ser preparado). Tudo aceitável se isto tivesse um propósito estético ou narrativo forte, algo que é no mínimo duvidoso. Em sentido inverso, este tipo de cenas, repetidas ao longo do filme (muitas vezes em sentido estrito), talvez ajudem a perturbar a atenção ou a desligar o espectador de um drama social e familiar que podia ser bem interessante.

Elena é uma mulher de meia-idade responsável por, através do dinheiro do marido, sustentar o agregado (com mulher e dois filhos) de um filho aparentemente inútil, fútil e perfeitamente desleixado das suas obrigações familiares. Quando o marido tem um problema de coração, este decide efectuar um testamento em que deixa tudo à filha que o despreza. Dividida entre o amor ao marido e um certo fardo de mãe galinha, Elena decide agir, num processo com contornos trágicos.

A sinopse é atractiva e há diálogos bem interessantes, como quase todos entre o casal protagonista ou aquele no hospital, entre Vladimir (o marido) e a respectiva filha, sobre os genes e a hereditariedade. O que só aumenta a pena de que o filme encrave numa certa obsessao formalista que, com  excepção das cenas em redor da tragédia, com uma paciência e uma crueza psicológicas interessante, não se justifica. Para além do mais, as cenas finais, de denúncia de uma sociedade imoral, sem princípios e com uma nova geração marcada pela violência gratuita, surgem um pouco a martelo. No fundo, a suposta reflexão sobre questões morais e sociais transforma-se numa grande embrulhada sem rumo e, a espaços, bastante aborrecida. Uma pena.

5/10

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