“Eu Não Sou a Tua Princesa” de Eva Ionesco

Realizado pela actriz francesa Eva Ionesco, na sua segunda longa-metragem,Eu Não Sou a Tua Princesa aborda questões polémicas e sensíveis. Violetta é uma criança dos seus 12, 13 anos que vive ao cuidado de uma avó / ama, figura submissa, religiosa, com uma relação de sangue pouco clara. Financeiramente, ambas dependem de Hanah (interpretada por Isabelle Huppert), a mãe ausente de Violetta, por quem, apesar da distância, a criança nutre um óbvio fascínio. Hanah é uma fotógrafa aparentemente decadente (é tudo muito difuso), com uma aspiração intelectual e artística pouco ortodoxa, uma obsessão algo mórbida pela morte e, percebe-se mais tarde de forma abrupta e algo descontextualizada, com uma perturbação originada por uma infância traumática.

O contacto entre mãe e filha sobre um forte reforço quando Hanah resolve usar Violetta como modelo fotográfico, num contexto de sensualidade, provocação e erotismo crescentes. No início, trata-se de um papel que a jovem aceita com satisfação: a maquilhagem, os saltos altos ou as festas são estimulantes para uma adolescente com desejo de afirmação no mundo dos adultos. Acontece que, de acordo com a própria mentalidade de Violetta, a situação vai-se tornar incómoda, nomeadamente a partir do momento em que os trabalho exigem uma exposição mais aberta do corpo e contacto físico com rapazes e em que as fotografias começam a ser publicadas. Aliás, no contexto de uma criança que cresceu precocemente, são paradigmáticas as cenas na escola, que mostram uma Violetta isolada, com um visual e comportamentos completamente distintos dos restantes colegas.

O filme acaba por criar um imaginário bem estranho e profundamente inesperado, que gera uma forte curiosidade de se perceber qual o rumo final. Contudo, é aqui que Eu Não Sou Tua Princesa acaba por falhar redondamente, quando opta por uma extravagância excessiva (cenas como a da retrete ou a encenação freak do suicídio são quase caricatas) que afasta a narrativa de um contexto minimamente lógico. O problema não é não haver um epílogo fechado, que surpreendesse extraordinariamente o espectador ou que respondesse de forma clara a algumas dúvidas que ficam não ar. Trata-se, sim, de não deixar sequer as questões em aberto, de mostrar um aparente desnorte que se torna quase penoso, tanto mais  quanto aspectos como a infância perdida, os limites éticos da arte e uma postura maternal perversa seriam condimentos aliciantes para uma bela reflexão cinematográfica.

5/10

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3 Respostas a “Eu Não Sou a Tua Princesa” de Eva Ionesco

  1. Kirk diz:

    Off Topic
    Os serviços de saude deste país estão parados dois dias devido a greve dos médicos como forma de protesto contra a politica de destruição do SNS deste governo e nem uma palavra sobre isso neste blogue?!!!
    K

  2. Bruno Carvalho diz:

    É um retrato quase auto-biográfico da infância de Eva Ionesco. Omitindo-se essa informação não se compreende certos registos do filme.

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