“Estrada de Palha” de Rodrigo Areias

Estrada de Palha é um western à portuguesa, com direito a banjo, duelos, chapéus de cowboys e longos descampados (no Alentejo e não no faroeste americano). Estamos no início do século XX, em fase pré-implantação da república, e acompanhamos um homem que, após um período fora do país, regressa a Portugal para vingar a morte do irmão. Em paralelo, a acompanhar um período politicamente conturbado, vamos lendo citações do livro Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, numa evidente metáfora com a impunidade da corrupção actual.

Para além da ideia curiosa (e seguramente difícil) de se fazer um western em Portugal e da mensagem política interessante, o filme conta com imagens bem bonitas e com uma belíssima banda-sonora de Paulo Furtado e Rita Redshoes, com intensos instrumentais de cordas ancestrais a dar um toque de perfeita coerência entre imagem e som. Contudo, apesar de tudo isto, porque será que se fica com a sensação de desconsolo com Estrada de Palha? Talvez porque os planos longuíssimos tiram todo o ritmo à história e porque a própria narrativa é muito fraca e inconsequente, não dando a devida consistência à tão estimada ideia base. Basta pensar, como exemplo, nas cenas quase risíveis em que aparece o grande Nuno Melo, enquanto todo poderoso de uma comunidade (com algumas semelhanças com o papel em O Barão, filme que, de forma ainda mais acentuada do que este, desperdiça por completo uma mensagem interessante, no caso sobre a desertificação do interior)…

Em termos da estrutura de filmagem, enquanto western arrastado, faz lembrar um pouco O Indomável ou O Assassínio de Jesse James de Robert Ford. O primeiro, desprovido do genial e extravagante sentido de humor dos Cohen, é provavelmente um dos filmes mais insossos da dupla de irmãos. O segundo é uma ode ao tédio, num percurso lento de 3 horas rumo a um final já esperado, a que só a extraordinária banda-sonora de Nick Cave e Warren Ellis incute alguma alma. Quem tiver apreciado os dois filmes anteriores, não deixará de encontrar em Estrada de Palha outros ocultos motivos de interesse. Para mim, é apenas um filme com pormenores interessantes e uma oportunidade perdida de construir uma extraordinária metáfora política e uma óptima criação de um género pouco explorado em Portugal.

5/10

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6 Responses to “Estrada de Palha” de Rodrigo Areias

  1. antónimo diz:

    Não é “Os Cohen” mas sim “Os Cohens”.

    Em português, tal como em inglês, os apelidos pluralizam-se.

    Em português faz-se a concordância do apelido com o artigo usado. Mnemónica: O romance do Eça chama-se “Os Maias” e não “Os Maia”.

    • João Torgal diz:

      Se é assim, não fazia a mínima ideia e é um erro recorrente.

      Obrigado pelo apontamento

      • antónimo diz:

        Nós teremos incorporado o erro à conta dos franceses (que sim, lêem Les Maia assim como lêem Les Thibault).

        Curiosas são as séries que trazem o título à moda anglo-saxónica e que nós depois afrancesamos como The Tudors, The Borgias, The Sopranos.

        Deve ser o único caso em que não nos deixamos contaminar pelos anglo-saxónicos. E bem podiamos.

  2. luxemburgo diz:

    Henry David Thorieu??

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