A cultura no país do faz-de-conta

Aconselho vivamente a leitura do texto “Um ano depois”, do investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro, publicado no Ipsilon da passada 6ª feira (não consigo encontrar nenhum link na net). É uma bela reflexão sobre a política cultural deste país (ou a falta dela), refém de argumentos meramente negociais e financeiros e desprezando a lógica de diversidade e de serviço público. Enquanto desmistifica a ideia de que os agentes culturais de nicho são uns bandolas que comem os subsídios do do Estado, é um bom manifesto do que é a cultura no país do faz-de-conta, o único da União Europeia em que não existe um ministério a tutelar o sector. Aqui ficam dois excertos:

    (…) passado um ano em que não se quis ter um Ministério da Cultura, ficou-se com uma Secretaria de Estado da dita sem poder para decidir, sem assento no Conselho de Ministros, sem voz, sem representar ninguém e, ademais, apoucando-se por falta de perfil e de projecto e de programa.

    Uma possível desregulação do mercado, caso o Estado não seja garante da sua justiça, conduz inevitavelmente à massificação do gosto, à extinção da diversidade, à desertificação da criação, ou seja, em suma: ao fim do direito de escolher por parte do cidadão (que deve ser sempre, numa política cultural, o principal destinatário dessa política).

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9 respostas a A cultura no país do faz-de-conta

  1. Jorge Feliciano diz:

    É um texto que fica demasiado pela rama, evita as questões essenciais, ou abordando algumas fica-se sempre pela superfície

  2. Silvério Coutinho diz:

    Qual Secretaria de Estado? É que nem isso há!!!Anda tudo distraído.

  3. Como é possível não haver um único comentário sobre este post que enaltece uma das poucas pessoas que tem pensado factual e globalmente a Cultura para este país ?

    • João Torgal diz:

      Vasco Graça Moura diz que “o Estado não está especialmente ao serviço de vanguardas culturais, mas do bem cultural comum.” A questão é que o bem cultural comum envolve diversidade (senão cai-se na falácia do dar ao povo o que ele quer), aquela que o Estado não se preocupa em preservar, tal como é dito por António Pinto Ribeiro.

  4. Vasco Graça Moura quer o Estado a controlar a Cultura !?
    Muito bom poeta, óptimo tradutor, mas… parou no tempo e no modo. E no discurso interventivo nesta “matéria”.
    Ignora o que tem acontecido desde a década de 1980’s, tabela depreciativamente tudo o que não entende, nem quer minimamente aproximar-se do presente.

  5. Jorge Feliciano diz:

    “todos os participantes sabem que muito haverá que mudar no que diz respeito ás formas tradicionais de financiamento de alguns sectores da cultura e muito em especial nas artes”

    Esta frase revela bem o caminho de cedência de António Pinto Ribeiro à ideia privatizadora (pela via mecenática) das políticas para as artes e para a cultura.

    Até Vasco Graça Moura percebeu o sinal, e fez um convite velado ao diálogo sobre essas tais novas (de facto bem velhas) formas de financiamento do sector.

    O que está implícito no discurso de ambos é a acabar (ou reduzir ao mínimo dos mínimos) com a “tradicional” responsabilidade nesta área, como efectivo garante da democracia cultural.

    • Jorge Feliciano diz:

      *emenda

      no último parágrafo deve ler-se

      -O que está implícito no discurso de ambos é a acabar (ou reduzir ao mínimo dos mínimos) com a “tradicional” responsabilidade do Estado nesta área, como efectivo garante da democracia cultural.-

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