Tauromaquias

Propaganda anti-tauromaquia mais tauromáquica que a tauromaquia.

Apesar de Hemingway e do Picasso, nunca admirei o espectáculo de ver um tipo ridículo, espartilhado e coberto de lantejoulas, a fazer-se ao touro com o mesmo inanimismo com que o animal se faz ao toureiro, ao vermelho ou aos cavalos. Não porque choque particularmente a prática deste desporto, ou que ceda ao delírio de querer proibir o que quer que seja, mas confesso que me faz muita confusão um desperdício tão significativo de carne, sobretudo em tempo de crise. Do lado dos detractores também tudo parece fazer muito pouco sentido. Qual a ideia, por exemplo, de combater as touradas com imagens do touro a furar o toureiro, como se o show uma vez invertido já tivesse piada? Qual o sentido que alguém que se importa com a dor dos bichos, faça gáudio do sofrimento dos homens? Igualmente inexplicável, está bom de ver, é que se tenha convencionado chamar “corrida” a toda esta barbaridade, como se em algum momento o touro e o toureiro pisassem numa pista de tartan, montassem um selim ou nadassem mariposa. É verdade que um e o outro estafam ao longo de uma infinita maratona, mas alguma razão deve haver para o Pedrito de Portugal nunca ter sido porta-estandarte, a Ibéria não ter toureado nas Olimpíadas e os Jogos ainda não testemunharam, em pleno pódio, à sombra da bandeira e ao som do hino nacional, um atleta a erguer uns túbaros e uma orelha ensanguentada.

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20 Responses to Tauromaquias

  1. Bem toureado este assunto. Atrevo-me a acrescentar que faria falta tanta coragem dos toureiros para pegarem os governantes Рpela parte que lhes der mais jeito -, e conduzi-los para os curros mansamente sob o aplauso de uma multiḍo agradecida. Tudo com muita galhardia e brilhantismo, claro.

  2. tiago diz:

    quando se fala daquilo que não se sabe dá textos destes. Convinha estudar alguma coisa, até ler alguma coisa dos camaradas (Redol, Álvaro Guerra) e só, depois, falar.

  3. LR diz:

    Passas ao lado do principal óbice civilizacional a opor às corridas de touros: elas erigem em espectáculo, para gáudio de espectadores pagantes, o sofrimento de animais. Isso, mais do que o sofrimento em si ou um suposto desperdício de carne (que inexiste) é o fundamental. É coisa de bestas arcaicas aplaudir o sangue alheio, mesmo que de bichos.
    Quanto à inversão de factores e actores que algumas campanhas encenam, ele é de efeito óbvio: tentar despertar a empatia para com os toiros.
    E que é isso do “inanimismo”?

  4. mi diz:

    Bullfigths,a main issue in Nation’s impovershiment….

  5. tiago diz:

    Mas qual desperdício de carne? Como deverão saber, esta carne come-se. E lá vem a história do (suposto) sofrimento do animal, o qual nem existiria se não houvesse tauromaquia.

    • Pisca diz:

      Basta ir a qualquer grande superficie para a encontrar, para além dos que por falta de qualidade para a lide são abatidos ainda em bezerros e claro entram no circuito comercial

      Não me venham dizer que os se transformam em bifes são abatidos aos beijinhos

    • notrivia diz:

      Então, se calhar era melhor que não existisse. Manténs o animal vivo para o torturar…

    • Renato Teixeira diz:

      Não come. Não todas as vezes. E se lhe oferecerem tal coisa decline. Uma carne morta daquela maneira não deve ser coisa que se aprecie.

  6. Búzio diz:

    Quanto à propaganda, os proponentes deviam completar o esforço dialéctico e não se ficarem pela inversão simétrica (insuficiente). A síntese seria assim o touro e o toureiro finalmente reconciliados em acto amoroso, rematando o cartaz com o slogan: “pratica o bestialismo não a tortura”. O Fim da História da tourada, etc.

    • Caxineiro diz:

      …e entre aplausos e olés vindo das galerias em delírio, o touro dá ao toureiro– 1 abraço 1— e segreda-lhe: logo á noite vou encontrar-me com uma Miura, não me emprestas os teus sapatinhos cor de rosa?

  7. notrivia diz:

    A inversão dos papeis apresentada na imagem tem o seu ponto:
    Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti.
    Não há descrição mais profunda do conceito denominado como ‘respeito’.
    Conceito tão fundamental e tão ignorado (cada vez mais, diga-se).
    Eis o porquê de toda a barbarie.

  8. Rascunho diz:

    esta leva-me a uma frase que escrevi faz muito:

    a propósito de cornos
    se não os vês é porque os tens

    por esta, e demais razões, partilho do anti em relação ao toureio 🙂

  9. Pingback: Um flagelo denominado tauromaquia |

  10. Gormit diz:

    Muito bom post! Sim senhor, muito claro, assertivo e simples. Tenho esperança que isto chegue aos olhinhos dos totós que exigem ”direitos dos animais”. Não sou a favor das touradas,mas também não apoio pessoas estupidas a fazer um papel ridiculo e quase por desporto: usam fraca argumentaçao, fraca propaganda e desmonta-se tudo muito facilmente. É esta moda dos PAN’s e o camandro. Burguesices.

  11. Carlos Carapeto diz:

    http://www.youtube.com/watch?v=6N_ISvNEDiQ

    Se há quem aprecie isto, eu como inculto e selvagem abomino.

    Talvez este exemplo (que está a seguir) consiga fazer muitos admiradores da tourada mudar de opinião. Se tiverem sensibilidade humana e respeito por os outros seres.

    http://www.youtube.com/watch?v=LdeDo9VnAd4

    Sei de uma situação idêntica na praça de touros de Alcacer do Sal com um miudo.

    Existem touradas porque dá muito dinheiro e fama.

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