Vitória alemã nas eleições gregas

Ao longo do período eleitoral não escondi a minha simpatia pelo Partido Comunista da Grécia (KKE). Contudo, ao contrário do que diz o Carlos Vidal, nunca escolhi o Syriza como principal adversário. Falei muitas vezes do Syriza porque a chantagem a que foi submetido o KKE foi brutal. Ou ganha o Syriza ou ganha a direita, era o que se dizia, sem se compreender que cada partido grego tem um programa próprio e o direito de concorrer sozinho a eleições. Apesar de não ser porta-voz do PCP e das opiniões que publico serem da minha exclusiva responsabilidade, como também alguns aqui tentam pôr em dúvida, concordo com o comunicado deste partido que revela que foi um acto eleitoral “marcado pela descarada ingerência nos assuntos internos da Grécia e por enormes pressões bipolarizadoras”.

Os resultados não foram nada animadores. E quando publiquei a primeira opinião ainda não estavam escrutinados mais do que 15 por cento dos votos. Não tinha mais do que as sondagens à boca das urnas. No KKE, a perda de votos e deputados é ainda maior do que se pensava. Como referia a secretária-geral comunista, fica confirmado, como havia dito antes, que a batalha eleitoral foi a mais dura e complexa dos últimos 40 anos. A vitória da direita e a possibilidade de um governo maioritário apoiado na Nova Democracia, Partido Socialista e outros dois partidos dissidentes destes primeiros configura a continuação do caminho de desastre para o povo e os trabalhadores gregos. O KKE é o mais afectado pelo voto útil embora, na minha opinião, a grande derrota seja do PASOK que mantém a perda de quase 20 por cento do seu eleitorado. O Syriza sobe espectacularmente e, infelizmente, não tem a possibilidade de me mostrar que estou enganado e de que é possível derrotar, através da via eleitoral, o capitalismo e ao mesmo tempo defender a União Europeia e o euro.

Embora tentem esconder, a histeria do  Bloco de Esquerda a propósito do Syriza atingiu limites anedóticos. Hoje, aparecia no Diário de Notícias, numa legenda a uma foto de Francisco Louçã, que o BE é líder da oposição na Grécia. Alguém explique ao jornalista e ao líder do BE que Portugal não é a Grécia, o BE não é o Syriza e o PCP não é o KKE. E que apesar da estrondosa derrota do KKE ter comparação, apesar de razões distintas, com a derrota igualmente estrondosa do BE, os comunistas gregos têm grande expressão de massas e enorme influência no movimento sindical. É que a mais trágica das derrotas dá-se quando nada mais se tem que a presença institucional e se acha que esse é o caminho que determina tudo.

Adenda: Comunicado do KKE sobre as eleições parlamentares.

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