Será o Alexis Tsipras assim tão diferente da Ilda Figueiredo?

Comecemos pelas boas notícias. Os destroços do Pasok-PS, das fantasias intermédias e do bloco central subserviente a Berlim, Paris e Bruxelas, saíram derrotados das eleições gregas. Assim, a par da má notícia de não se vislumbrar um governo que expurgue a troika de Atenas, a luta, sem outras ilusões, terá que continuar.

Apesar de cada uma dessas vitórias mas sobretudo por causa dessa derrota, é à esquerda que se deve aproveitar o pouco tempo ganho com mais seis semanas de intifada grega para debelar os desafios que se seguem, necessariamente corrigindo os erros cometidos.

Se o sectarismo do KKE é politicamente errado, tacticamente débil e estrategicamente irresponsável, sobretudo por não equacionar o potencial revolucionário que se abre às massas gregas perante uma vitória (virá mais cedo ou mais tarde) da social-democracia radical, não é menos verdade o progressivo amaciamento do Syriza face à chantagem europeia.

As críticas de alguns camaradas nacionais do KKE permitem deixar em carne viva o que é central neste debate. Pergunto-me, no entanto, se já se terão apercebido que, apesar da justeza das questões que levantam ao Syriza, quase todas necessárias, da nacionalização da banca à ausência de uma alternativa ao Euro e à Europa, passando pelo fato de não se anunciarem perigosos revolucionários, praticamente todas elas se poderiam aplicar ao PCP. Será que negociar direitos é coisa que só se condena para lá de Vilar Formoso?

Não é certo se o Syriza, a expressão mais combativa de todos os partidos da dita nova-esquerda europeia, vai ou não trair as expectativas criadas, pelos outros mas sobretudo pela sua própria trajectória, o que não pode significar menos do que rasgar o acordo com a troika e meter as suas consequências na lapela. O que parece evidente é que sem esse facto a principal liderança do povo grego em protesto não será testada e que nenhuma das outras das alternativas abre possibilidade de mandar a austeridade para o museu de antiguidades.

A extrema-direita, além dos deputados que estão sentados nos lugares da Nova Democracia, demonstrou que há um exército de reserva a querer desenterrar velhos pesadelos, mas ainda assim e face à crispação da sociedade grega, a sua força em nada se compara com a que os, há já vários meses, tomaram as ruas e as rédeas dos processos no terreno.

Em suma, o KKE está mais próximo do PCP do que alguma vez o Syriza estará do BE e o povo grego está refém da capacidade destas duas forças políticas esboçarem um programa de mínimos, com o engenho necessário para entreabrir as portas do futuro.

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23 respostas a Será o Alexis Tsipras assim tão diferente da Ilda Figueiredo?

  1. Rocha diz:

    Além do tiro ao lado que é comparar Ilda Figueiredo com Tsipras, já que a Ilda teve a coragem de defender publicamente a saída do euro (só para nomear um aspecto), há conclusões mais importantes a retirar:

    1 – Estas eleições constituem uma fraude eleitoral e é de um descaramento gritante que a Syriza fique muda e queda perante este facto que não prejudica apenas a Syriza, mas também o KKE e todos os partidos opositores do regime actual e principalmente o povo grego. Aceitar este resultado é uma traição, não se pode tolerar uma oposição ao regime troikista que aceite estes resultados.

    2 – A via “pacífica” (sublinho este entre aspas) para salvar o povo grego está definitivamente morta. As eleições fraudulentas tal como as vimos acontecer em Maio e agora em Junho são inaceitáveis e só resta à resistência ao regime usar todas as outras formas de luta disponíveis, já que a democracia – mesmo na sua versão burguesa limitada ao voto de 4 em 4 anos – está definitivamente morta na Grécia.

  2. Augusto diz:

    Um dos pontos do programa do Syriza , é exactamente MUDAR esta forma de eleição, e acabar com o bonus dos 50 deputados.

    Só que para se ser coerente. ( o que é algo que falta ao comentadores do PCP), o Rocha teria de defender, que nenhum partido de esquerda, deveria participar nas eleições gregas, enquanto o sistema não fosse alterado.

    Mas como é lógico, e essa não é a linha que segue o KKE , por isso está impedido de defender a sua tese , com alguma coerência.

    • Rocha diz:

      A oposição a Salazar e Caetano também participou nas eleições fascistas mesmo sabendo que eram fraudulentas.

      A exigência que aqui faço é não se aceitem os resultados porque estes são uma MENTIRA infame.

  3. Bafo de onça diz:

    O bloco central da roubalheira subiu 10% desde a precedente eleição. O voto do medo funcionou! E os nazis ficaram na mesma. Não vejo como é que se pode considerar que foram derrotados.
    O Syriza fez tudo para ganhar as eleições, baixando muitas bandeiras, e acabou obviamente derrotado, embora, na minha opinião tenha sido o melhor que lhe possa ter acontecido. Um governo de esquerda, na actual situação, é impossível na Grécia e teria sido trucidado pela Merkel e os seus acólitos que adoram fazer exemplos de países que não sejam subservientes. Basta suspender os financiamentos e não seria só isso que seria feito! Quando o povo não tivesse de comer contra quem é que se iria voltar? Resumindo um governo de esquerda não tem qualquer hipótese de resolver os problemas do povo e como diz lucidamente um membro do CC do KKE, pelo contrário, iria piorá-los. Bem sei que estas coisas não se dizem e o KKE pagou o inevitável preço eleitoral pela sua rigidez táctica e por dizer à bruta o que os gregos não querem ouvir! Não há qualquer hipótese de a Grécia recuperar enquanto estiver na zona euro, mas 80% dos gregos querem manter a moeda.
    Custa-me acreditar que o Tsipras não saiba isto mas o eleitoralismo cega! Se tivesse ganho ou teria de sair do euro sem ter qualquer alternativa a que se agarrar, ou iria engolir a revogação do pacto, o que seria o enterro da esquerda na Grécia
    Agora depois das eleições a Merkel vai ter que dar alguns brindes aos conservadores gregos mas a politica vai ser essencialmente a mesma e portanto a situação não vai mudar.
    O futuro é imprevisivel porque não sabemos o que vai acontecer à Espanha e Itália nos próximos meses e como os lideres (?) europeus vão reagir. Mas a manter-se este programa de ajustamento é uma questão de tempo até à Grécia estourar. E quando isso acontecer é preferível que seja com um governo do bloco central da roubalheira. Aí a esquerda tem a obrigação de saber constituir uma alternativa. Para já só pode fazer a mais feroz oposição possível aos proximos capatazes da Merkel

  4. Baresi88 diz:

    Pelo fato e a gravata?

  5. André Silva diz:

    Renato,

    És realmente um provocadorzito. O Rocha já te deu boa resposta.

    Deixa lá o PCP em paz, livra-te dessa fixação…

    • Renato Teixeira diz:

      Já diferenças de monta entre a Ilda e o Tsipras fica para depois, certo?

      • André Silva diz:

        Certo. Acho que já te deram boa ensaboadela. Parto do princípio que não estejas a pensar que a Ilda, quando se refere à Europa, não se refere à UE, pois isso seria demasiado ridículo, mesmo para ti.

        Infelizmente, pelo rumo que está a levar a Syriza, já estou a ver renatos indignadíssimo pelo rumo que levou a social-democracia… e jurará para todo o sempre não voltar a ser ingénuo! 🙂

        • Renato Teixeira diz:

          A incapacidade de distinguir as direcções da base não é um problema de hoje não é André Silva?

          Relativamente à saída do Euro e da UE continuo à espera de ver as resoluções políticas do PCP a defender o contrário do que defende o Syriza…

          • Vasco diz:

            Essa das direcções e da base é mesmo trotsquista: um gajo é bom até ser eleito para qualquer coisa. No PCP, meu caro, uns e outros são O PARTIDO!

      • André Silva diz:

        O PCP sempre foi muito claro: a UE é irreformável. E nunca, em nenhum momento, foi a favor do Euro! Admite, sim, que a sua saída tem de ser negociada, defendendo os interesses do povo português.

  6. Repetindo pela 3ª vez o que já escrevi noutrs caixas de comentários,
    Uma coisa é a justeza, ou não, da linha política de um partido revolucionário que defende a transformação da sociedade capitalista.
    Outra bem diferente é a expressão eleitoral dessas propostas políticas, económicas, sociais e culturais.
    Um Partido pode ter propostas políticas coerentes e correctas e não obter expressão eleitoral.
    Ou seja, não ser capaz de fazer passar a «mensagem». Por erros próprios. Mas, no fundamental porque, em TODOS os países capitalistas, quem detém o poder económico, detém igualmente o poder político. E comanda e dirige o aparelho ideológico.
    É sintomático que, em Portugal, Vital Moreira, e Zita Seabra, e…, tenham vindo a terreiro com os argumentos falaciosos que vieram logo à 1ª quebra eleitoral do PCP (1987)…

    • JgMenos diz:

      “…não ser capaz de fazer passar a «mensagem».”
      A Igreja Católica e o seu Evangelho não diz diferentemente – para que nada mude!

  7. JgMenos diz:

    “…uma vitória (virá mais cedo ou mais tarde) da social-democracia radical”.
    Agradece-se uma definição.
    É algo assim, entre quem e quem cá na nossa leira?

  8. Pedro Pinto diz:

    Olha, já não comento: o Vilarigues já o fez. E tu, Renato, nada dizes?

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