“Que venha a brisa lavar-nos a cara”

A contabilidade das manifestações é uma matéria demasiado sujeita a impressionismos de circunstância. Daqui a pouco podemos ser quinhentos como podemos ser cinco mil que o balanço mais importante das Manifestações Pelo Direito ao Trabalho já pode ser feito. Independentemente da maior ou menor amplitude deste protesto, estão lançadas as bases de um movimento do qual não nos podíamos dar ao luxo de continuar a prescindir.

Durante várias semanas, dezenas de desempregados souberam organizar-se para levar para as ruas as primeiras manifestações que pretendem resgatar para a agenda política a urgência do pleno emprego e lançar o debate sobre a necessidade de redistribuir os afazeres sociais de forma mais justa, universalizando em paralelo o direito ao trabalho e o dever da preguiça. Um milhão e trezentos mil desempregados tornaram-se o mel e o fel deste regime. Se por um lado o seu aumento garante a moeda de troca que o governo usa para empenhar na boda da troika, por outro são um exército de reserva que não tendo nada a perder, está disposto levar a luta até às últimas consequências.

A esquerda que insista em manter-se à margem e a direita que persista em continuar no caminho que se cuidem. O grito de revolta de hoje é apenas o principio.

Seremos alguém!”

Comunicado de Imprensa do MSE:

No dia 30 de Junho de 2012, o Movimento Sem Emprego chama a primeira manifestação de desempregados em Portugal.

Já não era sem tempo. Estamos pelos cabelos. Fartos de sermos tomados por preguiçosos que só não são ricos e perfumados como os nossos governantes porque lhes falta espírito empreendedor. Que se ao menos nos levantássemos do sofá e fossemos vender pastéis de nata, o futuro de Portugal estava assegurado.

Isto são mentiras. Mentiras comprovadas pelo valor real de 1 milhão e 300.000 desempregados, com 800 novos a surgir todos os dias. Mentiras comprovadas por centros de emprego que todos os dias se enchem – não para oferecer empregos, mas para tratar os desempregados como criminosos que precisam de ser controlados.

Mentiras de bancos que engoliram e continuam a engolir milhares de milhões dos nossos impostos mas que depois não se dignam a dar crédito às empresas nem pensam duas vezes antes de meter famílias no olho da rua porque não há trabalho com que pagar o empréstimo imobiliário. Mentiras de governantes que endividaram os trabalhadores, os seus filhos e os seus netos para construírem estradas que ninguém usa para poderem passear por Paris e Bruxelas, de bolsos cheios.

Com números destes, o que quer que saia da boca de Passos Coelho, Vítor Gaspar ou do Ministro do Coiso sobre o desemprego, não tem outro nome senão histórias da carochinha. Este desemprego não é um acidente nem é culpa dos portugueses. É uma política. É a política de quem serve os bancos, de quem beija a mão das grandes fortunas, de quem faz vénias aos desmandos das Merkels deste mundo.

Porque ama esta gente o desemprego?

Porque o desemprego é a ferramenta que o sistema neoliberal usa para destruir o emprego com direitos e salários dignos. São a ameaça que pesa sobre a cabeça daqueles que ainda têm um emprego, para os obrigar a aceitar mais um corte, mais uma hora de trabalho, mais uma indignidade, mais um abuso de poder.

E nisto tudo os portugueses aprenderam a sofrer em silêncio. Sofreram a injustiça, sofreram as mentiras, sofreram o medo do amanhã sem saber como dar de comer aos filhos e a quem amam. Sofreram uma vida de pesadas responsabilidades e magros direitos – e agora até esses poucos nos querem arrancar – “Apesar de tudo o que trabalhas e sofres por este país, se adoeceres não trataremos de ti. Se envelheceres, morrerás à fome. Se tiveres filhos, não os poderás visitar quando tiveres saudades porque eles terão partido para uma terra distante”.

E neste sofrimento, os portugueses ganharam uma força que desconhecem. Enquanto governantes e gananciosos se engordaram à nossa conta, nós aprendemos a fazer o impossível com uma mão cheia de coisa nenhuma. E este sofrimento que carregamos ao peito, está na hora de sair como um grito que diz BASTA! Um grito que diz que somos muitos, que não temos medo porque já não temos nada a perder, que somos um milhão e 300.000 com o apoio de muitos mais. Um grito de promessa aos governos do desemprego: vão arrepender-se do dia em que fizeram do emprego, exploração.

Unidos pelo Direito ao Trabalho e à Dignidade!

 

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11 respostas a “Que venha a brisa lavar-nos a cara”

  1. Graza diz:

    Parabéns Renato pela tua tenacidade. Independentemente da não coincidência total de pontos de vista político contigo, estou absolutamente seguro que este país seria outro se mais jovens tivessem a tua força anímica e persistência na procura de soluções. Seja qual for o resultado de mais logo foi já um êxito o Movimento de que foste um dos principais animadores. Movimentei-me também como resposta a uma dinâmica que não podia deixar de a ter, porque não queria ver desperdiçado o esforço de gente que estava a tentar “fazer” e recusa a deixar-se anestesiar. Ganharam os Sem Emprego já, pela visibilidade que acabaram por conseguir. Agora mesmo tenho estado a ver e a ouvir as notícias na TV que anunciam a manifestação de mais logo. Parabéns a todos.

  2. xatoo diz:

    Bonita ilustração do cartaz, com uma sugestiva imagem da classe operária.
    Fica como um bom testemunho, numa época em que tanta gente insiste em negar que continue a existir “classe operária”, isto é, a classe de produtores que se opõe e deverá governar contra todos aqueles que nada produzem mas se apropriam indevidamente do que é produzido
    Até já!

  3. ricardosantos diz:

    Com o control do pcp não vão a lado nenhum mas tambem é isso que o pcp quer.

  4. José diogo diz:

    Toda a minha solidariedade!

  5. JgMenos diz:

    “Este desemprego não é um acidente …”.
    Ora aí está uma grande verdade! o bem estar de que se usufruia, e que mantinha tantos empregos, era financiado com dívida.
    “…nem é culpa dos portugueses.”
    Ora aí está uma grande mentira! Os políticos e os banqueiros ganharam votos e chorudas gratificações na presunção de que alguém haveria de ‘pagar o pato’! E a toda a acomodação do povo à crise não é mais do que o reconhecimento de que todos consentiram no que era, a toda a evidência, uma grande burla!
    E vamos continuar na merda enquanto não acabarmos com as regalias desse povão dos ‘bens não transaccionáveis’ que continuam a mamar à custa dos poucos que ainda têm empregos que efectivamente criam valor para o país.

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  7. licas diz:

    Lavrov, falando pela URSS, perdão, Rússia, em Genebra (Suiça), em Conferência Internacional, afirma que NENHUM DIRIGENTE actual da Síria, deverá ser excluído de candidatar-se . . .
    FOI COMO CÁ em 1976, M. Caetano, também não foi impedido, pois não?
    ATENÇÃO, CUIDADINHO : a minha posição sobre o estado novo está aqui profusamente documentada: Para que os cães não continuem a ladrar.

    • De diz:

      Mas porque será que “licas” continua a carpir as suas mágoas em estilo canino?

      • Caxineiro diz:

        Quando sentem a necessidade de repetir constantemente que não são fascistas…
        No discurso, M Caetano transformou Portugal numa democracia “organica” e acabou com a Pide. No dia seguinte o país estava igual
        O licas não é fascista eheheheh.

    • Tótó diz:

      A gente já sabe, licas. Nem precisavas afirmar essa evidencia
      (eu sou o Sto Antonio, ando aqui disfarçado com o nome de criança)

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