A SuperDemocracia ou A Desilusão de uma Geração

Reformas sociais sem questionar o regime. Empurrar o problema, mesmo que 1 milhão e 300 mil desempregados estejam a afogar-se. O comprometimento da esquerda parlamentar com a democracia burguesa (conhecida no senso comum simplesmente por democracia, democracia representativa, democracia liberal, democracia parlamentar) é tão rígido que, de cada vez que a democracia aparece (porque na essência sempre o foi) como burguesa, com o seu rol espectável de desemprego, miséria, repressão e tecnocracia, apressam-se a chamar-lhe outra coisa: dividadura (Francisco Louçã), ditadura do défice (Jerónimo de Sousa), austeritarismo ou suspensão da democracia (talvez o mais forte ideólogo do BE, Boaventura Sousa Santos).

Como se vai chamar um regime bonapartista, ou seja, uma ditadura com supressão das liberdades políticas? Isto é, quando a burguesia abdicar do poder executivo para manter o poder económico? Vai ser a superditadura, a maisqueditadura, a ditaduríssima ou, quem sabe, a ultradividadura? E, só para nos prepararmos, o fascismo é o quê? A hiperditasuperdura? Creio que devem estar a procurar no dicionário. O desprezo pelos clássicos em nome de uma suposta modernidade, que lança para o lixo tudo, sem nada aprender com o passado, é perigoso.

Quem lê Marx, Engels, Trotsky, Lenine, Gramsci, ou qualquer outro marxista sabe que a Europa está em plena democracia e muito longe  (a não ser na Grécia quando e se houver uma revolução) de qualquer tipo de ditadura, uma vez que a  burguesia prefere governar em democracia e só abdica do poder executivo (ditaduras/regimes bonapartistas) quando se vê ameaçada por um poder revolucionário. Ou quando a revolução é tão esmagadora e a força do operariado é tão dominante que aí, não só abdica do poder executivo, como se vê obrigada a cavalgar nas milícias pequeno-burguesas (o fascismo, a guerra civil).

Esta referência permanente à ditadura pela parte do BE e do PCP, já não digo nada do lunatismo MRPP que já fala em fascismo alemão! – despreza inclusive que, a haver um dado novo nestas sociedades europeias é, – coloco a hipótese – que hoje é mais difícil erguer qualquer tipo de ditadura ou seja, derrotar um processo revolucionário. Atingimos na Europa a plenitude das sociedades capitalistas e já não estamos assentes numa massa de camponeses mas  em sociedades altamente escolarizadas e urbanizadas.  Talvez seja por isso que, apesar de todos os alarmes televisivos (que a esquerda se apressa a reproduzir), o Syrisa na Grécia tem 6 vezes mais votos do que a extrema-direita. Alguma coisa correu mal na Grécia, diz o ministro das finanças gregos recém empossado. O que correu mal foi que os planos de austeridade não se aplicaram como tal por causa da resistência das populações, tendo como vanguarda em muitas das fases jovens radicalizados que nunca souberam o que é a contratação colectiva: os impostos não são cobrados, as portagens são violentadas, as privatizações foram paradas, os salários descem mas desce também a produtividade. Os gregos fizeram 17 greves gerais.

A esquerda apressa-se a reproduzir o papão da extrema direita – é preciso dizê-lo – porque gosta de acenar com um fantasma (ditadura) quando hoje por hoje o regime que oprime os trabalhadores europeus é a democracia e não uma ditadura e é, portanto, contra esse regime que se devem erguer as lutas. Conclusão difícil para toda uma geração – que hoje tem 50 anos, 60 anos – que apostou as fichas todas de uma vida de militância a tentar lutar por um espaço no Parlamento e que agora, no auge da vida, constata a sua total inutilidade.

«Uma corporação do trabalho, não uma corporação parlamentar’. Este tiro vai direto ao coração dos parlamentares modernos e dos parlamentares da social-democracia, seus ‘cachorrinhos de estimação’! Tomem qualquer país parlamentar, da América à Suiça, da França à Inglaterra, Noruega etc., – a verdadeira tarefa do ‘estado’ executa-se entre bastidores e a executam os ministérios, os escritórios, os Estados Maiores. Nos parlamentos não se faz mais que palrear, com a finalidade especial de enganar as ‘pessoas comuns’» Lénine

«O regime Bonapartista pode alcançar um caráter relativamente estável e durável somente no caso de que ponha fim a uma época revolucionária», Trotsky.

Devo estas reflexões às inúmeras conversas que tive com um grande amigo, o historiador Felipe Demier. Se alguém quiser saber tudo os que os marxistas clássicos escreveram sobre o tema dos regimes políticos deleite-se com a tese dele (pp 15 a 197).

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40 respostas a A SuperDemocracia ou A Desilusão de uma Geração

  1. Rocha diz:

    Faz lembrar Nahuel Moreno que dizia ser branda a Ditadura Militar na Argentina.

    A questão da ditadura e da democracia é idioticamente tratada pela pequeno-burguesia como sento dois regimes distintos. Na verdade todas as sociedades de classes, capitalistas, são uma mistura de democracia e ditadura. Democracia para ricos e ditadura para pobres, em síntese.

    A questão é que a actual democracia burguesa portuguesa mata, reprime, priva de liberdade, persegue, censura, rouba, permite a corrupção assumida e descarada, faz a guerra, empobrece, esmaga trabalhadores, entre outras coisas que já aconteceram em regimes como o fascismo de Salazar.

  2. licas diz:

    Deve de ser um deleite: deleite-se com ele______no leito . . .

  3. De diz:

    … la participación en las elecciones parlamentarias y en la lucha desde la tribuna parlamentaria es obligatoria para el partido del proletariado revolucionario …

    … Mientras no tengáis fuerza para disolver el parlamento burgués y cualquier otra institución reaccionaria, estáis obligados a actuar en el seno de dichas instituciones precisamente porque hay todavía en ellas obreros idiotizados …

    … la participación en un parlamento democrático-burgués, lejos de perjudicar al proletariado revolucionario, le permite demostrar más fácilmente a las masas atrasadas por qué semejantes parlamentos merecen ser disueltos, facilita el éxito de su disolución, facilita la “supresión política” del parlamentarismo burgués. …

    … Los bolcheviques hemos actuado en los parlamentos más contrarrevolucionarios y la experiencia ha demostrado que semejante participación ha sido no sólo útil, sino necesaria para el partido del proletariado revolucionario …

    … el parlamento se ha hecho odioso en extremo a la vanguardia revolucionaria de la clase obrera. Es un hecho indiscutible. Y se comprende perfectamente, pues resulta difícil imaginarse mayor vileza, abyección y felonía que la conducta de la inmensa mayoría de los diputados socialistas y socialdemócratas en el parlamento durante la guerra y después de ella. Pero sería no sólo insensato, sino francamente criminal, dejarse llevar por estos sentimientos al decidir la cuestión de cómo se debe luchar contra el mal universalmente reconocido. …

    … Manifestar el “revolucionarismo” sólo con injurias al oportunismo parlamentario, sólo condenando la participación en los parlamentos, resulta facilísimo; pero precisamente porque es demasiado fácil no es la solución de un problema difícil, dificilísimo. …

    … ¡Queréis crear una sociedad nueva y teméis la dificultad de crear una buena minoría parlamentaria de comunistas convencidos, abnegados y heroicos en un parlamento reaccionario! ¿Acaso no es esto infantilismo? …

    Extraído de “La enfermedad infantil del izquierdismo en el Comunismo” (Capitulo XII “¿Debe participarse en los parlamentos burgueses?”) del Maestro Lenin

    Não é preciso dizer mais por agora.

  4. imbondeiro diz:

    Pois, mas que massas sociais enquadra hoje o designativo “operariado”? Há já uns bons cinquenta anos, um embaixador dos EUA, naquilo que ficou crismado para a História como “telegrama longo”, dizia serem os melhores aliados do seu país na luta anticomunista os partidos socialistas e sociais- democratas. Acontece que a utilidade de tais “compagnons de route” caducou. E caducou com a implosão do “Bloco de Leste”. Antes de tal acontecimento, os governos burgueses ocidentais lidavam com as suas classes trabalhadoras com um certo cuidado. Afinal de contas, havia, do outro lado da “cortina”, uma alternativa ( não está aqui em causa se boa, se má) e as coisas, se dessem para o torto, poderiam acabar tragicamente para o poder instituído. Tudo isso acabou. Livre de entraves, o poder económico-financeiro lançou-se numa cavalgada tresloucada à conquista duma área até aí vedada à sua ganância usurária. Essa área dava pelo nome de “Estado Social”.
    Para ajudar à festa, a Alemanha unificada encontrou-se numa Europa cujas fronteiras geopolíticas se tornaram ( muito devido aos seus bons ofícios: lembremo-nos da guerra e da secessão da Croácia), “grosso modo”, aquelas da Europa pré I Guerra Mundial. Se a isso acrescentarmos o desaparecimento do gigante soviético e da ameaça que ele representava para a pátria de Goethe, entenderemos bastante melhor a tentativa da Sr.ª Merkel de se alcandorar a farol autoritário do Velho Continente.
    No corrente processo histórico europeu, o poder económico-financeiro dispensa bem o concurso das fantochadas nazis e fascistas: elas causam muito burburinho e são impossíveis de travestir em “Democracia”. Por ora, ficam-se por promover os talibãs do neoliberalismo que suspendem a “praxis” democrática em prol de um amanhã “competitivo” e “produtor de riqueza”. Neste contexto, a esquerda “comportadinha” anda à procura de um Norte que nem com um GPS conseguirá encontrar. A outra, essa ainda não entendeu que tem que tomar a dianteira e rever estratégias e prioridades, sob pena de se ver ultrapassada por movimentos inorgânicos de raíz populista que hão-de, mais tarde ou mais cedo, transportar a Europa a uma tradição de séculos: a da guerra.

    • De diz:

      Um texto muito bom!

      • Caxineiro diz:

        Como analisa a posição inglesa nesse quadro de supremacia alemã?

        • Raquel Varela diz:

          Acho que a burguesia Britânia está em aliança com os norte-americanos, o que significa que estão a empurrar – com desvalorizações sucessivas do dólar – a crise para a Europa.

        • imbondeiro diz:

          Penso que os ingleses agem como sempre agiram: só se mexem se a sua querida ilha estiver prestes a ir ao fundo. As suas verdadeiras alianças são, aliás, outras. Basta recordar o seu alinhamento sem reservas ao lado dos EUA no conflito iraquiano e afegão, bem como no conflito líbio.
          Ao contrário da Alemanha, a Grã-Bretanha tem um extenso mundo de língua inglesa onde facilmente projecta a sua influência económica e cultural e que lhe serve de refúgio e contrapeso às difíceis relações intra-europeias. Se o Euro acabar e, com ele, a UE, mais facilmente se mantém à tona a Grã-Bretanha do que a Alemanha.

      • licas diz:

        O incumbente (Felipe) copia Trosky , mesmo no título,
        :Napoleónico. Depois foi orientado por quem???
        ___Badaró. . .
        E assim, no parlapaté ocioso se arranjam Doutorices
        (as ditas *ciências não duras* são um entediante copianço,
        e um evidente padrinhanço: MAS DELEITA . . .).

      • imbondeiro diz:

        Obrigado, mas é bondade sua.

      • imbondeiro diz:

        Obrigado, mas é pura bondade sua tal adjectivação.

    • Raquel Varela diz:

      Não creio que tenham sido os movimentos inorgânicos transportar a Europa para a guerra – foram os Estados, a indústria de guerra, a busca de matérias primas, de mão de obra barata.
      Creio que o operariado alargou-se, é mais, mais formado, mais urbano, mais culto. Hoje trabalham num estaleiro na Europa central 250 operários manuais e 250 engenheiros – são ambos parte da classe que vive do trabalho, certo?

      • De diz:

        Não é referido no texto de imbondeiro que foram os movimentos inorgânicos que transportaram a Europa para a guerra.
        O que é dito é taxativamente isto”…movimentos inorgânicos de raíz populista que hão-de, mais tarde ou mais cedo, transportar a Europa a uma tradição de séculos: a da guerra.”
        Futuro.Não passado.
        Substantivamente diferente.

        • imbondeiro diz:

          Cara Raquel Varela:

          O excelentíssimo “De” já lhe respondeu. Das suas palavras, e com a devida vénia, preguiçosamente me aproprio.

      • luxemburgo diz:

        Operariado não é “classe que vive do trabalho”. Também os pides viviam do seu trabalho e recebiam cheque ao fim do mês como os “trabalhadores” da Lisnave. Leia os clássicos: “classe operária” é o que produz mais valia. Esta do “engenheiro-classe-operária” é uma novidade conceptual do tamanho de um abismo…

      • imbondeiro diz:

        Não entendeu o que escrevi. O que eu afirmei ser uma mudança é-o na substância e não no número. Não é o número de engenheiros e o seu aumento que interessa. O que interessa é a mudança de paradigma: os engenheiros foram proletarizados. Foram-no nos seus ordenados, foram-no nas suas condições de trabalho, foram-no nos seus horários, foram-no no seu poder aquisitivo. Fiz-me entender?

  5. imbondeiro diz:

    Respondendo à questão que de entrada coloquei: “proletariado”, ou em vias de em isso rapidamente se tornar, é essa mesmíssima burguesia que, supostamente, ainda segura as rédeas do poder. Um “proletariado” de luxo constituído por médicos, enfermeiros, engenheiros, arquitectos, professores, pela massa dos funcionários públicos… Um “proletariado” do século XXI.

  6. Nuno Rodrigues diz:

    Isto são para aqui mentiras e falácias quanto baste.

    Comecemos por esta: ” O que correu mal foi que os planos de austeridade não se aplicaram como tal por causa da resistência das populações, tendo como vanguarda em muitas das fazes jovens radicalizados que nunca souberam o que é a contratação colectiva: os impostos não são cobrados, as portagens são violentadas, as privatizações foram paradas, os salários descem mas desce também a produtividade. Os gregos fizeram 17 greves gerais.”. Isto é uma mentira. Infelizmente, por causa desses mesmos jovens “radicalizados” (Eu chamaria mesmo violentos, perdidos e propositadamente desviados por forças altamente anti-sindicais). Hoje pagam uma factura cara. A troika existe, os problemas não se resolvem e se as privatizações não existem ou os impostos não são cobrados, é por pura falta de dinheiro (nas portagens) e interesse de momento (privatizações). A Grécia é uma semente pronta a dar uma bela árvore capitalista e muita da água que regará esta árvore deve fluência ao Syriza, força especuladora, enganadora, divisora e acima de tudo mentirosa. Por ironia, mais integrada no sistema parlamentar do que qualquer força referida no texto.

    A segunda:

    “Atingimos na Europa a plenitude das sociedades capitalistas e já não estamos assentes numa massa de camponeses mas em sociedades altamente escolarizadas e urbanizadas”. Isto é daquelas cenas do desconhecimento trapaceiro e algo descontextualizado. Existem ainda muitos camponeses e pequenas indústrias inseridas em meio rural por essa Europa fora. Basta ver os paises de leste. Eu convivi de perto com a Hungria e sem querer criar um “país que é um campo”, tenho noção que não é esse país urbano e esculpido de progresso. Aliás, vai estando cada vez mais longe de o ser, deduzo.

    A última: “O comprometimento da esquerda parlamentar com a democracia burguesa (conhecida no senso comum simplesmente por democracia, democracia representativa, democracia liberal, democracia parlamentar) é tão rígido que, de cada vez que a democracia aparece (porque na essência sempre o foi) como burguesa, com o seu rol espectável de desemprego, miséria, repressão e tecnocracia, apressam-se a chamar-lhe outra coisa: dividadura (Francisco Louçã), ditadura do défice (Jerónimo de Sousa), austeritarismo ou suspensão da democracia (talvez o mais forte ideólogo do BE, Boaventura Sousa Santos).” Isto é daquelas coisas sem cabimento, um jogo de palavras mal amanhado e uma desventura analítica mal concretizada. Não é verdade que o PCP não critique publicamente o sistema actual Português e acima de tudo, não é verdade que use outros termos para o disfarçar. A Raquel tem de fundamentar o que diz, lendo e ouvindo os intervenientes que critica. Tou certo de não o ter feito.

  7. closer diz:

    Todos, ou quase todos, reproduzem clichés antigos: Raquel Varela reproduz os estereótipos de uma visão anquilosada do marxismo numa das suas versões trotsquistas (não a única, nem sequer a mais representativa); os comentadores do PCP (Rocha, etc.) configuram o mundo como ele existia em 89. Lá no fundo, continua a haver um sol na terra. Houve, talvez, pequenos desvios e traições, mas o socialismo real era uma referência basicamente correcta.

    O que Raquel Varela não entende (ou não quer entender) é que a queda do muro afectou-nos a todos, mesmo os que não nos revíamos naquele tipo de regimes. Obrigou e obriga a esquerda a ultrapassar os velhos e desacreditados quadros ideológicos e políticos em que nos movíamos e a procurar outros. Esse tornou-se o desafio mais importante para a esquerda actual: repensar-se à luz das derrotas sofridas e das novas condições do capitalismo.

    É fácil ficar entrincheirado em velhos dogmas de pureza ideológica e chamar traidores aos outros. É fácil, sobretudo quando se faz parte de um pequeno grupo sem peso político real, que junta algumas centenas de pessoas numa manifestação contra o desemprego. Quanto menor for o nosso enraizamento na sociedade, mais se pode bramar em nome da pureza ideológica: um dos teóricos de que tanto gosta chamava-lhe espírito de seita.

    O BE tem cometido erros e tem tido alguns desvios de direita. Mas, na minha opinião, tem tido pelo menos um mérito: não ficou preso nem aos dogmas de pureza ideológica tão caros a Raquel Varela, nem aos paraísos perdidos do socialismo real. Tenta encontrar novas respostas que façam sair a esquerda do buraco em que se encontra. Quem arrisca, expõe-se, não só a ter revezes eleitorais como o do ano passado, mas também às críticas tão assíduas e acirradas neste blog. Mas, apesar de avanços e recuos, erros e má estratégia é esse o caminho. E o resultado do Syriza demonstrou-o amplamente. Os que se mantiveram fiéis às purezas ideológicas, ganharão todos os debates argumentativos, mas, no fundo, nunca incomodarão minimamente o funcionamento do sistema capitalista.

    • imbondeiro diz:

      Não ficou preso a dogmas de pureza ideológica… tem toda a razão. Mas gostava que me esclarecesse uma dúvida: em rigor, qual é a ideologia do Bloco? É que “orto” só pode existir quando há “doxa”. Por outro lado, se o Bloco não se prende, como diz, a dogmas ideológicos, já o seu dogmatismo a nível da imposição de uma agenda “politicamente correcta” está à vista de todos.
      O contrário do dogmatismo ideológico não tem de ser a ultra-plasticidade ideológica do Bloco, e ao tacticismo cínico não tem de suceder a adesão epidérmica e reflexa a tudo o que se autointitule de “revolucionário” e ” anti-ditatorial” . E foi precisamente nesse erro que muitas personalidades do Bloco tropeçaram ao apoiar entusiasticamente os “revolucionários” líbios , a “revolução” egípcia, e os oposicionistas “democratas” sírios. Ao fazê-lo, colocaram-se ao lado de assassinos genocidas e bateram palmas entusiásticas a fundamentalistas islâmicos. Será isto “de esquerda”? É esta a “nova esquerda”?

      • De diz:

        Caro imbondeiro:
        Mais uma vez a transparência cristalina.E com classe.

        • imbondeiro diz:

          Caro “De”:

          Agradeço o seu amável elogio, mas é bondade sua. Devo dizer-lhe uma coisa: se há convicção que rege a minha abordagem aos problemas é a de que a “salada teorética” esconde sempre, mas sempre, uma leitura pouco informada, porque pré-definida do real. Faço as minhas leituras ( de História, de Política, de Religião, etc. ), mas interessam-me pouco, ou nada, as estéreis discussões de cariz académico. A realidade impõe-se sempre à teoria, no entanto há sempre quem queira moldar a primeira à segunda. Numa breve conclusão: tento ser ( não o conseguirei sempre, como é natural) lúcido.
          Saudações cordiais.

  8. leonor diz:

    é contra a democracia que se deve lutar??! li bem? isso é presumir, aceitar, concordar com os do poder que chamam a este regime que temos democracia… mas é evidente que já não vivemos em democracia… (se não é ditadura, será o quê? é para isso que surgem as inventivas palavras). Se as leis fundamentais já são respeitadas (a constituição é democrática, não?), isso significa que aqueles que foram eleitos para os cargos legislativos já nem podem exercem o papel “democraticamente” delegado neles; ou seja, nem no seu conceito mais estrito – o de democracia eleitoral e parlamentar – este regime é uma democracia (o Estado Novo também tinha assembleia nacional e era uma ditadura); que nome lhe daremos, demoniocracia? e porque esta pseudo-democracia degenerou, vamos deitar fora a palavra e o conceito de democracia? e vamos chamar-lhe o quê? e vamos propôr o quê? certamente é melhor falar a mesma língua que todo o mundo usa: usar a palavra “democracia” como exigência; que outra há? ou pode reivindicar-se e anunciar-se uma revolução sem uma palavra qualquer e um projecto de sociedade?

  9. leonor diz:

    “Quem lê Marx, Engels, Trotsky, Lenine, Gramsci, ou qualquer outro marxista sabe que a Europa está em plena democracia e muito longe de qualquer tipo de ditadura,” – sinceramente, alguém lê ou conhece estes “clássicos”? – eu não, mas apreciava que quem os leu soubesse traduzi-los, simplificá-los e adaptá-los à realidade de hoje; talvez então eu percebesse o que é um trotskista, o que pura e simplesmente ignoro…

    • Raquel Varela diz:

      Leonor, o esforço de resumi-los e adaptá-los é inglório e perigoso. Ler dá trabalho, pois claro.

  10. Marco diz:

    Embora muitas vezes não me reveja nos escritos da Raquel, este parece-me uma belíssima síntese das encruzilhadas da esquerda no momento actual. Enferma do “síndrome do diagnóstico”, sem discutir a materialização prática das eventuais alternativas mas esse parece ser um problema por ora inultrapassável do pensamento da esquerda europeia. Será ainda uma onda de choque da ruína do socialismo real, como releva outro comentador.

    Sou é bastante menos optimista no que diz respeito aos diques sociais face ao fascismo que crê representados pelas camadas « altamente escolarizadas e urbanizadas». Trabalho na construção civil de obras públicas, onde o processo de proletarização de letrados precários anda de mãos dadas com a socialização das perdas do Capital – perdas não, queda nas margens de lucro – materializada em despedimentos em massa e cortes salariais aplicados às classes trabalhadoras “tradicionais”.

    Independentemente da formação académica, as “alternativas” que por aqui se ouvem são três.

    Uma espécie de transe, de auto-alienação militante, que consiste em evitar toda e qualquer referência à “crise”.

    O típico chico-espertismo e o seu chavão preferido «os melhores vão sempre safar-se».

    Por último, e cada vez mais comum, o apelo a um caudilho que «viesse endireitar o País».

    Há toda uma geração – colheitas de 80 a 90 – que nunca, em tempo algum contactou com a política, com a discussão da coisa pública. A taxa de juro era baixíssima, chatices para quê?

    Se as gentes, as organizações, os partidos de esquerda, o que seja, não apresentarem uma mundividência que surja como coerente a esta malta, estão no ponto para cair na conversa do «inimigo interno». Que dada a realidade nacional, parece-me que mais coisa menos coisa será “a geração que enganou o País com o 25 de Abril para saquear o Estado”. “ Gente pouco empreendedora, que usou as seitas partidárias e o circo do parlamento, para garantir prebendas.”

  11. licas diz:

    Marco says:
    6 de Julho de 2012 at 10:00

    . . . Por último, e cada vez mais comum, o apelo a um caudilho que «viesse endireitar o País».
    ______
    Marco : evite as más companhias . . .

  12. Tiago Figueiró diz:

    Nas suas cavalgadas marxistas, sempre com uma mã livre para dar uma cachaçada ao PCP, o que o que é que entende que o PCP entende por ditadura? Ditadura é o exercício do poder de uma classe sobre outra. No caso, o exercício do poder o da burguesia monopolista sobre todas as outras camadas e classes, com especial incidência sobre os trabalhadores. O PCP não apelida já de “Ditadura” a ditadura da burguesia na sua forma de democracia burguesa, pela mesma razão que faz com que já não conste no seu programa o termo “Ditadura do proletariado”. Isto é, porque historicamente, em Portugal, o termo “Ditadura” ficou, no léxico das camadas populares, associada à organização do estado burguês na forma de Fascismo, que adoptou durante 48 anos.
    Não foi o PCP que passou a desvalorizar o que esta “democracia” burguesa significa, foi a palavra “Ditadura” que viu o seu significado alterado.
    Quanto ao termo “ditadura da dívida”, sendo, de certa forma, uma metáfora, pode encontrar-se fundamento para utilização desta expressão na leitura desta intervenção do deputado Agostinho Lopes, que apesar com certeza menos “cool” que uma raquel ou um renato, não é uma batata.
    http://resistir.info/portugal/agostinho_25jun12.html

  13. Pingback: A ignorância da teoria gera aberrações políticas | cinco dias

  14. Olá! Assim como simplificar a teoria (o erro apontado acima à Leonor) é perigoso, é perigoso encontrar na teoria marxista – qual bíblia?! – resposta para tudo. O erro é comum aos dirigentes de esquerda e ao texto da Raquel: tomar o fascismo vem sempre de cima. Ou, como disse Medina Carreira, “o forrobodó grego dura até ai momento em que os militares acharem que têm de por ordem naquilo”.

    A minha pergunta é: e se o fascismo vier de baixo? Perdoem-me a citação em galego… do Trotsky:

    “Para que a crise social poda ser conduzida para a revoluçom proletária, cumpre que, ao lado de outras condiçons, se dê um decisivo movimento das classes pequeno burguesas na direcçom do proletariado. Isto daria ao proletariado a ocasiom de pôr-se à frente da naçom e liderá-la. As últimas eleiçons revelam – e isto é o seu principal valor sintomático – umha tendência no sentido contrário. Sob a desfeita da crise, a pequena burguesia tem-se decantado nom pola revoluçom proletária, mas pola mais radical reacçom imperialista, empurrando nessa direcçom um considerável sector do próprio proletariado.

    O crescimento gigantesco do nacional socialismo é expressom de dous factores: umha profunda crise social, que desestabiliza o equilíbrio das massas pequeno burguesas, e a carência de um partido revolucionário que apareça ante as massas populares como reconhecido dirigente revolucionário. Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo é, como movimento de massas, o partido da desesperança contra-revolucionária. Quando a esperança revolucionária abraça as massas proletárias ao completo, isso empurra inevitavelmente no caminho da revoluçom consideráveis e crescentes camadas pequeno-burguesas. Precisamente nesse plano, as eleiçons oferecem a imagem oposta: a desesperança contra-revolucionária abraça as massas pequeno burguesas com tanta força que que empurra importantes sectores do proletariado…”

    (daqui: http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1930/09/perigo.htm)

    Abraços

    • É essa a questão. O fascismo é sempre criado fora da grande burguesia. Esta pode vir a ser a sua principal beneficiária (ou para tentar ser mais correcto, ela pode ser salva pelos gestores que ascendem e tomam as rédeas num regime fascista). Mas isso não significa que ela seja a criadora da burguesia. Por outro lado, não percebo o recurso a termos profundamente equivocados como classe média ou pequena-burguesia. A primeira não existe e nunca existiu. A segunda é uma classe praticamente insignificante nos países desenvolvidos. Por outro lado, o termo pequena-burguesia tem sido utilizado da maneira mais leviana possível: tanto se refere aos pequenos proprietários (o seu único significado correcto), a gestores, supervisores e capatazes, ou a técnicos qualificados e trabalhadores intelectuais. Portanto, acho esse um termo absolutamente equivocado e que nada explica. Agora se houvesse real interesse em perceber as formas de actuação, reprodução e captação dos gestores como a terceira classe do capitalismo, isso sim seria muito mais proveitoso…

      • De facto, eu uso o termo “classe média” para referir-me tanto a pequena-burguesia como a aristocracia operária. Por aristocracia operária entendo aquilo que Lenine entendia no final do seu Prefácio ao Imperialismo (ver aqui): operários aburguesados, “inteiramente pequeno-burgueses pelo seu género de vida”. Não o vejo somente, nem principalmente, como o resultado do suborno que o “super-lucro” (aquele que resulta da exploração dos operários de outros países) permite; mas sobretudo como resultado da possibilidade do capitalismo “satisfazer das necessidades imediatas” dos proletários (para falar à Gramsci). Esta situação só é possível em momentos ascendentes do ciclo económico, como o que vivemos entre 1982 e 2000, sobretudo graças à dinâmica da construção civil.

        Se o momento ascendente do ciclo económico gera hierarquias dentro das massas trabalhadoras; o momento descendente (que vivemos desde 2004 e foi agravado em 2008) leva ao seu achatamento. É a partir deste ponto que eu li aquela citação de Trotsky. Quem vai hegemonizar a luta dos trabalhadores agora que a classe se tende a achatar? Os de baixo, com o seu programa socialista? Ou os de cima que ainda luta com os seus valores pequeno-burgueses e, portanto, fascistas?

        No caso de Portugal, e certamente de toda a Europa do Sul, a perda de salário entre esta “aristocracia operária”, como especial atenção para professores e médicos, é potenciada por um fenómeno geracional. Os mais afetados pela crise são os que investiram num curso para entrar nessa “aristocracia” operária e não conseguiram. Terminaram num call-center ou no desemprego. Isto faz com que a fração da classe trabalhadora mais volátil sejam estes jovens, isto é, os que vêm de cima (para manter o rigor teórico apoio-me em Bourdieu: o ponto de partida de classe é a posição social do pai; o ponto de chegada é a posição social do próprio).

        Daí que eu seja pessimista!!!

      • Pequena-burguesia uso no sentido estrito: pequenos patrões! Isto é, aqueles que vivem em permanente ameaça de falir e virarem desempregados à procura de trabalho assalariado.

  15. Pingback: Sobre o regresso do fascismo « Fala Ferreira

  16. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Não sei se é aqui que este comentário devia ser feito, mas aqui vai.

    Sinto-me como se estivesse a ler um livro de receitas medievais em que as medidas fossem o quartilho, a onça ou o escrópulo. Ou seja, a receita provavelmente não vale nada, e as medidas são incompreensíveis.

    Primeiro problema:

    Os raciocínios baseados em ideologias têm o valor de incantanções e de fórmulas de bruxaria. As ideologias não são uma base válida para argumentar, porque as ideologias não têm valor científico. As ideologias são manifestações de fé, são crenças, transformadas em muletas para mentecaptos. Os axiomas das ciências sociais são valores enquadrados pela ética e pela sociobiologia. Nós só em parte somos o que queremos ser, o resto é-nos imposto pela necessidade de sobreviver e pela genética.

    Segundo problema:

    Se o nosso quadro de valores engloba, por exemplo, a liberdade e os direitos humanos, necessariamente procuraremos realizar a democracia política, entendida como a possibilidade de participar na res publica e de traduzir em políticas a vontade e sentimentos de cada um, num quadro de consensos. Qualquer entorse a esta participação é uma violação do quadro de valores de referência e é, por isso, inaceitável.

    Terceiro problema:

    Dada a importância da “economia”, entendida como o sistema de produção e de distribuição dos bens necessários ao bem estar das pessoas e das comunidades, a grande clivagem nas nossas sociedades é a posse dos meios de produção. A sociedade está dividida entre os que possuem e controlam os meios de produção, e os que não controlam nem possuem esses meios de produção mas são forçados a utilizá-los sob controlo alheio e para benefício alheio. Dessa divisão e do comportamento, ética e geneticamente condicionado, das pessoas, nasce a exploração, a opressão e a desigualdade, que inviabilizam e falsificam a democracia. Esta divisão é estrutural no quadro do capitalismo, mas não é inevitável fora dele.

    Quarto problema:

    A solução para esta patologia social não é a opressão de um grupo pelo outro, não é a recusa da democracia, não é uma ditadura de classe em que a própria classe é uma construção ideológica. A solução é confundir, nas mesmas pessoas, a posse e a utilização dos meios de produção, ou seja, fundir o capital e o trabalho. Esta socialização dos meios de produção – à falta de melhor expressão – não necessita, no entanto, de intermediários. Não é o estado, nem o partido que podem assumir a socialização dos meios de produção. São os próprios agentes produtivos (trabalhadores, se quiserem) que criam ou se apropriam dos meios de produção, que os gerem e utilizam, e que passarão a beneficiar do produto do seu esforço (das mais valias do trabalho, se quiserem). Cessando a divisão entre possuidores e não possuidores dos meios de produção, cessa a exploração sistemática – sobrando apenas a que deriva das contingências éticas ou genéticas – e a democracia pode funcionar.

    Conclusão:

    O fulcro de todo o activismo político tem de ser dirigido à eliminação da distinção entre possuidores e não possuidores dos meios de produção. Se isso se faz gradualmente ou de forma súbita é uma questão a debater. Mas só o conseguiremos, sem pôr em causa o objectivo último da democracia, se nos deixarmos de discursos e de querelas de índole ideológica.

  17. licas diz:

    Nuno Cardoso da Silva says:
    7 de Julho de 2012 at 8:33
    Não sei se é aqui que este comentário devia ser feito, mas aqui vai.

    . . . Os raciocínios baseados em ideologias têm o valor de incantanções e de fórmulas de bruxaria. As ideologias não são uma base válida para argumentar, porque as ideologias não têm valor científico. As ideologias são manifestações de fé, são crenças, transformadas em muletas para mentecaptos. Os axiomas das ciências sociais são valores enquadrados pela ética e pela sociobiologia. Nós só em parte somos o que queremos ser, o resto é-nos imposto pela necessidade de sobreviver e pela genética.
    __________________

    Apoiado!

  18. licas diz:

    Na Ciência também se usam hipóteses . . .

  19. licas diz:

    Na Ciência também se usam hipóteses.
    E se . . . Os pressupostos do modelo teórico são cuidadosa mas livremente escolhidos finalizando-se por fazer a previsão completa do que aconteceria se esses pressupostos fossem realmente válidos. De acordo com o modelo teórico parte-se para construir o objecto/mecanismo/fórmula/modelo matemático e pomo-lo a funcionar. Dos resultados obtidos, correctamente analisados segundo métodos isentos lógico/matemáticos, finalmente podemos concluir se o modelo teórico afinal está correto.
    Foi o que se passou sim o Comunismo, posto em funcionamento escrupuloso durante quase todo a século XX na Rússia, em que praxis seguiu fielmente a teoria. Da própria natureza do regime o processo seguiu sem que as pessoas pudessem livremente avaliar/opinar/aperfeiçoar/inflectir. A oportunidade da definitiva avaliação do desempenho do Comunismo na prática chegou quando da implosão da URSS.
    . . . E o resultado não poderia ser mais eloquente . . .
    Para mal dos nossos erros como Nação ainda se preservam *camaradas* tais que a evidência experimental para nada conta.

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