Flash Primavera Sound 2012

A extensão do Primavera Sound ao Porto trouxe algumas vantagens inequívocas. As sucessivas edições do festival espanhol garantiam à partida a existência de uma linha programática com qualidade e alguma coerência (excepto se esta fosse uma alternativa secundaríssima em relação ao festival base de Barcelona, privada dos principais nomes, o que não sucedeu) e, em termos geográficos, ocorre um equilíbrio de forças em termos de festivais urbanos de Verão. Finalmente, o parque da cidade, local onde decorreu o festival, é um belo espaço para este tipo de iniciativas: amplo, com relva em quase toda a superfície e com os palcos principais a surgirem numa colina, não chegando à imponência do anfiteatro natural de Paredes de Coura, mas andando lá perto.

Contudo, muito ainda há a melhorar. Por um lado, verificou-se uma perfeita paranóia da segurança, com a exigência simultânea de uma pulseira e um cartão (?!) e com uma vistoria feita por polícias armados (não era melhor guardá-los para festivais como o Sudoeste?) e segundo critérios estranhos, dado que a única preocupação aparente era impedir a entrada de comidas e as bebidas (drogas ou armas tudo bem). A contrastar com isso, houve alguma falta de cuidado com o bem-estar do público, nomeadamente no que se refere à ridícula preparação logística do último dia, opções programáticas absurdas, alguma falta de amplificação no som dos palcos principais ou confluência acústica de alguns palcos. E, pese embora o valor do programa, os cancelamentos antes (Bjork e Explosions in The Sky) e durante (Death Can For Cutie) o festival e uma ou outra performance aquém do esperado, diminuíram musicalmente esta edição de estreia.

Posto isto, segue-se uma breve apreciação aos concertos que vi no Primavera, não sem antes assumir o lamento por não ter visto Atlas Sound, Walkmen, Wilco ou Thee Oh Sees.

1º dia – 7 de Junho

Yann Tiersen – Desde Dust Lane, a música do francês abandonou o minimalismo erudito e transpôs-se para o post-rock, o psicadelismo ou a exploração de ruído. Apesar do maravilhoso solo de violino de “Sur Le Fil”, foi esse o plano dominante do concerto. Musicalmente ecléctico e com momentos muito bonitos, perdeu contudo pelos problemas de som, por algum excesso dos sintetizadores (notório no maravilhoso “Another Shore”) e porque a força do som actual de Yann talvez resultasse melhor à noite. ***

The Drums – Uma das grandes desilusões do festival. Podem não ser uma grande banda em estúdio, mas têm um som veraneante que cativa e alguns singles bem eficazes. Ao vivo, foram monocórdicos e entediantes e o vocalista Jonathan Pierce revelou uma falta de carisma confrangedora. Fez lembrar, para pior, o concerto de Paredes de Coura dos mais ensossos Two Door Cinema Club e essa comparação diz tudo. **

Suede – Foram uma daquelas bandas britpop com algum impacto comercial (com sucessos como “Trash”, “Beautiful Ones” ou “Saturday Night”), mas musicalmente marginais nos anos 90. Com um som estridente (presume-se que de forma assumida, mas há limites) e pese embora a relativa extravagância do vocalista Brett Anderson, fica a sensação de ser um daqueles concertos retrospectivos próprios de uma Queima das Fitas. A razão pela qual marcaram presença no Primavera e tiveram direito a hora e meia de actuação é um mistério por resolver. *

Mercury Rev – Também veteranos, mas de outro campeonato, foram contratação de última hora para substituir os Explosions in the Sky. Com um alinhamento muito assente na sua maior referência discográfica, Deserter’s Songs de 1998, a banda mostrou que muito antes dos Coldplay chatearem e pseudo-emocionarem muita gente, havia quem fizesse épicos pop com algum fulgor. Entre o sério e o gozo, como demonstraram as poses teatralizadas de Donahue, os Mercury Rev foram uma agradável surpresa. ***

The Rapture – Embora o último trabalho In the Grace of Your Love tenha sido um escape para a claustrofobia pessoal do frontman Luke Jenner, o alinhamento do Primavera foi dividido com a fase mais electro-funk, através de temas notáveis como o hino “House of Jealous Lovers”, “Echoes” ou “Whoo! Alright – Yeah”. E ainda bem… o melhor do concerto esteve precisamente no contraste entre a maior pujança física do passado e um som mais luminoso e clean do presente. Para fechar, a eufórica e genial “How Deep Is Your Love” pôs em delírio a plateia, dando por terminado o concerto da noite. Pena que tenha durado só uma hora ****

2º dia – 8 de Junho

Yo La Tengo – Eis um dos mais fortes equívocos do festival: colocar uma banda icónica, com vinte anos de uma notável carreira, algures entre a folk e o rock, entre o noise a rasgar e a beleza contemplativa, a tocar ao final da tarde e apenas uma hora. Se dessa hora, quinze minutos foram para a freak explosão de ruído de “Pass The Hatchet, I Think I’m Goodkind (brutal até para quem não gosta de noise), percebe-se facilmente como soube a pouco. E o final foi incrível, com o contraste entre o tema anterior e o acústico e muito bonito “My Little Corner of the World”. Podia ter sido tão bom… ***

Flaming Lips – O concerto dos Flaming Lips é um verdadeiro espectáculo performativo… balões, confettis, cheerleaders em palco, provocações de Wayne Coyne ao público, simulações de finais de temas, etc. Musicalmente, anda ao sabor da versatilidade da banda, entre a viciante “The Yeah Yeah Yeah Song”, a balada “Yoshimi”, a claustrofóbica “See The Leaves”, a atmosférica “The Observer” ou, claro, a euforia de “Do You Realize?” . Muito bom, mas talvez menos consistente do que o avassalador espectáculo que deram no Sudoeste em 2010 e uma oportunidade perdida para ouvir The Dark Side of The Moon dos Pink Floyd, que andam a tocar na íntegra em outros festivais. ****

Beach House – Um dos maiores flops do festival… colocar a banda de Baltimore, com o seu som planante e muito dreamy, a tocar no palco club à 1 da manhã é de um absurdo indescritível. Tenda a abarrotar, som praticamente inaudível e concerto quase estragado. É certo que Victoria Legrand e companhia aparentaram estar um pouco mortiços e podem não ter feito jus à beleza de Teen Dream e Bloom, mas pareceram muito mais vítimas e engolidos pelo ambiente do que responsáveis por esta pobre actuação. Que saudades do belíssimo espectáculo que, em 2010, deram no SBSR ao final da tarde… **

M83 – Menos fulgurantes e menos versáteis (faltou o lado mais sonhador de “Wait” ou “Skin of the Night”) que no Hard Club (Março deste ano), a performance de Anthony Gonzalez e companhia perde-se um pouco em ambiente de festival, especialmente para quem já os tinha visto antes. É certo que, nos momentos mais duvidosos, conseguem quase sempre manter-se na esfera do bom gosto, mas o som espalha-se em demasia (estes sim teriam funcionado melhor na tenda) e há elementos fortes, como o impacto rítmico da bateria, que passam relativamente despercebidos ***

3º dia – 9 de Junho

Spiritualized – O projecto de Jonathan Pierce teve que encarar um verdadeiro dilúvio neste regresso a Portugal. A banda sacou um alinhamento que se espalhou entre o último e elogiado Sweet Heart Sweet Light e regressos ao passado. Não faltaram as passagens por Ladies & Gentleman,We Are Floating in Space (como o inevitável “Come Together” a fechar), um marco no encontro entre o gospel e o rock, num espectáculo estimável e em que a distorção das guitarras e a chuva constante criaram um ambiente peculiar ***

I Break Horses – Com os cancelamentos de James Ferraro e Death Cab For Cutie, os I Break Horses tiveram o privilégio de serem os únicos a tocar na hora difícil do jogo da selecção portuguesa. Com um som muito atmosféricos, com diversas camadas de teclados, algures num eixo próximo de uns Beach House mais sombrios e com menos refrões, o duo sueco liderado pela vocalista Maria Lindén foi uma bela surpresa. ***

Kings of Convenience – Os Kings of Convenience têm a particularidade de fazerem músicas melancólicas, bonitas e simples, mas sem se levarem demasiado a sério. Numa altura em que não faltam singer-songwriters chatos, em processo de quase auto-flagelação, trata-se de um valente mérito. Isso é nítido ao vivo… no sentido de humor nerd de Erlend Oye, na extensão freak de “Rule My World” ou ao trocarem as voltas aos espectadores no encore, quando, após agradeceram ao Brasil a inspiração, tocaram “Know How” em vez do habitual “Corcovado”. Assim, como também são músicos óptimos, versáteis e que arriscam em palco, estes noruegueses voltam sempre a surpreender ao vivo, mesmo para quem já os viu mais que uma vez. ****

Washed Out – A chill-wave desta banda-americana não tem a euforia de uns Delorean ou o impulso funky do mais recente disco de Toro y Moi. É música mais arrastada, com os sintetizadores a terem uma cadência mais linear e sem grandes dinâmicas dançáveis. É assim em disco e foi assim em palco. Não entusiasmou particularmente, mas também não foi o bocejo da passagem de Toro y Moi pelo Milhões de Festa 2010. ***

The XX – Com um ambiente negro e ultra arrastado (ainda mais do que em disco) e tocando temas do futuro Coexist, a sair em Setembro e que parece não mudar muito o rumo da banda, o fecho dos palcos principais com os The XX pareceu um verdadeiro erro de casting (não faltarão exemplos de concertos anti-clímax perfeitos, mas não parece ter sido o caso). É certo que teria de ser à noite, porque os efeitos minimais de luzes são importante de preservar, que a guitarra tem um som único e que o jogo vocal mantém toda a essência do disco, mas não parece ser banda para festival. E tocarem a remistura de “I’ll Take Care of You” sem a imponência grave da voz de Gil Scott-Heron é quase o mesmo que nada. ***

4º dia – 10 de Junho

Como obter os bilhetes da Casa da Música implicava estar horas à chuva no dia anterior, restava para os restantes a opção do Hard Club. 21h, poucos minutos para o início dos concertos e está uma fila longa à porta de uma das salas. Depois de um longo impasse, eis que os festivaleiros são avisados que já não dará para entrar e que, se pretenderem, terão de aguardar pelo concerto das 22:30h. Altura de ir para casa, com a sensação absurda de que, ao contrário de quase todos os festivais (retira-se o Mexefest, mas com condições muito particulares), o bilhete geral não dá acesso a todo o certame e que este último dia serve essencialmente para justificar um preço mais elevado. É uma pena, até porque dos portugueses Julie & The Carjackers e You Can’t Win Charlie Brown ao mítico Jeff Mangum (líder da banda lo-fi Neutral Milk Hotel), passando pelo rock negro e cru de Veronica Falls, havia coisas bem interessantes para ver.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

4 respostas a Flash Primavera Sound 2012

  1. Pedro diz:

    os WOLVES IN THE THRONE ROOM não tocaram?

  2. Pedro diz:

    Como são uma banda com elementos de ideologia de esquerda, julguei que teriam uma review.

Os comentários estão fechados.