A SuperDemocracia ou A Desilusão de uma Geração

Reformas sociais sem questionar o regime. Empurrar o problema, mesmo que 1 milhão e 300 mil desempregados estejam a afogar-se. O comprometimento da esquerda parlamentar com a democracia burguesa (conhecida no senso comum simplesmente por democracia, democracia representativa, democracia liberal, democracia parlamentar) é tão rígido que, de cada vez que a democracia aparece (porque na essência sempre o foi) como burguesa, com o seu rol espectável de desemprego, miséria, repressão e tecnocracia, apressam-se a chamar-lhe outra coisa: dividadura (Francisco Louçã), ditadura do défice (Jerónimo de Sousa), austeritarismo ou suspensão da democracia (talvez o mais forte ideólogo do BE, Boaventura Sousa Santos).

Como se vai chamar um regime bonapartista, ou seja, uma ditadura com supressão das liberdades políticas? Isto é, quando a burguesia abdicar do poder executivo para manter o poder económico? Vai ser a superditadura, a maisqueditadura, a ditaduríssima ou, quem sabe, a ultradividadura? E, só para nos prepararmos, o fascismo é o quê? A hiperditasuperdura? Creio que devem estar a procurar no dicionário. O desprezo pelos clássicos em nome de uma suposta modernidade, que lança para o lixo tudo, sem nada aprender com o passado, é perigoso.

Quem lê Marx, Engels, Trotsky, Lenine, Gramsci, ou qualquer outro marxista sabe que a Europa está em plena democracia e muito longe  (a não ser na Grécia quando e se houver uma revolução) de qualquer tipo de ditadura, uma vez que a  burguesia prefere governar em democracia e só abdica do poder executivo (ditaduras/regimes bonapartistas) quando se vê ameaçada por um poder revolucionário. Ou quando a revolução é tão esmagadora e a força do operariado é tão dominante que aí, não só abdica do poder executivo, como se vê obrigada a cavalgar nas milícias pequeno-burguesas (o fascismo, a guerra civil).

Esta referência permanente à ditadura pela parte do BE e do PCP, já não digo nada do lunatismo MRPP que já fala em fascismo alemão! – despreza inclusive que, a haver um dado novo nestas sociedades europeias é, – coloco a hipótese – que hoje é mais difícil erguer qualquer tipo de ditadura ou seja, derrotar um processo revolucionário. Atingimos na Europa a plenitude das sociedades capitalistas e já não estamos assentes numa massa de camponeses mas  em sociedades altamente escolarizadas e urbanizadas.  Talvez seja por isso que, apesar de todos os alarmes televisivos (que a esquerda se apressa a reproduzir), o Syrisa na Grécia tem 6 vezes mais votos do que a extrema-direita. Alguma coisa correu mal na Grécia, diz o ministro das finanças gregos recém empossado. O que correu mal foi que os planos de austeridade não se aplicaram como tal por causa da resistência das populações, tendo como vanguarda em muitas das fases jovens radicalizados que nunca souberam o que é a contratação colectiva: os impostos não são cobrados, as portagens são violentadas, as privatizações foram paradas, os salários descem mas desce também a produtividade. Os gregos fizeram 17 greves gerais.

A esquerda apressa-se a reproduzir o papão da extrema direita – é preciso dizê-lo – porque gosta de acenar com um fantasma (ditadura) quando hoje por hoje o regime que oprime os trabalhadores europeus é a democracia e não uma ditadura e é, portanto, contra esse regime que se devem erguer as lutas. Conclusão difícil para toda uma geração – que hoje tem 50 anos, 60 anos – que apostou as fichas todas de uma vida de militância a tentar lutar por um espaço no Parlamento e que agora, no auge da vida, constata a sua total inutilidade.

«Uma corporação do trabalho, não uma corporação parlamentar’. Este tiro vai direto ao coração dos parlamentares modernos e dos parlamentares da social-democracia, seus ‘cachorrinhos de estimação’! Tomem qualquer país parlamentar, da América à Suiça, da França à Inglaterra, Noruega etc., – a verdadeira tarefa do ‘estado’ executa-se entre bastidores e a executam os ministérios, os escritórios, os Estados Maiores. Nos parlamentos não se faz mais que palrear, com a finalidade especial de enganar as ‘pessoas comuns’» Lénine

«O regime Bonapartista pode alcançar um caráter relativamente estável e durável somente no caso de que ponha fim a uma época revolucionária», Trotsky.

Devo estas reflexões às inúmeras conversas que tive com um grande amigo, o historiador Felipe Demier. Se alguém quiser saber tudo os que os marxistas clássicos escreveram sobre o tema dos regimes políticos deleite-se com a tese dele (pp 15 a 197).

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