O Super Indivíduo

O Movimento Sem Emprego trouxe algumas novidades aos movimentos sociais, a começar por se dirigir com transparência a todos ao partidos, sindicais e associações que lutam contra o Governo e a Troika – quem não foi à manifestação fê-lo porque o sectarismo de construir o «seu partido» é mais forte do que a luta contra o desemprego.

Mas trouxe outras novidades – as quais, de longe, me tenho apercebido com muita consideração. O MSE traçou uma linha comum entre desempregados, precários e empregados, afirmando o comum entre toda a força de trabalho, ou seja, a gestão de seres humanos como mercadoria, desta forma votados à brutalidade do Capital e prensados entre salários de subsistência e superpopulação relativa, dizia o velho Marx, ou seja um exército de desempregados que mantém o salário dos empregados ao nível da subsistência.

Outra das novidades é a aversão à marginalização e ao espírito de seita: eles não são trabalhadores ou trabalhadoras, homo ou hétero, amigos dos animais ou inimigos, freaks ou betos, são Trabalhadores.

Têm ainda outra originalidade que parece ter passado à margem das organizações feministas – é um movimento de homens e mulheres que tem como duas das principais figuras públicas duas mulheres. Contribui mais para a igualdade de género confundir textos com arrobas, x e outras tatuagens que nos tornem tão especiais, ou ter mulheres a encabeçar um movimento que também é de homens?

É no mínimo estrambólico o fanatismo de um tipo que levou à manifestação um cartaz dizendo os «desempregados são assexuais» ou de um movimento feminista que foi na cauda a gritar contra o desemprego feminino. Não é dividir nem gosto pela marginalidade nem muito menos fanatismo de seita (embora seja um pouco de tudo na sua aparência) mas é acima de tudo, na sua essência, reflexo deste l’air du temps de início do século XXI – narcisismo absoluto, imposição ao coletivo das experiências e opressões individuais, que não são um problema a resolver com a ajuda de todos, são uma imposição totalitária ao todo: o meu umbigo, a minha forma de ser, a minha sexualidade, a minha vontade, o meu problema, a minha tristeza, o meu, o meu, o meu, o meu, o meu, o meu…o meu cordão umbilical que a minha mãe nunca cortou comigo, diria Freud! (lá está a sexualidade de volta).Um individualismo radical que deixaria os mais liberais de la République!, nos idos de 1789, envergonhados.

Ainda bem que no MSE, creio que talvez por ser feito de pessoas com vidas muito difíceis, que estão no limite da sua resistência individual, se tolera este l’air du temps e se perdoa o atraso da consciência, formada pela competição (e o individualismo) capitalista. Bem hajam!

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26 respostas a O Super Indivíduo

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    O drama e a glória de ser português é o seu individualismo extremado. Que tanto dificulta a luta pelo bem comum, mas que ao mesmo tempo nos poupa a redução à condição de rebanho que tanto afecta os povos ditos superiores do norte… Só nós éramos capazes de transformar a obrigação de ceder a prioridade aos peões nas passagens que lhes são dedicadas, a uma gentileza merecedora de agradecimento e com igual graça recebido. Transformar direitos em graças é irritante mas é também o que pode transformar a desigualdade de condições numa igualdade de dignidades. A tolerância dos portugueses por vezes parece desconhecimento ou indiferença perante valores, mas foi o que tornou homogénea a heterogeneidade original, foi o que nos permitiu absorver duzentos mil judeus e outros tantos escravos, de tal forma que não há entre nós quem não tenha genes hebraicos ou africanos… Gerar acções comuns neste povo de líricos é o mesmo que fazer castelos de areia seca, mas também é verdade que quando apontamos todos ao mesmo tempo para o mesmo lado, poucos nos resistirão. Há que persistir. Acabaremos por lá chegar.

  2. Raquel Varela diz:

    Tiago,
    Apaguei o seu comentário por razões óbvias. Já agora qual é a sua profissão?
    Vejo que vem de uma tradição em que para discutir e debater política é preciso questionar a idoneidade profissional (neste caso) ou moral das pessoas – chama-se estalinismo.
    Um tipo nunca discorda politicamente – ele é mau profissional, roubou uma máquina de escrever, o que é preciso é tentar deitar a moral abaixo das pessoas para ver se assim se destrói os argumentos políticos.
    Retire lá esse início que eu com todo o gosto publicarei as suas divergências.

    • Raquel Varela diz:

      Tudo certo ao outro comentário. E chamar estalinista não foi boa ideia, mas a minha profissão não é para aqui chamada, nunca. Dá-me muito trabalho e nunca escrevo um artigo ou um livro como escrevo um post porque a investigação leva anos a fazer-se e o debate político não.

  3. Francisco d'Oliveira Raposo diz:

    Dedo na ferida, Raquel.
    “No meu tempo” era mais fácil: havia o capitalismo imperialismo e socialismo, internacionalismo.
    A coisa não era exactamente assim, mas dava para nos acomodarmos, muitas vezes aos estalos e pontapés de um ou outro lado da barrica.
    “No meu tempo de hoje” vejo novos activistas que, pelas condições objectivas, andam a procurar respostas e alternativas.
    Mas “no meu tempo” o filho do operário tinha como expectativa “ser operário” ou na melhor das hipóteses “escriturário”.
    No “meu tempo de hoje” debato com advogados e engenheiros que têm como expectativa a precariedade e o desemprego.
    Mas ainda não chegaram ao “miolo da questão”: a terrível e permanente guerra de classes a que sempre estivemos sujeitos mas apenas agora se torna mais evidente.
    E como não de individuas, e como os opressores estão organizados, daí o trabalho de formiginha para organizar e agir em colectivo. É difícil ao MSE, pois claro que é. Mas é o caminho, que remédio.
    às vezes não há pachorra, eu sei… Mas, que remédio, né?

    • licas diz:

      As *classes* já não são o que eram . . . resultado
      do Ogre do Capitalismo . . .

    • M.D. diz:

      Continua-se a falar de uma luta de classes, da mesma forma como se vivessemos em época da revolução industrial. É imperativo olharem à vossa volta e perceberem o que o mundo mudou nos ultimos 100 anos, e principalmente nos últimos 50. Já Nem mesmo alguns pressupostos cientificos se mantiveram de pé, quanto mais ciências sociais… O mundo mudou, e com todo o erro que uma generalização trás consigo, melhou para melhor para a esmagadora maioria das pessoas! Com toda a pobreza e miséria que ainda existe, a realidade (triste para algumas correntes de pensamento que apenas sobrevivem da miséria alheia) é que se vive mais, com maior qualidade de vida, trabalha-se menos e com mais e melhores ferramentas e condições, com inegável maior acesso ao conhecimento, com mais saúde, etc. É inegável, e nem a famosa “Invention of Permanent Poverty” consegue negar. Estamos longe de termos uma sociedade justa e equilibrada, mas estamos também longe de viver a luta de classes de que tanto falam. Até andou perto quando referiu que no “antigamente” o filho de um operário tinha como espectativa ser operário. Hoje o filho de um operário pode não viver com certeza nas torres da expo, mas tem de certeza telemóvel. Tem acesso à internet onde pode consultar o seu FB, e ainda vê canais de cabo. Vai acampar de férias com os amigos, e dentro de um nível de vida com escassez vive-o com bem mais qualidade de vida do que o filho do operário de antigamente, que aos 14 anos trabalhava já 10 horas por dia na fábrica…

      Se querem lutar, deixem cair esses dogmas. Actualizem-se. Leiam o mundo actual como ele é. Percebam quais os incentivos que regem a acção humana. Vejam o Estado como um mal menor que serve para servir o Homem e não o inverso. Lutem contra o desemprego, que é esse o mal que corre atrás do filho do operário, por exemplo, com as armas certas, e sem a hipócrisia insustentável de quem acha que o capital nasce numa árvore. Nessa altura será certo que deixarão de ser comunistas, mas também será certo que ai sim, começarão a ajudar muita gente. As pessoas á frente de uma ideologia seria por exemplo um bom mote. Até lá este MSE servirá apenas para algumas almas narcizistas pavonearem-se a debitar inconsequências.

      Bem sei que o mal começa logo na nossa Constituição da República…

      • Ana Menta diz:

        Mais um mal informado sobre o que são classes. Julga-se ‘classe média’ (como se tal coisa existisse), aprendeu a lenga-lenga capitalista para ficar todo orgulhoso da sua ‘classe média’ e a defender a todo 0 custo.
        Meu caro, só há duas classes, não importa se são médicos, operários ou arquitectos:
        – a dos patrões que ficam com o lucro máximo
        – a dos trabalhadores que ficam com o que o patrão muito bem entender. Pode ser muito ou nada – tantos casos que conheço de arquitectos sem receber nada.

        Bem haja.

        • M.D. diz:

          Interpretação sua. Não vejo no meu comentário nenhuma referência a classe média. Sei bem que a vossa visão do mundo é preta e branca, bem patente na distinção:

          – Classe dos patrões que ficam com o lucro máximo
          – Classe dos trabalhadores que ficam com o que o patrão muito bem entender.

          Mais valia dizer logo, o mau e o bom.

          Já agora, deixo-lhe o meu comentário de um outro post para ver se me ajuda a perceber essa tão falada luta de classes, já que as respostas que tive não fugiram mais uma vez da generalização lirica da sociedade:

          Sinceramente gostava de perceber como funcionaria na prática uma sociedade assente nesses lirismo do “Há quem crie riqueza. Há quem se apodere dela” ou da “Exploração do Homem pelo Homem” onde quer que exista uma hierárquia no mercado de trabalho. A não ser que quando essa hierarquia termine num patrão Estado seja bom e não haja nem apropriação de riqueza nem exploração do Homem pelo Homem, e se terminar num patrão Privado seja mau. Nem quero imaginar que seja esta uma posição válida e sequer defensável… Assim sendo, qual a proposta para evitar esta suposta exploração, e apropriação de riqueza pelo patrão? Acabar-se com o patrão? Vamos a exemplos:

          Quando alguém contrata uma mulher-a-dias e se torna em patrão de alguém, e lhe paga um valor em troca da limpeza da sua casa, está a haver uma “exploração do Homem pelo Homem”??? Está a existir apropriação de riqueza??? É que se empregada levar dinheiro ao fim do dia, é porque houve criação da mesma??? Ou isto só é válido para fábricas???

          Quando uma designer trabalha ao longo de anos e constroi uma carteira de clientes cujo volume de trabalho já não lhe permite desenvolver trabalho e decide criar uma empresa contratanto duas designers e uma secretária para trabalho administrativo, em troca de ordenado, está a haver uma “exploração do Homem pelo Homem”??? Está a existir apropriação de riqueza??? O aumento de rendimento do Patrão entre o momento em que trabalhava sozinho e quando contrata pessoas é um roubo dos seus trabalhadores??? Se este patrão ao fim de 10 anos, ter ficado “rica”, fruto do bom desempenho da sua empresa, a qual emprega um total de 27 pessoas, entre funcionários especializados, comerciais, administrativos, estafetas, entre outros, é um enriquecimento ilicito??? Este patrão explora e apropria-se da riqueza criada pelo seus funcionários????

          Suponha-se que empresa não teria sido criada e a dita designer mantinha-se a trabalhar em nome individual. As 2 administrativas que contrata hoje teriam criado riqueza para elas próprias onde? Estariam hoje a fazer o quê? Se fossem antes administrativas de uma qualquer repartição do Estado era bom? Era melhor ou pior?

          E se a visão for a que suponho, pergunto, como se sentem em compactuar com tudo isto? É que desafio qualquer pessoa a viver um dia, uma semana, um mês, sem ela própria exercer acções de “patrão” sobre alguém (directa ou indirectamente). Conseguem ir comer a um restaurante, servindo-se da “exploração do trabalho” do empregado de mesa, em beneficio do “enriquecimento” do seu patrão??? E quem diz restaurante diz tudo o resto… Quantas pessoas são “exploradas” desde o corte, transporte, transformação da madeira em papel, até ao trabalho jornalistico, gráfico, editoria do jornal, até à expedição e comerialização do mesmo??? Como libertar todas estas pessoas desta “exploração”????

          Gostaria sinceramente de ter alguma luz sobre este assunto, de preferencia com base no mundo real e não no mundo do faz-de-conta…

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            A resposta é simples: só as cooperativas impedem a exploração do homem pelo homem sem pôr em causa a legitimidade dos lucros obtidos. Sempre que há patrões e trabalhadores há exploração e abuso das mais valias criadas pelos trabalhadores.

          • M.D. diz:

            E o caro Nuno vive a sua vida em cooperativa? Ou vai dizer que bem queria, mas que a sociedade não deixa…? A falta que faz a história da formiga e da cigarra…

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        O conceito de luta de classes fazia sentido no século XIX e em grande parte do século XX. E o conceito de luta como mecanismo de explicação do que se passa na nossa sociedade continua válido. Só que já não é uma luta entre “burgueses” e “proletários”, ou de “capitalistas” contra “trabalhadores”, mas de detentores dos meios de produção contra todos os outros. Por outras palavras, é uma luta entre o poder económico-financeiro e o poder cidadão. A análise marxista não tem de ser completamente afastada, mas terá de ser ajustada a uma cidadania heterogénea que já não é uma “classe” no sentido marxista do termo. Mas o objectivo continua a ser o mesmo: a destruição do capitalismo e da posse capitalista dos meios de produção.

      • João. diz:

        MD,

        Não julgo que um comunista, por o ser, está sempre certo e seguro sobre o que fazer e o que pensar, no entanto a sua proposta, a sua visão, meu ver, peca por querer ser novidade, uma espécie de revelação, quando é precisamente o discurso dominante há já bastante tempo.

        “Leiam o mundo actual como ele é.” , diz o MD. Pois bem, como é que ele é, então?

        E depois não percebo como, se a referência é esse tal de mundo como ele é, a política tem algum lugar. No entanto, se entendo o que você quer dizer com o “as coisas tais como são” – e que é a redução da possibilidade à enciclopédia do centrão – parece-me suficiente, no caso português o PS, e o PSD/CDS. Não sei porque razão os comunistas deveriam aceitar os termos do centrão? A meu ver isso seria a morte da política. Sem a ideia comunista não há política, há apenas administração de assuntos correntes e destribuição de boys pelos aparelhos de estado.

        • João. diz:

          leia-se “distribuição” em vez de “destribuição”.

          Obrigado e desculpem.

        • M.D. diz:

          “Leiam o mundo actual como ele é.” , diz o MD. Pois bem, como é que ele é, então?

          Portugal é hoje bem diferente do que era antigamente. A persistência em manter-se uma luta de classes entre patrões e trabalhadores é do mais redutor e anti-realista possivel, e ajuda apenas a descredibilizar eventuais boas ideias do quadrante comunista. Como se uma empresa/fábrica aparecesse montada, a laborar, a expedir, e a vender a uma carteira de clientes, adaptando-se à concorrência, com o toque de uma verinha mágica. Tudo era lindo, e ninguém mandava em ninguém. Não havia exploração do homem pelo homem e todos os lucros (imagino os lucros que haveria numa situação destas) eram distribuidos entre todos os trabalhadores. Quando havia decisões a tomar sobre o futuro da fábrica, a actualização de preços, criação de novos produtos, contratações, reinvestimentos, etc, as decisões tomavam-se em plenário e chegava-se a um concenso. Tudo corria bem. Depois apareceu o Patrão, escravizou todos os trabalhadores e roubou-lhes o fruto do seu trabalho.

          Enquanto continuarem a vender esta estória muito poucos vos levaram a sério, para além da turba dos fans do costume. É o que acontece quando a ideologia se sobrepoe às pessoas.

          • João. diz:

            Bom, você constroi uma história para se ajustar ao seu ponto de vista. Se você ler o programa do PCP verá que as linhas de acção que lá são apresentadas partem de pressupostos bem diferentes daqueles de que parte o MD.

      • Francisco d'Oliveira Raposo diz:

        Caro M.D.
        Li e reli o meu post para perceber o meu “pecado de dogmatismo” e, se necessário, fazer a mea culpa. Tentei chegar à revolução industrial mas desculpe só nasci em 1959, a coisa estava feita e a andar. Foi dos anos 60 em Portugal que falei, com a base empírica da minha experiência pessoal. Creio que o entendeu, não?
        Achei piada ao jogo condescende da aproximação ou meu eu:
        “Até andou perto quando referiu que no “antigamente” o filho de um operário tinha como espectativa ser operário. Hoje o filho de um operário pode não viver com certeza nas torres da expo, mas tem de certeza telemóvel.”
        Ena, será que está a falar na revolução tecnológica e científica que temos vindo a viver nos últimos 150, com saltos tão significativos como os dos anos 70/80 nas tecnologias de informação?
        Imagine o meu avô, operário marceneiro nos finais dos século xix, que até conseguiu comprar uma “cebola” (relógio de bolos) a qual guardo religiosamente. O meu pai, operário ferroviário, deixou-me também um Ómega. Aos meus filhos deixarei o que? Um smartphone, um chip?
        Pois é o mundo mudou. Temos de deixar cair os dogmas e actualizarmo-nos.
        Mas, magnanimamente, qual vanguarda esclarecida, dá-me um conselho:
        “Vejam o Estado como um mal menor que serve para servir o Homem e não o inverso.”
        Engraçado, e mesmo por isso que me bato. Posso, modestamente, solicitar-lhe que abra os olhos?
        O Estado de que fala não existe no abstracto. Ele é produto, como tudo o mais, fruto de relações sociais concretas e tem funções evidentes e aparentes, mais ou menos claras algumas, apenas evidentes outras em tempos de crise.
        E aqui entra o busílis da questão: este Estado é, em ultima análise, a estrutura adequada para a salvaguarda do domínio social de uma classe sobre as outras, de um punhado de indivíduos, sobre a maioria, do domínio (e aqui actualizei-me amigo M.D. ) do 1% sobre os 99%.
        A coisa é aparentemente diferente?
        Ainda andam no imaginário popular os Vanderbilt, os Rotschilds, grandes magnatas do final do séc. XIX, começos do séc. XX. E de Henry Ford, ou Rockfeller,, durante o Séc XX, ou de Bill Gates, mais recentemente.
        Por cá um interessante trabalho sobre “Os Donos de Portugal” fazem o retracto das famílias que dominam o País desde meados do séc. XIX , Espírito Santo, Champalimou, etc. e tal

        Uma visualização do documentário citado mostra – ou pelo menos dá pistas que o Estado não é a visão idealizada de que os Estado serve o Homem. Na verdade se calhar até tem razão mas na versão mais owerliana da coisa, ou seja o Estado serve o Homem, mas neste caso Homem que é mais homem que os outros. E aqui o distingue a coisa é o poder económico que acumulou.

        Quanto aos mecanismos democráticos e à justiça, que refere como, suponho, reguladores das relações os frequentes eventos mostram o carácter parcial na aplicação da lei, consoante o poder económico e politico dos arguidos a julgamento: prisão para o pequeno ladrão que rouba no Continente valores de meia dúzia de euros, prescrição dos crimes julgados mas não transitados do Isaltino Morais, isto apenas como analogia.
        Não, amigo M.D. apesar dos avanços sociais evidentes – e deixe dizer que muitos dos avanços civilizacionais que temos como brilhantes avanços no séc XX – segurança social, contratação colectiva, sistemas públicos de saúde e educação, protecção à maternidade, entre muitos outros – foram iniciados por um Estado que durante alguns anos, cumpriu aquilo que pretende do Estado: serviu o Homem e não o lucro. Num país economicamente atrasados, dilacerado pela I Guerra Mundial, quase imediatamente invadido pelas potências que meses antes mandavam para a matança milhões de operários e camponeses – desculpe não conseguir actualizar a coisa -, dizia eu, apesar dos avanços evidentes os detentores do poder estão a reverter as sociedades para valores do séc XIX.
        Em 2009 o equivalente britânico do nosso INE dava conta que os indicadores sociais na Grã-Bretanha de 2006 aproximavam-se perigosamente dos indicadores de 1895!
        A concentração de riqueza continua a acelerar apesar da pobreza alastrar por todo o mundo, mesmo nos países avançados.
        Que as relações sociais não se desenvolvem nas mesmas e exactas linhas do S´c XIX. É uma verdade de La Palisse, caro M.D:
        Mas que é a tensão entre o Capital e o Trabalho, aqui , na China nos EUA e por todo o lado que cresce a olhos visto, bem só não vê quem não quer.
        Na sequencia de respostas que acrescentou avançou com algumas ideias que manifestamente ou não as pensou bem ou são contraditórias entre si.
        Por exemplo, diz em tom jocoso, na resposta ao posto de João:
        “. …como se uma empresa/fábrica aparecesse montada, a laborar, a expedir, e a vender a uma carteira de clientes, adaptando-se à concorrência, com o toque de uma varinha mágica. Tudo era lindo, e ninguém mandava em ninguém. Não havia exploração do homem pelo homem e todos os lucros (imagino os lucros que haveria numa situação destas) eram distribuidos entre todos os trabalhadores. Quando havia decisões a tomar sobre o futuro da fábrica, a actualização de preços, criação de novos produtos, contratações, reinvestimentos, etc, as decisões tomavam-se em plenário e chegava-se a um concenso.”
        Parte portanto, do pressuposto que a actividade económica só pode decorrer através da concorrência. E é aqui que a coisa se começa a clarificar. Há quem pense que , em vez da actividade económica se centrasse na obtenção do lucro privado, se centrasse nas necessidades concretas das populações, o modelo acima descrito, – em tom jocoso – aliado às capacidades tecnológicas de planificação e à participação democrática dos indivíduos, poderia ser eficaz.
        Note-se que, tendo como objectivo o lucro – a planificação económica é central na gestão das multinacionais.
        Mas deixe-me ainda dizer-lhe que não creio que “se uma empresa/fábrica aparecesse montada, a laborar, a expedir, e a vender (…)com o toque de uma varinha mágica.” Aliás, neste momento da crise capitalista é publico e notório que não a tendência é deixar de haver produção.
        Apenas me parece que não é implícito que tenha de haver um patrão para que bens socialmente úteis possam ser produzidos e distribuídos.

        Que o mundo mudou? Ninguém o pode negar. A questão não é se mudou, a questão é se mudou assim tanto. Ao que parece cada vez mais entendem que o “fim da luta de classes” anunciado com pompa e circunstância nos anos 80 afinal revelou-se um enorme exagero. Trágico mas exagerado.

        Finalmente, não creio que o capital nasça das árvores, como é obvio. É criado pelo produto do trabalho. A questão está em saber se é legitimo a apropriação privada dos meios de produção.

        Descarto, como figura de expressão o termo hipócrita.
        O mundo mudou e está a mudar. Sem dogmatismos e actualizando-me, concluo que a mudança acelerada da riqueza colectiva para um circulo cada vez mais restrito de pessoas é um facto indesmentível. Poderia dar-lhe uma bateria de daos, mas fica aqui só este :

        O PIB (produto Interno Bruto) brasileiro cresceu 2,7% no ano passado e passou a ostentar o status de sexta maior economia do mundo, desbancando, inclusive, a Grã -Bretanha. Somou R$ 4,143 trilhões. O valor de toda a riqueza gerada no Brasil em 2011 pode parecer alto, mas não é. Se equivale à fortuna das 230 pessoas mais ricas do mundo. Somos 99,5 milhões de brasileiros economicamente ativos.
        Essa pequena amostra da desigualdade social revela o lado mais perverso da distribuição de renda. Mas nós brasileiros vivemos um momento economicamente favorável, ao contrário do que muitos países ao redor do mundo. Entretanto, a alta de 2,7% no PIB de 2011 foi 0,3% mais fraca desde 2009, o ano da crise global, e bem aquém do desempenho de 2010, quando o produto interno bruto registrou crescimento de 7,5%.

        Não lhe quer chamar classes?
        Está bem… mas as classes são como as as bruxas, não acredito nelas mas que as há, há.

  4. xatoo diz:

    “deitar a moral abaixo das pessoas”
    que belo “argumento” para quem se levantou toda ouriçada num debate com uma boca p`ra mandar calar o Arnaldo Matos…
    http://xatoo.blogspot.pt/2012/07/arnaldo-matos-afinal-estamos-pagar-o.html

  5. Dédé diz:

    “quem não foi à manifestação fê-lo porque o sectarismo de construir o «seu partido» é mais forte do que a luta contra o desemprego.”

    Do que eu me safei! Felizmente até fui um dos 300, senão era mais um dos para cima de dez milhões de sectários cá da terrinha.

  6. Miguel Botelho diz:

    Na verdade, quem se ri e goza deste «meu, meu, meu…» são os capitalistas e aqueles que nos governam. Quanto mais divididos estamos na luta, melhor para os patrões e para aqueles que lhes engraxam os sapatos, dia após dia.
    Talvez, não seja má ideia e tentar voltar ao início desta questão: Votar ou Não Votar?
    Quer queiramos ou não, estamos inseridos no processo democrático e todas estas coisas chocam connosco: as taxas, as medidas políticas, a opressão do governo, as mentiras… Estamos metidos no processo democrático e, por isso, o maior erro é não querer saber do processo para nada e arranjar desculpas, como “votar em branco” ou “não votar”… ou simplesmente dizer “não contem com o meu voto”… até mesmo essa pequena desculpa do partido dos animais (como exemplo, «estou zangado com todos e, por isso, vou abrir um partido para os defensores dos animais, porque é mais bonito e gosto muito»).
    Na verdade, só o voto decide e foi com muita pena que vimos muitos destes desempregados nas últimas presidenciais e legislativas desligarem-se do processo democrático.

  7. JÊPÊ diz:

    Um dia lutei. Sem medos!
    Ia às manifestações com o meu patrão, não me comprometia e defendia as pedras contra canos de espingarda. No local de trabalho fazia as 12 horas da praxe porque assim, a exploração que eu evitava reconhecer, me obrigava. O meu patrão era reconhecido como grande homem da arte, o meu colega masturbava-se com o magro salário enquanto ouvia dizer “que espectáculo bom”, e eu repeti até à exaustão que isso da luta de classes era uma ideia antiquada. Depois veio o 1º salário em atraso, e a mim diziam-me que o amor à Arte era importante. O meu patrão, desculpem, o artista vinha de Audi, estacionava, pelo amor à arte, ia de férias, e o meu salário entrou num buraco negro. Eu repeti até à exaustão que isso da Luta de classe não existia. Depois veio o amor à arte, eu era artista, podia trabalhar sem receber, e a luta de classes, juro, não existia. O meu patrão fez mais uma novela, e amanhã sai para férias, e eu que morra aqui se a luta de classes existe. O meu salário não veio, pelo segundo mês, mas veio a estreia e quase um mês de espectáculos. Mas a luta de classes não existe mesmo? Vou procurar, e assim passa mais um mês e eu sem receber, parece que existem pelo menos classes, a classe do meu patrão, que não é artista, é patrão, e a minha classe, que não é artista, é trabalhador. Afinal existem classes, a classe de quem detém as ferramentas de trabalho e o lucro, e a classe de quem é a mão de obra. Afinal existem classes, e eu nem vi este tempo todo enquanto o meu quarto mês de salário vai para a inspecção do audi do patrão. Parece que afinal há classes, e eu sou da classe explorada. Mas o que é isto da Luta de classes. Então eu vi, outros que lutavam, que reivindicavam, que exigiam para si o que a outra classe guardava. Aqueles 4 salários eram meus, e se eu tenho direito a eles. Ao 5º mês havia reposição, e eu, que ia a manifestações de cara tapada, que vivia preso na palavra indignado com medo de ser um trabalhador livre, sindicalizei-me, no dia da estreia da reposição não abriram as portas nem levantaram os panos. Eu fiquei à porta, em greve, assumindo na frente do meu patrão a luta de classes. “Esta quinta-feira, por motivos técnicos, o espectáculo não se realiza”, nem na sexta, no sábado os meus colegas faltaram também. Na segunda-feira o artista, perdão, patrão, ligou-me, queria conversar. Exigi-lhe tudo o que tinha direito, os meus salários e o meu contrato de trabalho, opus-me enquanto digno membro da classe trabalhadora ao excelente patrão dito de esquerda artística da classe capitalista, lutei. Tive o meu contrato, as minhas horas extras e o meu salário. Cresci 5 palmos acima da cabeça porque nunca mais curvei a coluna à frente do meu patrão.

    • M.D. diz:

      Bravo. Ai está um bom exemplo. Parece que afinal não há papões. Tivesse tomado no 1º mês a actitude que tomou no 5º, e teria o seu problema resolvido mais cedo. Isso sim é lutar pelo que é seu, o fruto do seu trabalho.

      Uma retribuição honesta, por um dia de trabalho honesto, já alguém dizia. Contra a ilegalidade, processem-se, julguem-se e condenessem os culpados e trafulhas. Ah, esqueci-me, o Estado não tem tempo para por um sistema judicial a funcionar. Está mais interessado a regular todas as frentes da vida dos cidadão, como o teor de sal que uma padaria mete no pão…

    • notrivia diz:

      Ganda comentário!
      Força aí JÊPÊ!

  8. Rui Manuel Rodrigues diz:

    Os flagelos do desemprego, dos baixos salarios e da precaridade laboral afetam uma ampla heterogeneidade de pessoas, enquadráveis nas classes sociais assalariadas. Não posso falar em nome do MSE, porque não faço parte do mesmo, mas pareceu-me que a sua mensagem era destinada a todas as pessoas cujas vidas alternam entre o emprego precário e o desemprego, independentemente das suas caracteristicas especificas (mulheres, homens, “negros”, “brancos”, “jovens”, “menos jovens”, homossexuais, heterossexuais…etc…). Com toda a consideração pelas feministas e pela pertinência da sua luta, os problemas sociais da mulheres (inclusive o desemprego) são também os problemas dos homens. Nenhum homem é livre enquanto as mulheres não o forem.
    Tenho de felicitar o MSE por essa “visão de conjunto” e inclusiva. Uma tradição que existe na maioria das organizações de ativismo social progressista e de esquerda, bem como nos meios anarquistas e ambientalistas, é a apetência para a preocupação por um grupo especifico e sos seu problemas, ignorando tudo e todos os que estão à volta. Individualismo português, sul-europeu? Talvez, mas não vou desenvolver essas reflexões culturalistas. É importante ocorrer uma mudança em todos estes movimentos, no sentido de ganharem um pouco mais de visão de conjunto, ou seja, de uma reflexão que não incida só sobre os problemas especificos de um individuo ou grupo, mas também se esses problemas também atingem outros grupos de individuos.
    Estive na manifestação do MSE e convidei várias pessoas, tendo distribuido alguns panfletos de convocação. Primeiro, porque sou um DLD (desempregado de longa duração) e segundo, porque estou totalmente de acordo com o propósito da manifestação.
    A luta de classes está longe de ter acabado! Isso é um tabu que os neoliberais, os neoconservadores e outros radicais de direita querem impor, na lógica do seu pensamento único (e totalitário). De um lado as classes assalariadas (ou proletarizadas) e do outro as classes que detêm os modos de produção e os modos de gestão e administração das empresas (os tão designados tecnocratas).

  9. luxemburgo diz:

    Marx não designava os desempregados do seu tempo como “lumpen”?

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