Eleições também no Egipto

Este fim de semana, enquanto os olhos da Europa estavam virados para a Grécia e França, decorreu a segunda volta das eleições presidenciais no Egipto, durante os dias 16 e 17. Em jogo estão as candidaturas de Mohammed Mursi, da Irmandade Islâmica, e Ahmed Shafiq, ex-primeiro ministro de Hosni Mubarak, deposto em Fevereiro do ano passado e que ouviu a sua sentença no passado 2 de Junho: condenado a pena perpétua por ter permitindo a violência militar contra manifestantes durante os protestos de 2011 (foi ilibado, porém, das acusações de corrupção e fraude económica, o que levou a protestos massivos na praça Tahrir).

Praça Tahir, em Cairo, após o anúncio do veredicto de Hosni Mubarak

Hoje de manhã, a Irmandade Islâmica alegava que o seu candidato, Mursi, havia vencido as eleições, referindo resultados preliminares que indicavam quase 13 milhões de votos a favor de Mursi e quase 12 milhões a favor de Shafiq. (Ao todo, cerca de 25 milhões de votos, cerca de metade dos eleitores registados no Egipto. Os retornos após o primeiro dia indicavam uma participação de apenas 15% do eleitorado.)

As eleições foram precedidas por eventos de elevado significado político. No passado dia 13, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) impôs lei marcial, dando aos militares a autoridade de prenderem civis e julgá-los em tribunais militares; medida que continuará em efeito até à nova constituição. No dia seguinte, o Supremo Tribunal Constitucional do Egipto concluiu que todos os artigos regulando a legislação eleitoral que regulou as eleições parlamentares de 2011 eram inválidos. Como consequência, o parlamento Egípcio foi dissolvido e o CSFA assumiu os poderes legislativos e explicou que iria apontar uma assembleia de cem membros para redigir a constituição, que definirá os poderes presidenciais e do parlamento.

Neste clima de clara imposição da vontade das forças militares, muitos Egípcios terão feito boicote às eleições. Segundo Omar Kamel, activista pró-boicote, “as eleições estão a ser conduzidas pelo CSFA que assumiu o poder após o derrube de Mubarak. A base de sustento do CSFA é completamente ilegítimo e isso faz com que todos os mecanismos legais ficcionais postos em prática para justificar a autoridade ilegítima dos generais o sejam também. Dada a escolha entre comer merda ou comer merda, muitos Egípcios decidiram que não têm fome.”[fonte]

Qualquer nova constituição irá necessitar de ser aprovada em referendo, seguindo-se eleições para o parlamento. Segundo o calendário do decreto militar, tal terá lugar aproximadamente nos próximos 5 meses. Mas analistas e activistas Egípcios têm sérias reservas que as forças armadas venham a abdicar do poder com facilidade, dando espaço para uma verdadeira democracia.

 

 

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
Este artigo foi publicado em André Levy, cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.

2 respostas a Eleições também no Egipto

  1. De diz:

    O silêncio que paira sobre o Egipto é de facto atordoador.
    Entretanto sobre este país deixo aqui uma parte de um artigo de Ángeles Maestro:”História recente e perspectivas da estratégia do imperialismo no Médio Oriente”

    As importantes mobilizações populares no Egipto, envolvidas pelos grandes meios de
    comunicação na maré confusa da «primavera árabe», que ocultam sistematicamente a
    crescente agudização da luta de classes num país com um movimento operário combativo e
    organizado, abrem perspectivas de resolução incerta. Se recordarmos que o Egipto ocupa o
    terceiro lugar, depois de Israel e da Colômbia, entre os países do mundo que recebem mais
    ajuda militar dos EUA (até agora recebia 1.300 milhões de dólares anuais, ainda que para 2012 haja uma diminuição de 1.000), podemos avaliar as consequências que podem ter
    acontecimentos como os seguintes:
    1. A passagem em Fevereiro de 2011 de dois barcos iranianos pelo canal do Suez autorizados pelas autoridades egípcias, uma semana depois da queda de Mubarak. Este facto não se verificava desde a revolução iraniana de 1979.
    2. O assalto à Embaixada israelense no Cairo em Setembro de 2011 e a repetida sabotagem ao oleoduto egípcio que alimenta de gás Israel.
    3. A detenção em Fevereiro se 2012 de supostas ONGs, entre elas o Instituto Nacional Democrático (NDI), o Instituto Republicano Internacional (IRI) e a Freedom House, dos EUA, e a Fundação Konrad Adenauer, da Alemanha, num total de 44 membros, 19 deles norte-americanos, acusados de contratar cidadãos egípcios para provocar confrontos religiosos e dirigir a revolução popular egípcia de acordo com os interesses dos EUA e Israel. Segundo a acusação egípcia eram portadores de documentação relativa ao plano «sionistaestadunidense» que prevê a divisão do Egipto em quatro países [49]. Quando se verificaram estes acontecimentos a delegação militar egípcia que se encontrava em Washington a negociar a ajuda militar para este ano, regressou precipitadamente ao país.
    4. Depois dos bombardeamentos israelenses sobre a Faixa de Gaza, o Parlamento egípcio decidiu por unanimidade, no passado dia 14 de Março, declarar Israel inimigo número um, apoiar a resistência palestina «sob todas as suas modalidades», exigir a expulsão do Embaixador israelense, suspender as exportações de gás à entidade sionista e rever a sua posição de não proliferação de armas nucleares, enquanto Israel não assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Esta decisão, apesar de carecer de eficácia prática porque o poder real está exclusivamente na Junta Militar, revela até que ponto se abriu a panela de pressão e as suas imprevisíveis consequências
    Tirado daqui:http://www.odiario.info/b2-img/INTERVENODENGELESalt.pdf

    A intervenção dos generais a pedido de alguma famiglia?

  2. Rocha diz:

    Este texto é esclarecedor mas o título é enganoso. Devias tê-lo intitulado: “Golpe de Estado em marcha também no Egipto”.

    Este “também” seria uma referência à Grécia dos bónus de 50 deputados.

Os comentários estão fechados.