Golpada no Paraguai

No passado dia 15 de junho, em Curuguaty (Canindeyú), no Paraguai, forças policiais investiu sobre camponeses que ocupavam uma herdade de cerca de 2.000 hectares, propriedade do empresário e ex-senador Blas Riquelme (ver vídeo do início do confronto). Riquelme teria-se-ia apoderado ilegalmente dessas terras durante a ditadura Stroessner-Partido Colorado (do qual Riquelme era membro). Do confronto resultaram 18 mortos, incluindo forças policiais e 10  camponeses sem-terra. O Presidente Lugo, nesse mesmo dia, declarou pesar pelas vítimas, mas colocou-se do lado das forças de segurança e da preservação da ordem (video).

O evento foi rapidamente utilizado como pretexto pelas forças de direita no Paraguai para iniciar um recuo dos processos de transformação social iniciados em 2008. Na passada 6a feira, dia 22, num processo relâmpago iniciado no dia anterior, o Senado – dominado por partidos de direita, incluindo o partido do ex-vice presidente, o Partido Liberal Autêntico – votou o impeachment do Presidente Lugo, com 39 votos a favor e 4 contra (e 2 abstenções), pelo seu “mau desempenho de suas funções”, dando menos de 24 horas para que Lugo preparasse a sua defensa. A notícia do impeachment foi recebida sob protesto por manifestantes que ocupavam a praça em frente ao Congresso e que consideraram que houve, na verdade, um golpe contra o presidente. Entretanto, surgem fortes evidência que as mortes em Curuguaty foram causadas pela infiltração de provocadores entre os camponeses.

Lugo foi eleito em 2008, encabeçando a coligação Alianza Patriótica por el Cambio, que integrava mais de uma dezena de partidos, numa frente unida contra o Partido Colorado, que durante 6 décadas foi a força hegemónica no Paraguai. A presidência de Lugo foi acompanhada de um governo de coligação com grandes contradições internas, criando um delicado balanço político.

Segundo o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Lugo está a ser vítima “de sua própria conciliação e vacilação em impulsionar o processo de mudanças com o respaldo do movimento de massas”. O Partido Comunista do Paraguai, condenando o massacre de Curuguaty, apelou à destituição imediata de Rubén Candia Amarilla do Ministério do Interior, conhecido criminalizador da luta social desde os tempos em que formava parte do Grupo de Acción Anticomunista (GAA) durante a ditadura stronista.

Não deixando de atribuir responsabilidade a Lugo pelos eventos em Curuguaty, a sua deposição de forma tão célere deve no mínimo levantar suspeitas. Afinal, os principais beneficiários do impeachment não são os camponeses, mas sim as forças mais reacionários e pró-imperialistas da burguesia Paraguaia.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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