“Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson

Estou longe, bem longe, de ser fã do estilo próprio de Wes Anderson, com a fotografia muito artificial, os delírios egocêntricos ou as constantes manobras de diversão. Contudo, fui convencido de forma relativa por este Moonrise Kingdom, o que já não é mau.

 O filme apresenta um plano secreto de fuga e um romance improvável entre Sam e Suzy, dois miúdos relativamente marginalizados pela sociedade. O território é naturalmente o de uma história de encantar, sem pretensões realistas que não fazem parte do imaginário de Anderson. E, neste contexto, existem personagens secundárias brutais, como o lunático monitor do grupo de escuteiros (Edward Norton), e cenas delirantes, como aqueles diálogos telefónicos de um surrealismo delicioso ou as não-conversas entre os pais de Suzy (Bill Murray e Frances McDormand). Enquanto, a acompanhar, está a melancolia onírica da lindíssima banda-sonora de Alexandre Desplat.

O problema é que o realizador não resiste a uma catadupa de excessos, de inversões bruscas e de devaneios (ainda assim, nada que se aproxime de Darjeeling Limited, até porque no mundo infantil é mais fácil aceitar este estilo) que distraem o espectador do essencial. Assim, perde-se uma narrativa que poderia e deveria centrar-se com mais afinco nas personagens que cria e, sem descurar a perspectiva mais fantasiosa, no seu lado mais humanista (e um amor adolescente é tema que dá pano para mangas, sem ter de cair em cliché).

No fundo, enquanto retrato próprio e leve (de forma real ou aparente) da infância / adolescência, anda algures entre o vazio de Juno e a emotividade profunda de Inquietos, de Gus Van Sant. Interessante, a espaços surpreendente, mas sem deslumbrar.

6/10

 

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