Uma espécie de viúva de Sócrates

Importante tem sido o facto de o BE se recusar a reflectir, em público, sobre o que aconteceu antes das legislativas – por exemplo a moção de censura ao Governo – e sobre os resultados eleitorais.

A entrevista de Rui Tavares ao Sol é conclusiva.
Tavares já assume estar numa estratosfera intelectual que lhe permite olhar com desdém quem milita em partidos. Para Tavares tudo se resolve com namoros entre deputados e com um sistema que desse sempre a vitória do PS mas no qual ele pudesse ser chamado a decidir quem se candidata à CMPorto. Provavelmente, Tavares já se sente a liderar uma tendência de colunistas e bem falantes, que negociará quotas de eleitos dentro do grande partido Democrático – sim porque o PS terá de americanizar o nome como fazem os mais “modernos” partidos europeus.
No discurso de Rui Tavares os desempregados e os pobres são um número do qual nem sempre se recorda, a esquerda um adjectivo para florear todas as frases, BE (à excepção da ala que entende ser social-democrata) e PCP são partidos de bestas e idiotas, o PS um partido que fez umas coisas menos bem mas que com o seu contributo encontrará o caminho. O aumento das desigualdades, os mais pobres, a precariedade, a corrupção, a emigração qualificada são temas que não se devem aprofundar muito para não aborrecer os deputados papoilas, que são tão giros e pensam tão bem mas, por responsabilidade, têm de votar sempre mal.

Sócrates sorri. Entre Bruxelas e Paris há um TGV político. Rui Tavares anda contente. Entre entrevistas e apresentações do seu manifesto ainda ninguém lhe perguntou o que fez pelo povo que o elegeu para o Parlamento Europeu. 

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38 respostas a Uma espécie de viúva de Sócrates

  1. «O meio da esquerda» – um novo chavão, portanto. Não diz «centro-esquerda» porquê? Falta de pachorra…

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Joana, naquela entrevista é cada tiro cada melro. Perdia o dia se aprofundasse cada um dos preconceitos de classe, do tiques anti-democráticos que revela ou do chavões que já ouvi em tantos “novos movimentos”.
      Mas tens razão. “O meio da esquerda” parece ser a “mudança de paradigma”.

  2. Rui F diz:

    Tiago
    Tiques anti democráticos??
    Tenha dó. Porra de cassete comunista que só toca esse velho fandango mal ensaiado.

    Hajam gajos lúcidos à esquerda como o Rui Tavares!

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Rui F., quando li a entrevista lembrei-me logo de si e do que lhe agradaria esta esquerda a meio.

      • Rui F diz:

        Ainda bem que se lembrou de mim.
        É sinal de me olha como um tipo não sectário, aberto à esquerda não acantonada na ideologia.

        Eu depois de ler a entrevista – só soube agora dela porque li o seu post – vi logo que ela causaria urticária à malta do PC ou aos revolucionários de sofá que ainda estão no bloco (mas julgo que já sairam quase todos) 🙂

        • Tiago Mota Saraiva diz:

          Rui F, quando leio um texto que me recorda o Valentim Loureiro não é porque o ache um tipo de esquerda, transparente e honesto.

          • artur. diz:

            Incha. Ó Rui F, com esta até te deu vontade de ir para a casa dos segredos… não?

          • Rui F diz:

            Tiago

            Mas quando lê um texto do Daniel Oliveira sob pseudónimo aposto que concorda com ele

          • Rui F diz:

            Tiago,

            Mas quando lê um texto do Daniel Oliveira sob pseudónimo aposto que concorda com ele

          • Tiago Mota Saraiva diz:

            Falhou o alvo. Eu concordo muitas vezes com o Daniel.
            O Daniel nunca chafurdaria no erro de personificar exclusivamente em si um pretenso movimento, nunca trataria o BE e PCP como os inimigos a abater, nunca trataria os militantes de partidos como idiotas ou nunca organizaria os festins de “gente gira” em Bruxelas.

          • Carlos Guedes diz:

            Existe Esquerda sem ideologia? Ou para lá da ideologia? O que é uma «esquerda não acantonada na ideologia»?

          • Rui F diz:

            Quem abate aqui no BE e nos militantes à descarada é você!

            Eu apenas me demarco do que não gosto.

            O que mais “gosto” nos comunistas é o ar inocente que colocam, depois de chafurdarem à porta dos Bloquistas.

          • Tiago Mota Saraiva diz:

            Rui F., você já escreveu muito mais comentários a “abater” dirigentes e posições do BE do que eu. Se reparar, no caso Rui Tavares, a minha posição está muito mais próxima da do BE do que a sua.

          • Rui F diz:

            Tiago

            O Tavares depois de ter saído para os verdes, foi visto numa convenção e ao que se consta não foi nem molestado nem criticado pelos aderentes presentes.
            O Tavares serviu-se do Bloco para se eleger, não há dúvida mas está cheio de razão quanto ao rumo que o bloco deveria seguir

          • Carlos Guedes diz:

            «O Tavares depois de ter saído para os verdes, foi visto numa convenção»? Pode ter sido visto em muitos sítios, até mesmo numa convenção. Mas não na do BE. Isto é uma mentira ridícula.

        • Augusto diz:

          Rui F. o que me espanta na entrevista do Rui Tavares, é a sua total falta de noção da realidade , do que realmente se passa em Portugal.

          Acho que qualquer cidadão, tem todo o direito de não militar em partidos, e de tentar ser útil ao seu país de muitas outras formas.

          Já me parece um pouco estranho , que certos “independentes”, utilizem os partidos para se afirmarem na politica.

          E sobretudo quando esses ” independentes” assumem compromissos, que rasgam na primeira oportunidade.

          É nisso que o Rui Tavares , perde toda a razão, não se pode ter confiança em alguém que não cumpre os seus compromissos, e o Rui Tavares não os cumpriu , nem com o BE nem com o partido da Esquerda Europeia.

        • De diz:

          “não acantonada na ideologia”

          Há algo de sublime nesta expressão.Cabe aqui todo um programa.Iniciaram-se assim todos os manifestos oportunistas com que se tentaram justificar traições.

          Urticária?Compreende-se que Rui F. a tenha. E que projecte nos outros os seus peculiares fantasmas.
          “Hajam” ou não estes, no fandango que este nos quer impingir

          • imbondeiro diz:

            Todo um programa que poderíamos crismar de “terceiríssima via” e que, invariavelmente, vai desembocar, como todos os sendeiros “esquerda-light” quase sempre desembocam, em casamento de conveniência com os senhores do sistema e do pilim.
            É o Bloco de Esquerda aquela grande panela de sopa da pedra: foram-se acrescentando ingredientes numa lógica de “e mais isto, e mais isto, e mais isto… e mais isto”. Simplesmente, juntou-se a carne ao peixe , amalgamaram-se doces com salgados, alguns dos legumes eram tudo menos frescos e a panela foi deixada ao fogo por demasiado tempo. Consequentemente, os ingredientes ou se evaporaram, ou esturricaram-se irremediavelmente. Ficou a pedra. E se a mistela não era boa de provar, a pedra é, de todo, incomestível. Agora, os fradinhos do avesso terão de pegar na panela e ir aplicar o esquema gastronómico-político para outras bandas. O bom do Rui Tavares, como fradinho ao invés de pé mais ligeiro, já leva um bom avanço aos demais.

    • Edgar diz:

      E “hajam” como o Rui F? Se é que não “houveram” já tanto de um como de outro.

  3. André diz:

    Parece que ainda há quem sinta comichão por haver ainda na dita extrema esquerda quem tenha a coragem de apontar que o rei (ou o secretário-geral) vai nú. Por isso vemos apparatchiks a saírem dos arbustos para reagirem conforme podem. Mas, coitados, como não podem então limitam-se a lançar séries de ataques pessoais, que nada contrariam a mensagem mas põem a descoberto a hipocrisia e pulsão opressiva e totalitária de quem se sente atingido.

    E assim se comportam aqueles que se querem passar por bastiões da seriedade e honestidade.

  4. João Pimenta diz:

    Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim…

    Ponham este Rui Tavares no país real a ganhar a porra de 400 euros por mês para v er se realmente consegue sentir o que é o povo, o povo não anda em universidades, trabalha, e trabalhan muito para esta corja de espçoradores…

  5. closer diz:

    Ao Rui Tavares só apetece parafrasear a velha canção do Zeca Afonso dedicada ao famoso coronel Aventino Teixeira:

    «Se a memória me não falha já te mandei p`ró ca…etano»

  6. licas diz:

    Quando do PREC a extrema esquerda deu que *fazer*
    ao Stalinista PCP . . .
    Daí para diante só se tem visto *troca de galhardetes * .

  7. Antónimo diz:

    Infelizmente, Rui Tavares resume de modo esplendoroso a lucidez e eficácia das apostas do BE em lançar pontas para outras bandas: Alegre, Sá Fernandes (cuja acção no túnel foi louvável) e o eurodeputado.

    Se até aprecio as bolsas que criou, Tavares revelou-se após a querela com Louçã um umbiguista perigoso, capaz de a qualquer momento quebrar a lealdade prometida a quem o elegeu. Mordeu o BE de uma forma que o partido que o resolveu elencar em lista só mereceu por leviandade na escolha.

    Além da autoria do Manifesto Fofinho por uma Esquerda Livre Que Nos Levou a Todos a Recear Que a Laurinda Alves Tivesse Regressado Mais Politizada, tem-se desunhado no Público em artigos defendendo uma tal de super-democracia europeia, de mais de 500 milhões de habitantes que no fundo já existe. Uma coisa onde os cidadãos dos países mais numerosos (a Alemanha) decidiriam o que interessa aos mais pequenos (Grécia ou Portugal), com a grande conhecimento de causa e sensibilidade do terreno que têm revelado.

    Acresce que descobriu no Público e em artigo que vai em cinco partes que os deputados devem responder apenas perante os seus eleitores e não perante partidos pelos quais foram escolhidos. Ao juntar no mesmo molho o modo como os partidos escolhem os candidatos a deputado, atira mais uma pedrada ao BE. Sugere que as listas são feitas por um directório reduzidíssimo sem discussão das bases. Se assim é, se isso o contraria tanto, não se percebe como aceitou ser candidato num movimento que o incluiu a ele independente como número três da lista. Estará convencido que houve milhares que votaram no BE apenas por causa dele?

    No fundo, como saída para o molho de brócolos em que os partidos se enfiaram sugere a bambochata nada democrática dos círculos uninominais onde a notoriedade dá bastantes mais votos que o empenho honesto. Um modelo onde o escrutínio dos eleitos se torna ainda mais complicado. O que fazer a um deputado que não cumpra? E quem representará de seguida esses projectos, eleição após eleição, sistematicamente caducos? Alguém acredita que os ditos independentes ou cidadãos serão em absoluto diferentes dos partidos em quem podemos sempre não votar na vez seguinte?

    O que fazer a uma lista que abra ao meio, vencida pelo narcismo de vários ruis tavares que se revelem em todo o seu esplendor inconsequente, flutuante e sectário?

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Na mouche Antónimo. Não haverá outro jornal que sustente uma coluna de opinião tão descaradamente eleitoralista.

  8. ricardosantos diz:

    Para o tiago não meio ou faz o frete ao pc ou chama-se a policia militar. Porra está cada mais sectoreacionario.

  9. Edgar diz:

    O que não falta por aí, casados, solteiros ou viúvos, são salvadores do… capitalismo; inventam novas vias ou refundações, mascaram-se de gurus da esquerda, mas o objectivo é sempre o mesmo.
    Quando a luta de classes se agudiza e o debate ideológico se intensifica, lá aparecem eles a lançar a confusão.
    Já pensaram por que é que as televisões, rádios e jornais, pertencendo a quem pertencem, lhes dão tanta projecção?

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  11. Vasco Silva diz:

    É com muita pena que não vejo discussão de ideias, mas sim, acusações não fundamentadas e com um total desconhecimento do trabalho de rui tavares no parlamento europeu… Investiguem e depois retirem conclusões. E tenho a certeza absoluta que ele sabe como é a vida das pessoas que ganham 400 euros, pois ele não foi sempre colunista e não vem de familias burguesas..
    Votei no bloco nas ultimas eleições, por estar presente Rui Tavares. Concordo que o sistema eleitoral tem que ser repensado. Se conversarem com as pessoas na rua, vejam os que elas dizem, não só as pessoas do vosso ciclo de amigos, mas as pessoas no geral…

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      O comentário de Vasco Silva é que não tem uma única ideia, ainda que transpire todos os preconceitos revelados na entrevista.
      Em primeiro lugar vota como quem passa uma procuração a um dos membro das listas. Não olha a programas políticos. Em segundo lugar preocupa-se em determinar, ou em não determinar, a origem de classe do eurodeputado. Não haverá um tremendo preconceito no que escreve? Por último, numa verdadeira apropriação do tavarismo, fala pelas “pessoas na rua”.

      • Vasco Silva diz:

        E acha que vale a pena ligar aos programas?? Diga-me qual foi seguido, ultimamente? Mesmo em nível autárquico (para qualquer dos partidos)? E não, não tenho qualquer tipo de preconceito, seja para quem for, nem sequer para com os partidos, se foi essa a ideia que passou, não era minha intenção. No entanto, se me pergunta se vivemos numa democracia plena, a minha resposta é não! E podemos verificar isso na casa representante dos cidadãos, onde temos marionetas a falar, ou mais concretamente os bonecos dos ventrilocos… E se por concordar com uma pessoa somos rotulados com ismos, mais razão me dá. Pois clube só tenho no desporto, prefiro pensar por mim e se amanhã não concordar com o Rui Tavares digo-o na mesma! E o Tiago? Era capaz de concordar??

    • Antónimo diz:

      Não vê discussão de ideias porque não lê o poste nem os comentários. No meu anterior cometário tem várias ideias discutidas. Fáxavôr, diga de sua justiça. E até falo das bolsas, veja lá.

      Depois votar-se no BE por causa do Rui Tavares imagino que tenha sido o caso Vasco Silva, do próprio e da sua dele mãe. Quanto às pessoas da rua, pode dizer-se que é o que eu sou. O que dizem as pessoas na rua, no metro, por exemplo, a hegemonia vai para a hora a que se saiu do trabalho, à falta de trabalho e aos conflitos com a chefia ou o colega no trabalho.

  12. Vasco silva diz:

    Por acaso sr antónimo, a minha mae nao votou nele, pois já faleceu! Esta a ver que o insulto fácil, por vezes e descabido. Porém sei que n foi por mal! Felicidades para si para todos.

  13. Antónimo diz:

    Numa coisa temos de lhe reconhecer mérito:

    Apesar da inconsistência demagógica e sectária (veja-se como trata Louçã) tornou-se um publicista de sucesso

    http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2012/08/ambicao-e-ligeireza-francamente-e-sem.html

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  15. JgMenos diz:

    O grande debate da esquerda é equiparável a um foguetório: bombas, fogo de vista, fogo preso, girândolas!
    É um concurso de fórmulas de causar impressão.
    E o povo de esquerda olha extasiado, e vai-se a viver a realidade possível, sem uma luz que lhe diga um caminho, sem saber onde construir o quê.
    Metódica e fatalísticamente acode a rituais, ditos de luta, como única forma de iludir o peso da sua total inconsequência.

    • De diz:

      Um requiem carpa JgMenos em meia dúzia de palavras.
      Fala em “grande debate”, deixando para lá fórmulas mais à la page como a “mãe de todos os debates” . Mas não se coíbe de lançar o foguetório que expressa a seguir, permeável desta forma cândida à época que atravessamos.
      Só que neste caso é um foguetório rasca.
      Habilita-se assim ao concurso que diz em aberto de “fórmulas de causar impressão”.
      E eis o dito Jg Menos entusiasmado na maionese das suas palavras a convocar termos como “povo de esquerda”,”extasiado”,”fatalisticamente”,”rituais”,”ditos de luta”…
      …palavras de peso que traduzem a “angústia” de Menos pelo assunto vertente?
      Lol.Nada disso.Palavras ocas e vazias como o foguetório a que recorre o dito cujo . Apressa-se a deitar um balde de cal e a rezar uma ladainha para esconjurar os seus fantasmas pessoais.E tal “inconsequência total” que bombástico proclama,mais não é do que o reflexo de olhar para a árvore e não ver a floresta.
      Prova disso é o tonitroante”o grande debate da esquerda” com que inicia o seu exercício.
      Oh JgMenos vossemecê acha mesmo que este é o grande debate da esquerda?
      Poderíamos convocar alguns adjectivos para classificar tal,mas não vale a pena. Porque a melhor caracterização para a vacuidade das palavras que debita está nas palavras do próprio JgMenos com que escorrega a seguir:”É o povo de esquerda…sem UMA LUZ que lhe diga o CAMINHO”.
      🙂
      Oh JgMenos basta de beatices tontas ou apelos messiânicos.Isso não é para a Esquerda.Isso é para os sebastianismos tolos e tontos,pegajosos e retrógrados caros a uma direita pesporrenta e limitada.A luta faz-se com os homens que temos. E não com as masturbações mentais e as elucubrações grandiloquentes dos comentadores de ocasião., apostados em assinar certidões de óbito tão prematuras como…

      (onde é que já ouvi os mesmos esgares?)
      Duplo 🙂

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