Fiesta

O Bloco de Esquerda propôs que um tipo de programação da televisão pública, RTP, fosse votado pelo Parlamento. Como uma parte dos seus eleitores são os fanáticos dos hábitos, que querem impor totalitariamente a toda a sociedade, o esforço, pensam, valeu a pena. No caso é contra as touradas, que a mim, como diz o outro, não me aquecem nem  arrefecem.

Mas pergunto-me, na minha ingenuidade, o que pensa a comissão de trabalhadores da RTP, o sindicato de jornalistas e todos os profissionais com esta medida? Votará em breve o Parlamento aquilo que eu estudo na Universidade?

Estou entre os que acham que o poder político não deve ter mais mas menos poderes, que este não é o nosso Estado e por isso tudo o que lhe dá poder é…poder a nós retirado. Só por isso não vou aqui propor que essa proibição seja estendida à transmissão dos debates parlamentares, espectáculo considerado consensualmente degradante, seja pelo tipo da tasca de Barrancos seja pelo senhor feudal do solar minhoto. Um espectáculo que sobrevive para que os deputados exorcizem o narcisismo e não sofram com a inutilidade da sua labuta diária. E do qual da direita só sai sangue – em matéria de legislação da nossa vida, ou seja, do trabalho -, ou, quando vem da esquerda e foi aprovado, podemos ter a garantir de que é algo inútil ou ficámos pior, como foi manifestamente o caso. As touradas continuam mas agora o Parlamento, pela mão do BE, tem um bocadinho mais legitimidade para votar a programação da RTP e o que mais vier…

A nossa sorte é, como escreveu Hemimngway, que O Sol Nasce Sempre

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

9 Responses to Fiesta

  1. João Torgal diz:

    Raquel, as touradas não são um programa qualquer.

    Uma boa franja da sociedade, na qual me incluo, considera tratar-se de um espectáculo bárbaro e acha repugnante que a televisão pública ocupe o seu espaço de emissão com isto.

    Como tal, saúdo a posição do Bloco.

    P.S.: O sindicato dos jornalistas não deve ter qualquer posição porque não está em causa qualquer transmissão jornalística

    • Raquel Varela diz:

      João, não está em discussão o que se gosta ou não, a barbaridade ou não das touradas – se esse é o critério metade do telejornal seria proibido. O que está aqui em causa é o poder do Estado, que não é nosso, sobre nós.

      • João Torgal diz:

        Em geral concordo, mas tudo muda em situações excepcionais, como esta. Se a RTP passasse pornografia em horário nobre, era normal que esta pudesse ser posta em causa ou não?

        Outro exemplo, em contextos naturalmente diferentes, é a bem polémica transmissão de qualquer missa católica num canal público de um país que se diz laico.

  2. Mário Machaqueiro diz:

    Ou seja: o Bloco de Esquerda acabou de nos dar mais uma razão para não votarmos nele.

  3. um gajo qualquer diz:

    Não sei se já alguma vez estiveste em Barrancos… mas posso garantir-te que há mais alcoólicos no verde Minho que na citada vila raiana. Mas já agora, cabe dizer que em Barrancos não há cinema, teatro ou museu. É verdade que há várias tabernas e uma vez por ano, engalana-se a vila, os filhos da terra regressam e matam-se os toiros. Mas como por lá se consome mais TVE que RTP, não valia a pena reproduzir o estigma na postada.

  4. António Junior diz:

    Bom…
    O sol não “nasce sempre”. O sol “também nasce”.
    A diferença é terrível.

    O optimismo não é uma “fiesta”.

  5. imbondeiro diz:

    Depois da proibição dos passarinhos fritos e da petinga, há que acabar com as transmissões televisivas das touradas… antes de acabar com o espectáculo em si. Eu pecador me confesso: sem pagar um cêntimo que seja para ver touradas, reconheço-lhes certo encanto no movimento e na cor; sou fanático por pesca; pratico tiro desportivo; a minha única e esporádica droga é a cerveja; não resisto a seguir discretamente com o olhar uma bela mulher; sou omnivoro e, quando posso, empanturro-me de carne e de peixe. Aposto que tais gostos chegam e sobram para me pôr no “index” da rapaziada do Bloco. Já do meu “index” não consta ninguém que abomine touradas, seja indiferente à pesca, ignore o tiro desportivo, fume charros de manhã à noite, aprecie eroticamente gente do mesmo sexo e coma exclusivamente espargos. São gostos. E, como sempre ouvi dizer, gostos não se discutem. Nem se oprimem. É que o peixeiro que quer vender o seu peixe em paz, deixa o tendeiro vender limões.

  6. Teixo diz:

    Imbondeiro, esqueceste um adjectivo, sim esse que estás a pensar.
    Não deves exagerar porque qualquer dia até a imbecilidade paga imposto.

Os comentários estão fechados.