O Super Indivíduo

O Movimento Sem Emprego trouxe algumas novidades aos movimentos sociais, a começar por se dirigir com transparência a todos ao partidos, sindicais e associações que lutam contra o Governo e a Troika – quem não foi à manifestação fê-lo porque o sectarismo de construir o «seu partido» é mais forte do que a luta contra o desemprego.

Mas trouxe outras novidades – as quais, de longe, me tenho apercebido com muita consideração. O MSE traçou uma linha comum entre desempregados, precários e empregados, afirmando o comum entre toda a força de trabalho, ou seja, a gestão de seres humanos como mercadoria, desta forma votados à brutalidade do Capital e prensados entre salários de subsistência e superpopulação relativa, dizia o velho Marx, ou seja um exército de desempregados que mantém o salário dos empregados ao nível da subsistência.

Outra das novidades é a aversão à marginalização e ao espírito de seita: eles não são trabalhadores ou trabalhadoras, homo ou hétero, amigos dos animais ou inimigos, freaks ou betos, são Trabalhadores.

Têm ainda outra originalidade que parece ter passado à margem das organizações feministas – é um movimento de homens e mulheres que tem como duas das principais figuras públicas duas mulheres. Contribui mais para a igualdade de género confundir textos com arrobas, x e outras tatuagens que nos tornem tão especiais, ou ter mulheres a encabeçar um movimento que também é de homens?

É no mínimo estrambólico o fanatismo de um tipo que levou à manifestação um cartaz dizendo os «desempregados são assexuais» ou de um movimento feminista que foi na cauda a gritar contra o desemprego feminino. Não é dividir nem gosto pela marginalidade nem muito menos fanatismo de seita (embora seja um pouco de tudo na sua aparência) mas é acima de tudo, na sua essência, reflexo deste l’air du temps de início do século XXI – narcisismo absoluto, imposição ao coletivo das experiências e opressões individuais, que não são um problema a resolver com a ajuda de todos, são uma imposição totalitária ao todo: o meu umbigo, a minha forma de ser, a minha sexualidade, a minha vontade, o meu problema, a minha tristeza, o meu, o meu, o meu, o meu, o meu, o meu…o meu cordão umbilical que a minha mãe nunca cortou comigo, diria Freud! (lá está a sexualidade de volta).Um individualismo radical que deixaria os mais liberais de la République!, nos idos de 1789, envergonhados.

Ainda bem que no MSE, creio que talvez por ser feito de pessoas com vidas muito difíceis, que estão no limite da sua resistência individual, se tolera este l’air du temps e se perdoa o atraso da consciência, formada pela competição (e o individualismo) capitalista. Bem hajam!

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