Continua aí, mano


imagem daqui

O rapper Valete publicou na sua página do facebook um texto violento sobre Miguel Relvas que foi muito partilhado naquela rede social e em que, entre outras coisas, acusava Relvas de se portar como um gangster. Uma das páginas que o partilharam, que posteriormente a apagou, foi a do “Ípsilon”, suplemento do “Público”. Vasco Câmara, editor do suplemento, alegou numa nota explicativa que o texto era uma “’explosão’ eminentemente pessoal” e excedia “a forma como nos devemos colocar no debate público”. Câmara acrescentou que, “tendo em conta o recente episódio entre o ‘Público’ e o ministro, esse cuidado deve ser redobrado”. Ou seja, o ministro não telefonou mas o editor procurou precaver-se, apagando.
Esta situação é cada vez mais recorrente e não se circunscreve a um jornal. Quando alguém assume uma posição política mais violenta e consequente contra o poder instituído é marginalizado. Normalmente pratica-se o silenciamento ao abrigo do decoro e, quando é demasiado estridente, surgem logo os autoproclamados guardiões da ética e dos bons costumes a zelar pela “independência” política da cultura. O “Ípsilon”, que não hesita em dar cobertura a diferentes expressões artísticas violentas – tantas vezes confrangedoramente gratuitas e inconsequentes, mas bem enquadradas numa galeria ou numa representação nacional –, não hesita em autocensurar-se perante as palavras violentas de um rapper.
O argumento em torno da “forma” é o primeiro passo para tornar censurável tudo o que for contundente para o poder. Num momento em que cada vez mais pessoas da cultura começam a radicalizar a sua forma de intervenção política, cumprindo aquilo que acredito ser o seu papel social, sobretudo neste momento histórico, importa denunciar todos os actos que tendam a silenciar as práticas mais politizadas.

Ontem no i

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 Responses to Continua aí, mano

  1. Pingback: Miguel Relvas pelo rapper Valete |

Os comentários estão fechados.