“As Neves de Kilimanjaro” de Robert Guédiguian

Antes de mais, importa referir que As Neves do Kilimanjaro não é um remake francês de um clássico americano dos anos 50, nem tão pouco se passa no monte africano. Na verdade, este delicioso título remete para uma viagem que um casal de meia-idade recebe num aniversário de casamento, mas que nunca chega a concretizar.

Michel e Marie-Claire são idealistas de esquerda, com um passado ligado ao sindicalismo (pelo menos ele) e à defesa convicta de causas. É assim que, quando a fábrica onde Michel trabalha decide dispensar pessoal e são sorteados os infortunados que devem ser despedidos (muito interessante a cena inicial, focada pacientemente nos rostos dos trabalhadores), este sujeita-se ao escrutínio, pese embora a sua imunidade de dirigente sindical. Ao sair o seu nome e abandonar a fábrica, pede a reforma antecipada, com a consciência tranquila de ter agido em nome dos seus princípios. Contudo, tudo será posto em causa quando a família é assaltada por um membro da comunidade (igualmente despedido da fábrica). Quando, por uma feliz coincidência, encontra e denuncia os culpados, a revolta inicial transforma-se na problematização da intervenção social ao longo da vida e, por fim, num improvável altruísmo.

As Neves do Kilimanjaro está carregado de um idealismo utópico, quase em jeito de história de encantar, e conta com uma evolução narrativa naive e, a espaços, muito pouco credível. Mas isso não significa que esteja ao nível daqueles melodramas sensacionalistas “hollywoodescos”. Basta ver a calma como Guédiguian realiza a cena que antecede o assalto para se perceber que, dentro de um certo simplismo de argumento, há preocupação de que, pelo menos, esta seja uma obra iminentemente sóbria.

Não é um grande filme, não é uma reflexão muito complexa e cuidada sobre o sindicalismo, a forma como as nossas atitudes são ou não coerentes com as nossas convicções e a reacção a situações extremas (toca sempre ao de leve em tudo isto) e há pormenores de gosto bem duvidoso (aquela banda-sonora, com Joe Cocker à cabeça…), mas é pelo menos um filme agradável e despretensioso, capaz de nos provocar um genuíno sorriso nos lábios.

6/10

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2 respostas a “As Neves de Kilimanjaro” de Robert Guédiguian

  1. Edgar diz:

    Quantas noites sonhei com a Ava Gardner!

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