Na fila dos burros, por favor

Nuno Crato vai introduzir a seleção de alunos na quarta classe. Dizem por aí que é o sistema alemão. Digo eu por aqui que não é. Na Alemanha, um operário qualificado tem um salário, por baixo, de 2200 euros, que corresponde a um bom salário de um professor do liceu na Alemanha. Ou seja, a disparidade salarial entre trabalho manual e intelectual é muito menor do que em Portugal. Já não falo do salário social (acesso a serviços públicos gratuitos). Por cá, dividir as crianças na quarta classe significa criar um contingente de força de trabalho que vai para o ensino “técnico profissional”, e quem em Portugal significa pouco mais que servir às mesas e ouvir 8 por horas por dia o pi…pi…pi…pi…pi…pi da caixa de supermercado, por 432 euros líquidos por mês. Desconheço se haverá alguma organização política de pais, para além das Associações de avós, lideradas por Albino Almeida e um tipo que se diz presidente da Associação de Famílias Numerosas, para agir contra esta brutalidade.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 Responses to Na fila dos burros, por favor

  1. Maria Augusta Tavares diz:

    “A fila dos burros” tem pai, camarada Raquel Varela. É filha legítima do liberalismo. O Estado deveria, na opinião de Smith, prestar atenção à educação da gente comum, na medida demandada pelo capital. Nesse sentido, ele faz restrições ao ensino oferecido pelas instituições públicas e sublinha a importância de um ensino útil, semelhante ao que é destinado às mulheres, para o qual afirma: “Não há instituições públicas para a educação das mulheres e, por essa razão, nada há de inútil, absurdo ou excêntrico no curso normal da sua educação. É-lhes ensinado aquilo que os seus pais e tutores julgam necessário ou útil à sua educação, e nada mais”. Diz ainda Smith:
    “(…) embora a gente comum não possa, em qualquer sociedade civilizada, ter tão boa instrução como as pessoas de posição e fortuna, contudo as partes fundamentais da educação, ler, escrever e contar, devem ser cedo adquiridas na vida das pessoas, de tal modo que a grande parte até das pessoas que se destinam às ocupações mais inferiores, tenham tempo de as adquirir antes que tenham de se empregar nessas ocupações. Com uma despesa bastante reduzida o público pode facilitar, encorajar, e mesmo impor a necessidade da aquisição dessas partes mais essenciais da educação ao conjunto das pessoas (SMITH, 1993, p. 421, v.II)
    Sob essas bases, a gente comum (isto é, a gentalha que produz a riqueza), “numa sociedade civilizada e comercial, requer talvez mais a atenção do público do que a educação das pessoas de posição e fortuna”. Como a ciência não consegue isolar nas mentes humanas “a capacidade inata que os homens têm para a troca”, de que se valem os liberais para defenderem a perpetuação do capitalismo, só lhes resta colocar os trabalhadores e seus filhos na fila dos burros. Não por acaso, desde que a universidade deixou de ser uma instituição elitizada, também pode se verificar dentro dela o lugar das classes sociais. A grande parte dos que estão hoje na universidade estão impedidos de pensar. Enfim, a fila dos burros se estende até lá.
    (Smith, A. Riqueza das Nações. Lisboa, Fundação Calouste Goulbenkian, 1993, Vol. I e II.)

  2. notrivia diz:

    Sistema alemão, claro! Mas não é o de agora, é aquele lembrado como o nacional socialismo alemão que entrou em vigor em 1933…
    É fechar 239 escolas, é separar os que vão estar na merda dos que vão ter vidas confortaveis desde a infância…

  3. André diz:

    Esta entrada de blog é disparatada, pois ignora que temos neste exacto momento licenciados a trabalhar na caixa de supermercado a ganhar 423€ por mês. Mas lá está, o que é importante é insistir na idiotice da luta de classes, por muito desligada da realidade que seja.

    • João diz:

      Não lhe ocorreu questionar que se há licenciados nas caixas dos hipers então onde estarão os do 9º ano? E de quem são filhos os do 9º ano? Dos Belmiros?

  4. Olá Raquel,

    A sociologia da educação tem uma forte tradição na análise da forma como o Estado ao oferecer determinadas vias de ensino produz a seleccão social e divide a sociedade em classes. Neste caso trata-se uma verdadeira selecção social feita em forma bruta. O regresso à educação do portugal de Salazar. Deviamos fazer uma petição pelo menos para pôr a nú essa grosseria.

    Fica aqui o Eça Raquel:

    “A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz. A primeira, naturalmente, sendo o cérebro, governa: a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre e paga a primeira.
    Dois mundos – como diz o nosso poeta Gavião – que se não podem confundir e que, vivendo à parte, com fins diferentes, caminham paralelamente na civilização, um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica. Bachareis são os políticos, os oradores, os poetas, e, por adopção tácita, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores.
    Fruticas são os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates. O Bacharel, tendo a consciência da sua superioridade intelectual, da autoridade que ela lhe confere, dispõe do mundo: ao Futrica resta produzir, pagar para que o Bacharel possa viver, e rezar ao Ser Divino para que proteja o Bacharel.
    O Bacharel, sendo o Espírito, deve impedir que o Futrica, que é apenas a matéria, aspire a viver como ele, a pensar como ele, e, sobretudo, a governar como ele. Deve mantê-lo portanto no seu trabalho subalterno, que é o seu destino providencial. E isto porque um sabe e o outro ignora. Esta ideia de divisão em duas classes é salutar, porque assim, educados nela os que saem da Universidade não correm o perigo de serem contaminados pela ideia contrária – ideia absurda, ateia, destruidora da harmonia universal – de que o futrica pode saber tanto como sabe o Bacharel. Não. não pode: logo as inteligências são desiguais, e assim fica destruído esse princípio pernicioso da igualdade das inteligências, base funesca de um socialismo perverso.”

    Eça de Queiroz em O Conde de Abranhos.

    João Martins

  5. Hugo diz:

    o crato é um cratino

Os comentários estão fechados.