Protestos

«No Sudeste Asiático contemporâneo, as raparigas das fábricas exprimem regularmente o seu descontentamento gritando ou tendo ataques “epilépticos” em conjunto. Julgamentos fictícios foram também extremamente populares no passado, como a “audiência” descrita por Robert Darnton, na qual os jornaleiros parisienses do século XVIII puniam vários gatos para censurar o seu mestre e a sua mulher por condutas consideradas injustificadas. Este tipo de protestos simbólicos era uma alternativa frequente à acção “económica”. Antes de 1917, os metalúrgicos de Petrogrado tinham poucos meios formais para desenvolver protestos. Recorriam por isso a uma forma de charivari e humilhavam os seus desprezados superiores conduzindo­‑os para fora da fábrica num carrinho de mão. Alguns trabalhadores apresentavam petições, às quais juntavam por vezes subornos, “para adoçar o temperamento do destinatário da petição”.

Uma forma espectacular de protesto era a “saída colectiva”, na qual grupos de trabalhadores subalternos abandonavam o local de trabalho com a intenção de nunca regressar. Esse tipo de saídas parece ter ocorrido especialmente entre trabalhadores que eram incapazes de defender os seus interesses colectivamente no local de trabalho, ou apenas o podiam fazer correndo um grande risco pessoal. Os exemplos mais importantes podem ser encontrados entre escravos, trabalhadores forçados, jornaleiros e assalariados que trabalhavam em “instituições totais”, como os marinheiros. Um exemplo antigo é a revolta dos Zanj, os escravos da África Oriental forçados a trabalhar nas salinas do Sul do Iraque e que levaram a cabo uma rebelião em 869. Fixaram­‑se em al­‑Mukhtara, “uma cidade muito grande, completamente construída pelos rebeldes, […] num local escolhido pela sua inacessibilidade”, onde chegaram até a cunhar a sua própria moeda.»

Este texto foi retirado de Marcel van der Linden, «Greves», In VARELA, Raquel, NORONHA, Ricardo, PEREIRA, Joana Dias, Greves e Conflitos Sociais no Portugal Contemporâneo, Lisboa: Edições Colibri, 2012, ISBN 978-989-689-188-6

 

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