Duas notas sobre a esquerda grega nas eleições de Junho de 2012

Há uma mania persistente de alguns autores e comentadores analisarem a situação política e social apenas a partir das suas convicções. Independentemente das minhas divergências com vários dos seus postulados, Lénine foi um revolucionário bem-sucedido por precisamente ter analisado a realidade a partir dos seus dados concretos e onde a acção política era muito menos marcada pela fraseologia (pretensamente) revolucionária à base de chavões e de declarações puristas de princípios. Não que os princípios fossem abandonados mas a acção política desejada nunca deixou de se balizar pela realidade material concreta.

Posto isto, gostava de abordar alguns dados relevantes das últimas eleições gregas do passado domingo. Vou focar-me apenas na esquerda grega.

1)      Tendo plena consciência que os processos políticos nunca se resolvem por via eleitoral, mesmo assim cabe dizer que se é verdade que a Syriza não venceu as eleições, o seu resultado foi positivo para os trabalhadores europeus e para o futuro da luta na Grécia e para a necessária coordenação internacional das lutas. Se em 2009 este partido não chegava aos 5% dos votos, em Junho de 2012 os resultados são francamente positivos. Com cerca de 27% dos votos e mais de 1,6 milhões de votantes, a Syriza captou a esmagadora maioria do descontentamento popular às medidas de austeridade, contribuindo para o sangramento do KKE e do PASOK. Dentro deste quadro a lúcida defesa da manutenção da Grécia no euro e o centrar da contestação nas medidas de austeridade surtiu efeitos palpáveis e tem o condão de levar amplas massas de trabalhadores a concentrarem a sua luta contra a exploração e a não se desviarem para propósitos nacionalistas. Portanto, esta linha política contra as medidas que promovem o aumento da exploração dos trabalhadores gregos é bem mais saudável para o futuro da luta da classe trabalhadora grega (e da restante UE) do que embarcar no aventureirismo anti-alemão[1].

Em cima: “Eles morreram para que a França viva”.
Em baixo e em destaque: “O Partido Comunista Francês – O Partido dos Fuzilados. O Grande Partido do Renascimento Francês”.
Ou de como foi possível utilizar o heroísmo anti-nazi em prol de um objectivo nacionalista de esquerda. A classe operária como o aríete para a reconstrução nacional francesa do pós-guerra.
O “socialismo” seria doravante uma construção nacional e não mais a transformação das relações de trabalho.

Por outro lado, a Syriza ao rejeitar o nacionalismo mais arreigado nalguma esquerda tem a vantagem de poder ajudar a colocar a luta dos trabalhadores no único plano em que ela deve ocorrer: no plano da exploração e no necessário aprofundamento da solidariedade internacional entre os trabalhadores europeus. Na medida em que eu estou longe de apoiar um partido da mesma maneira que os que aqui critico fazem relativamente a KKE’s e afins, posso perfeitamente afirmar que, apesar de todas as suas insuficiências e defeitos, a verdade é que, neste contexto muito específico, a Syriza faz muito mais pelos trabalhadores ao: 1) rejeitar o isolacionismo nacional(ista); 2) não embarcar no discurso vergonhoso dos “gregos” contra os “alemães”, como se dentro dos gregos os seus capitalistas fossem mais aceitáveis do que os trabalhadores alemães…; 3) centrar a luta política contra as medidas de austeridade. Este centramento funciona duplamente como um objectivo político de luta contra os objectivos das burguesias europeias para elevar a exploração dos trabalhadores, e contra o fosso que tem marcado a concentração dos mecanismos de extracção da mais-valia relativa no centro da zona euro (Alemanha, Holanda, etc.) e os mecanismos de extracção de excedente económico por via da mais-valia absoluta na periferia dessa mesma zona euro (vd. aqui para uma explicação mais ampla deste assunto).

2)      O resultado do KKE é a melhor prova de como o centramento do discurso e da prática políticas em torno de tarefas nacionais e soberanistas[2] nem sequer rende mais o peixe do ponto de vista eleitoral e da ligação às massas perante uma extrema-direita em crescendo. Com o decorrer do processo político grego, o KKE foi dando cada vez mais primazia à luta pela soberania nacional e pela saída unilateral da Grécia do euro, colocando a luta contra o memorando da troika e as medidas de austeridade como pura decorrência da perda de soberania. Esquecer isto só pôde resultar numa transferência de votos de trabalhadores para a Syriza e no fortalecimento (inconsciente mas real) da extrema-direita. Podem os mestres da dialéctica vir com a conversa que o problema do KKE neste acto eleitoral de Junho foi o “voto útil” na Syriza e na campanha mediática anti-comunista. Isso é tudo verdade mas é secundário. Isso nada explica porque, por um lado, foi a Syriza que esteve nas bocas do mundo como perigosos radicais que até quereriam atirar a Grécia para fora da zona euro e, por outro lado, não explica porque 270 mil trabalhadores no espaço de um mês deixaram de votar no KKE e preferiram votar na Syriza ou engrossar a abstenção.


Ministério Georgiano das Obras Públicas, ex-URSS
“Le mort saisit le vif” – “O morto apodera-se do vivo” ou As saudades da ruína como lema do “socialismo” da miséria

O pior de tudo isto é a actuação política do KKE apenas em torno das suas convicções sobre o que a realidade devia ser… Por exemplo, em todos os escritos que pude consultar do KKE no seu site internacional não há uma medida concreta sobre o que esse partido faria se a Grécia saísse do euro. Sobre a forma como a Grécia financiaria a sua economia depauperada, como reconstituiria o seu aparelho produtivo, com que dinheiro compraria maquinaria, combustíveis e alimentos, etc. Claro que os mestres da dialéctica preferem brincar a ver quem é mais revolucionário nas palavras em vez de tentarem responder às questões concretas que se colocam no actual contexto europeu. Salvem-se as convicções numa saída miserabilista do euro, desde que o confronto com a realidade concreta não tenha de ser feita… Pelos vistos, os puristas nacionalistas de esquerda prefeririam viver num mundo onde teriam de pagar 100 mil escudos por dez pães e, esfomeados mas aliviados e sorridentes, pudessem clamar que a pátria estaria salva… O povo e os trabalhadores que dizem defender que aguentassem as agruras. Que maior felicidade poderiam ter por viver num “socialismo”[3] da miséria?



[1] Acho espantoso como há quem à esquerda consiga ler a crise económica do euro e os resultados eleitorais deste domingo a partir de “vitórias alemãs” ou de “derrotas gregas” no lugar do antagonismo de classe. Para quem se diverte a chamar os outros de reformistas e de reformadores do capitalismo, não deixa de ser curioso o facto dessas mesmas pessoas lerem toda a problemática da crise económica do capitalismo a partir de critérios identitários e geopolíticos. Para quem avalia o cenário socioeconómico e político quase sem menção às classes sociais baste-me dizer que coerência não lhes falta…

[2] É inusitado o facto de que as únicas forças políticas gregas com deputados eleitos que defendem uma saída do euro são o KKE e a Aurora Dourada. Para quem passa a vida a desancar a Syriza por ter uma postura reformista, talvez fosse positivo começar-se a interrogar sobre a coincidência de pontos de vista neste plano. Se os Partidos Comunistas em nada têm a ver com o fascismo, a verdade é que o nacionalismo presente nos dois campos opostos auxilia que trabalhadores que inicialmente apoiaram esses partidos possam, mais tarde, ser captados por forças fascistas. O exemplo francês de transferência de milhares e milhares de votantes do PCF para a Frente Nacional de Le Pen é um entre vários possíveis. Da centralidade da nação nas tarefas de vários partidos comunistas europeus foi a extrema-direita buscar parte da sua base eleitoral presente.

[3] Os mestres da dialéctica que apoiam ou que têm amplas responsabilidades em organizações de esquerda são notáveis pelas circunvoluções operadas no plano da luta ideológica. A propósito da Syriza, dizem eles que esta formação política não estava a lutar pela superação do capitalismo. O que eu acho extraordinário é o facto de que para os treinadores de bancada alinhados com o KKE o socialismo é o sinónimo de uma saída nacional do euro, ao mesmo tempo achando que bastaria a nacionalização da banca e de alguns sectores da economia para que uma sociedade pudesse ser classificada de socialista… É mesmo notável como os mestres da dialéctica esquecem o que é a riqueza, como ela é produzida e quem a apropria a partir do momento em que tomam o poder político. Das duas uma, ou o socialismo é o reino da não-economia e os seres humanos passariam a viver do ar, ou estão a recalcar as raízes de uma futura dominação classista por parte de uma novel classe de gestores, aspecto que permeou todas as experiências ditas de construção do socialismo no século XX (URSS, China, Cuba, etc.). Como comunista defendo apenas da Syriza o que ela possa ajudar a impedir o avanço das maiores armas anti-operárias tais como o nacionalismo ou as concepções estatistas e miserabilistas de um putativo socialismo. As organizações são instrumentais para a luta dos trabalhadores rumo a uma sociedade socialista e não o inverso. O compromisso de um comunista não deve(ria) ser com uma dada e eterna formação política, mas com o objectivo da «emancipação dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores».

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