Vale mesmo a Pena

Há uns anos Paulo Guinote achou surpreendente eu colocar a crise de 73 nas razões da revolução portuguesa. Eu não acho surpreendente ele desconhecer a história nem o efeito das crises económicas nas sociedades nem a relação (necessária mas não suficiente) entre crises e revoluções . Afinal todos sabemos que o nosso sistema educativo não é dos melhores.

O que escrevi em livro é que a crise é um dado entre outros (revoluções anticoloniais, crise militar, falta de mobilidade social, falta de organização estrutural do movimento operário, portanto mais disruptivo, etc.). Lembrei-me disto porque hoje deparei-me com estes belos documentos que estou a estudar.

Deixo umas reflexões muito breves e parciais (muito mais haveria a dizer sobre os efeitos da crise económica de 73 em Portugal):

1 – A crise económica de 1970-73 (erradamente chamada de choque petrolífero, porque este foi uma das suas manifestações e não causa; não há uma crise decorrente de um choque petrolífero, há um choque petrolífero decorrente de uma crise cíclica) foi a mais importante queda da taxa de lucro depois da Guerra.

2 – Os EUA, como sempre, exportaram a sua crise desvalorizando o dólar (fim do padrão ouro) com a consequente inflação galopante pelo mundo. Em Portugal a inflação chegou aos 30%.

3 – As medidas anti crise implicaram o congelamento da construção na Europa central e portanto a força de trabalho portuguesa estava agora impedida de emigrar e, a que estava em França, Benelux, Suíça, reduzia o envio de remessas.

4 – Implicou um efeito devastador no orçamento do país. 40% do OE já era para a guerra. Contaram-me, mas não tenho docs  para além da história oral, que João Augusto Rosas, ministro das Finanças, quando se demite em 1972, terá afirmado que não «havia dinheiro para continuar a guerra».

5 – Implicou despedimentos em massa, descapitalização e enceramento de fábricas. As ocupações não começam por consciência socialista mas justamente começam como forma de garantir o direito ao trabalho, depois dos patrões encerrarem as fábricas para garantir a destruição de capital e a consequente (re)valorização deste. Vale a pena lembrar que de acordo com Eugénio Rosa passa-se de cerca de 40 mil desempregados em Abril de 1974 para 300 mil em Dezembro de 1975. Todos os materiais da época de todos os quadrantes políticos que consultei de 1974 e 1975 confirmam estes números.

 

A história determinista com base na análise mecânica dos elementos económicos, esquecendo que a economia, dizia o velho Marx, é política, é uma história manca. Mas olvidar que a forma como as sociedades produzem e se reproduzem (economia) é essencial para explicar a história, é um erro. Ou…vá lá, um capricho, de quem olha muito para o umbigo e pouco para as páginas dos livros, mesmo dos autores não marxistas, e de que são exemplo estas duas citações que aqui deixo:

«Não há dúvida» sobre o impacto da «crise atual do capitalismo mundial» (1973) no desmoronamento económico em Portugal (Phillip Schmitter, Portugal Do Autoritarismo à Democracia, 1999:226)

«A taxa de crescimento anual do Produto Interno Bruto dos EUA passa de 4,7% em 1970-73 para 2,4% em 1973-78; na Grã-Bretanha, de 4,3% para 0,9%; no Japão, de 8,1% para 3,7%, e o número de desempregados triplica na Grã-Bretanha e na República Federal Alemã entre 1973 e 1977, para citar alguns exemplos (Beaud, 1992:260). Em Portugal, a classe trabalhadora parece ter-se antecipado a certos conselhos em voga sobre como encarar uma crise, e aborda esta dupla crise, económica e militar, não como uma calamidade, mas como uma oportunidade. À paragem da produção ou encerramento de fábricas, responde com ocupação da propriedade e manutenção da laboração. Nas palavras de Beaud: «Desmoronam-se, com efeito, sob o ponto de vista do capital, quer as condições de produção do valor, quer da mais-valia, quer as condições da sua realização. Do lado da produção, é em primeiro lugar o impulso do movimento operário para a elevação dos salários» (Beaud, História do Capitalismo, 1992: 261)». (Citações minhas e dos dois autores retiradas de VARELA; Raquel, História do PCP na Revolução dos Cravos, Bertand, 2011)

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

23 Responses to Vale mesmo a Pena

Os comentários estão fechados.