MAURITÂNIA – Quando o desespero se torna gasolina da revolta

Nouakchoot, capital da Mauritânia. Foto de Francisco Freire

As ondas de choque das Primaveras Árabes estão a chegar ao Magrebe. A revolta, mesmo vestida de islão, deve mais ao desemprego que ao Corão.

Tombuctu foi tomado. Em Nouakchott dizem-nos que bastaram duas dúzias de pick-ups Toyota cheias de homens armados para colocar o exército do Mali em debandada. Os charters com turistas europeus e norte americanos deixaram de se ouvir no aeródromo local. Uma unidade militar pouco ortodoxa entre os independentistas tuaregues do Sahel – Movimento de Libertação Nacional (MNLA) e a Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), governa um território sem que nem Ocidente nem tropas dos países vizinhos se aventure numa investida militar.

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9 respostas a MAURITÂNIA – Quando o desespero se torna gasolina da revolta

  1. imbondeiro diz:

    Pois, meu caro amigo, aqui se aplica o velho dito de “abrir a caixa de Pandora”. A miséria e a exploração existem, mas é uma perfeita traição ( diria, auto-traição) combaterem-se esses flagelos assassinos com o recurso a um outro flagelo assassino: o Fundamentalismo.
    A hipocrisia do Ocidente não conhece limites. Há uns anos, os talibã dinamitaram umas estátuas de Buda: o clamor foi ensurdecedor. Hoje, é no Mali que o crime lesa cultura tem lugar, com a destruição de Tombuctu: os protestos são pífios. Mero acaso? Nada disso. A inssurreição no Mali tem as suas raízes directas no conflito líbio. Com armas à disposição e um firme apoio dos vitoriosos amigos líbios, os fundamentalistas malianos lançaram-se à conquista do poder. Com os resultados que estão à vista de todos. O silêncio compreende-se: aqueles que originaram tudo isto não estão interessados em que o resultado directo das suas experiências de democratizar à bomba sejam conhecidos e discutidos.
    Tudo isto era perfeitamente previsível. Houve alguns especialistas que para esta probabilidade alertaram. Os “media mainstream” ocidentais, propositadamente, não lhes deram voz. Esses preferem voltar os holofotes para a Síria que é, agora, o nome cifrado para “Irão”.
    Tudo isto é de uma cegueira atroz: ontem, forças progressistas ocidentais puseram-se do lado de fundamentalistas islâmicos que praticaram uma limpeza étnica na Líbia; como hoje, para se mostrarem contra o ditador Assad, se põem ao lado daqueles que massacram o próprio povo, cometendo, juntando ao mal a caramunha, a suprema ignomínia de atribuir essas mortes às forças governamentais. E tudo isso devido a quê? Os sírios tiveram o magno azar de o caminho que os EUA, Israel e as ditaduras do Golfo ( quem fala delas?) traçaram para chegar a Teerão passar por ali. É claro que ao Ocidente e seus aliados pouco lhes importa o risco de toda aquela região – o Líbano, a Jordânia, o Iraque- poderem resvalar para um avassalador conflito étnico-religioso , que se propagará, como um rastilho, a toda a Ásia Central. Cegos pelo seu objectivo, como cegos foram no Iraque e no Afeganistão, armam aqueles que, até ainda há pouco, eram o seu Leviathan.
    E, meu caro amigo, não há que ter dúvidas: o Fundamentalismo – Islâmico, Cristão, Judeu ou Hindu – é uma ideologia confessional radicalmente anti-histórica que nada quer do progresso, pois este mina, inexoravelmente, as suas bases: Deus actua no Mundo como força de mudança, a sua Lei é omnipotente e a sua Palavra vale, incorruptível, para todo o sempre e a todos, a toda a hora, deve guiar . Isto não é uma “especificidade cultural”; isto é reaccionarismo na sua mais pura forma. Logo, isto é o contrário de progresso e democracia. Ver forças que se dizem progressistas saudarem entusiasticamente “primaveras” destas, é coisa que me dá voltas ao estômago. É de uma inenarrável confusão ideológica. E é uma tremenda e criminosa estupidez. E, sabe que mais? O Ocidente está a borrifar-se para o Mali: não há lá petróleo – “No oil, no concern about human rights”. É assim como uma Somália mais para o interior. E todos sabemos o que aconteceu à Somália, não é?

  2. maradona diz:

    isso é propaganda da toyota. nas imagens que nos chegavam da líbia, do sul do sudão, agora da siria, e aliás por toda a áfrica (rebeldes da nigéria, eitreia e etiopia, nos bairros revoltosos de nairobi, etc etc) ve-se igualmente muitas pick-up da mitsubishi e da nissan, e mesmo algumas da serie f-150 da ford americana (o carro mais vendido do mundo de sempre, mas muito piores que as japonesas, admita-se). não sei como é que a toyota conseguiu este golpe publicitário, mas de facto é um extraordinário evento mercantilistico conseguir associar a sua gama de trabalho todo-o-terreno com os lugares mas inóspitos e as pessoas mais desesperadas do planeta. tive que estudar a mina de ferro da mauritania: não aconselho.

  3. maradona diz:

    isso é propaganda da toyota. nas imagens que nos chegavam da líbia, do sul do sudão, agora da siria, e aliás por toda a áfrica (rebeldes da nigéria, eitreia e etiopia, nos bairros revoltosos de nairobi, etc etc) vê-se igualmente muitas pick-up da mitsubishi e d nissan, e mesmo algumas da serie f-150 da ford americana (o carro mais vendido do mundo de sempre, mas muito piores que as japonesas, admita-se). não sei como é que a toyota conseguiu este golpe publicitário, mas de facto é um extraordinário evento mercantilistico conseguir associar a sua gama de trabalho todo-o-terreno com os lugares mas inóspitos e as pessoas mais desesperadas do planeta. tive que estudar a mina de ferro da mauritania: não aconselho.

  4. Miguel Lopes diz:

    “Movimento de Libertação Nacional (MNLA) e a Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), governa um território sem que nem Ocidente nem tropas dos países vizinhos se aventure numa investida militar.”

    Renato, o MNLA está tomado pelos serviços secretos franceses. Aliás, alguns dos seus líderes estão em França e já fizeram comunicados a partir de lá.

    • Renato Teixeira diz:

      Não encontrei nenhum facto que comprove isso. Até ver o MNLA correu, em unidade militar com a AQMI, com o exército do Mali. Para o bem e para o mal, de Bamako para Norte nenhuma outra força politica e militar apita.

      • imbondeiro diz:

        “Para o bem e para mal”? Vê o caro amigo algum bem em toda esta situação?

        • Renato Teixeira diz:

          Vejo. Em vários países são expressão de uma revolta que tardava em chegar contra as marionetas que os colonos deixaram antes de “partirem”.

          • imbondeiro diz:

            Sabe uma coisa: as marionetas que os colonos deixaram já lá vão há muito tempo. Algumas delas foram varridas do mapa político desses países por gente que de marionetas não tinha nada. Foi o caso de Gamal Abdel Nasser, no Egipto, como o foi o caso de Muammar Kadaffi, na Líbia. O que o senhor tem visto nos últimos anos foram neocolonos ( e o seu actual, longuíssimo e poderosíssimo braço armado, o AfriCom) a reinstalarem no poder outras marionetas. Fizeram-no na pátria dos faraós com Sadat e o ditador que se lhe seguiu; fizeram-no no país do coronel do Livro Verde com uma chusma de genocidas de Corão debaixo do sovaco e de dedo nervoso no gatilho. Isto para já não falar naquilo que aconteceu na Costa do Marfim, lembra-se?
            O meu caro amigo aplica velhos conceitos a realidades que, nos seus complexos desenvolvimentos, mudaram radicalmente nos últimos anos. Como tentei explicar-lhe em anterior comentário, tudo isto vai acabar mal. O que aí virá não será democracia, nem será desenvolvimento. O que aí virá será- olhe-se para a Líbia- guerra e opressão de minorias em contínuo e em crescendo.
            Confundir guerras financiadas e promovidas do exterior com tomadas de consciência revolucionárias e progressistas é néscio. Confundir-se os interesses de quem quer ver África a ferro e fogo e, logo, fora do jogo económico mundial como parceiro a ter em conta, com os interesses de povos que só pretendem paz e desenvolvimento para os seus filhos é ser politicamente daltónico.
            Nisto que debatemos, meu caro senhor, e ao contrário do que diz, nada se aproveita. Dir-me-á qual é a lógica de as potências ocidentais combaterem no Afeganistão a mesmíssima gente que apoiam, económica e militarmente, no Magreb ou na Síria. Se me conseguir convencer do facto de essas potências desejarem, acima de tudo, o desenvolvimento do continente africano e do facto de visarem acabar com governantes fantoches, ficarei muito feliz. Receio, contudo, que continue nesta apagada e vil tristeza em que me encontro.

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