Escalada militarista sob Obama

Barack Obama assumiu o cargo de Presidente dos EUA em Janeiro de 2009. Nove meses depois foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz “pelos seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”. Talvez nunca um prémio Nobel tenha sido atribuído mais pelas expectativas e menos pelos feitos concretos. Sendo certo que a administração Obama apresentava uma postura distinta da anterior Administração Bush II, uma leitura cuidada dos feitos da actual administração só pode levar à conclusão de que as expectativas foram goradas.

É certo que as forças armadas dos EUA no Iraque foram drasticamente reduzidas, mas continua a existir uma importante presença militar. Existe um plano de retirada das forças armadas no Afeganistão, mas também aí continuarão a existir bases militares dos EUA. Em ambos países, continuará a existir um presença significativa de forças armadas privadas (mercenários). Continuam a existir presos privados dos direitos judiciais mais básicos (incluindo militares) incluindo na base de Guantanamo (Cuba), Bagram (Afeganistão), e em incontáveis prisões navais.

O decréscimo de uso de forças militares no terreno tem sido acompanhado pelo crescente recurso a bombardeamentos estratégicos por aviões pilotados à distância (drones), que frequentemente causam danos civis, no Afeganistão, Iémene, Somália e Paquistão (mesmo depois de Obama ter prometido ao governo Paquistanês que estes ataques no seu território iriam terminar). Só entre 2 a 4 de Junho, ataques de drones foram responsáveis por 20-27 mortos no Paquistão. Após anos a enviar drones e forças especiais para o Paquistão, o Secretário de Defesa dos EUA Leon Panetta finalmente concluiu o óbvio: os EUA estão a travar uma guerra no Paquistão. Aos 22 ataques por drones no Paquistão este ano, há que juntar os 23 ataques no Iémene, de acordo com o Long War Journal. Se Panetta já admite que os EUA está em guerra no Paquistão, haverá que incluir o Iémene também. No início de Junho, o porta-voz do Presidente Afegão, Hamid Karzai, criticou um ataque Estadunidense que matou 18 civis, 9 dos quais eram crianças, ordenado unilateralmente pelos EUA e contra o pacto de segurança assinado recentemente entre os dois países.

O uso de drones levou o a Alta Comissária das NU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, a questionar a sua legalidade. A CIA classifica todos os homens de idade militar numa zona de guerra como combatentes. Além da questionável legalidade do assassinato de alvos por este meio, Pillay mostrou-se preocupada com as mortes indiscriminadas e feridos entre civis, uma clara violação dos direitos humanos.

A pretexto da defesa dos direitos humanos, os EUA e a NATO alimentaram o “movimento rebelde” na Líbia, e alimenta financeiramente e militarmente o  “movimento rebelde” na Síria, que inclui, paradoxalmente, elementos da al-Qaeda. Independentemente da opinião que se teça sobre Gadafi ou Assad, estes apoios são uma clara violação do direito internacional e da soberania nacional. Na Síria o recente massacre em Houla serviu de pretexto para a expulsão de vários embaixadores Sírios e moções de censura ao governo Sírio, muito embora exista incerteza sobre os verdadeiros responsáveis pelo massacre. Segundo reportagem do jornal Alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung os responsáveis pelo massacre foram militantes Sunis anti-Assad, e a maioria das vítimas membros das minorias Alawi e Xiita, que apoiam Assad. É inegável que o governo de Assad tem sido responsável por ataques militares. Mas é apropriado contextualizar tais acções num clima de ataques terroristas, financiados por países estrangeiros, com o fim de destabilizar o país e criar um clima internacional de convergência em torno da deposição de Assad. É claro que existe uma campanha de manipulação de informação, como é ilustrado pelo uso de uma foto  captada em 27 de Março de 2003 no sul do Iraque pelo fotógrafo Marco di Lauro para ilustrar o massacre de Houla, como revelado pelo jornalista José Goulão:

O mundo não tem dúvidas sobre a realidade que é o carácter violento e autoritário do regime da família Assad; o recurso a fotos como esta levanta, porém, outras questões, como a da manipulação e a falsificação da informação em torno da realidade que se vive na Síria. E também sobre o carácter das “fontes” privilegiadas, sejam elas “activistas”, blogues patrocinados por serviços secretos ocidentais e organizações ditas de direitos humanos surgidas de um momento para o outro.
Este não é o primeiro caso de manipulação de fotos e vídeos. Nos últimos tempos da guerra contra a Líbia, a mesma BBC publicou imagens de manifestações anti-Khaddafi em Tripoli que correspondiam a uma manifestação muito anterior realizada na Índia e que tinha a ver com assuntos indianos; e foi demonstrado que o primeiro vídeo divulgado pela Al-Jazeera sobre os festejos resultantes da queda de Khaddafi foram anteriores à própria realidade e fabricados numa encenação montada no Qatar em que foi simulada (com erros crassos) uma praça de Tripoli.
A pergunta de fundo é: se a realidade é a que se diz e se explica com tanta convicção que razão leva a que se fabriquem as supostas provas do que se afirma?

Às acções no médio oriente, soma-se a escalada de operações em África. Desde 2007, coincidente com a formação da AFRICOM, operações militares e partilha de inteligência, coordenadas pelas forças de Operações Especiais dos EUA, usando forças militares privadas e o apoio de forças armadas Africanas, têm sido travadas na Somália, Uganda, Burkina Faso e Mauritania como parte da “guerra global contra o terrorismo”.

Fonte: Craig Whitlock and Laris Karklis/The Washington Post.

 

 

 

 

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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10 Responses to Escalada militarista sob Obama

  1. De diz:

    Muito bom

    Um artigo curioso sobre a Recolonização e a crise do Estado-Nação pode ler-se aqui:
    http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=31423
    Abre algumas pistas

  2. Maria diz:

    Esta capa que C. Niemann fez para a Huffington Post Magazine é ilustrativa de um certo desânimo dos jovens face a Obama:
    thisisnthappiness.com/post/25103887084/end-of-the-affair

  3. Recomendo também o recente artigo do Jorge Cadima
    http://www.avante.pt/pt/2010//120427/

  4. antónimo diz:

    Escalada militarista em princípio refere-se a aumento de esforço militar.

    Pese Guantanamo, Afeganistão e uso de Drones (Duvida-se que Bush não os usasse já e sim evantualmente aumentou o âmbito e quantidade de uso deste meio), com Obama não houve escalada nenhuma mas sim recuo.

    Depois, quanto a presença militar, os ocidentais foram, por exemplo, para o Iraque fazer trampa da grossa, assentes em mentiras, mas depois vieram-se embora deixando aquilo a ferro e fogo e às chacinas frequentes. Quem fez a merda que a limpe, não? Será melhor que agora se abandone o Afeganistão deixando aquilo entregue a bandos de senhores da guerra sortidos como se não se tivesse nenhuma responsabilidade na situação?

    • Houve um aumento de esforço se tivermos em conta que o orçamento em defesa continuou a aumentar. Há um aumento de esforço se tivermos em conta a expansão de locais em que há intervenção, seja sob a forma de ataques militar, seja sob a forma de vigilância activa.

      • antónimo diz:

        O aumento de esforço será no campo cirúrgico – bem criticável, ressalvo. No campo da guerra de intensidade, repleta de vítimas diárias, não terá baixado? E um aumento do orçamento de defesa não implicará só por si escalada militarista. Contabilizará por exemplo a muito avançada tecnologia dos drones fazendo recuar os gastos operacionais com centenas de carros de combate? Ou o eventual empenhamento de unidades de engenharia e de apoio de combate em detrimento das unidades operacionais combatentes?

        A minha questão é mesmo o título. Gosto mais deste, por exemplo: http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2012/06/nao-quero-romney-na-casa-branca-mas.html

        • Entendo as reservas quanto ao título, se é exacto falar-se em escalada. Admito que seja questionável, e que a escolha foi derivada de um conjunto de leituras feitas num curto espaço de tempo que espelhavam avanços em frentes para além dos declarados e mais referidos terrenos de guerra: Afeganistão e Iraque. Foi nesse sentido que me pareceu escalada. Pois a esses dois países houve a admissão oficial dos EUA estar a travar guerra no Paquistão. A situação paralela ao Paquistão no Iémene. E a expansão, recente, de intervenção em África. Não é certamente uma escalada segundo as métricas de “número de tropas mobilizadas”, “número de vítimas”, etc.

  5. Armando Cerqueira diz:

    André Levy,
    será errado dizer que o poder imperial/militar dos EUA já está a operar por intermédios agentes na Síria?
    Será também errado constatar que, apesar do imenso poderio bélico e da alta tecnologia, esse império vai somando derrotas sobre derrotas desde o Vietname, designadamente no Iraque e no Afganistão (e provavelmente futuramente no Paquistão)?
    E que as consequências dessas guerras ‘made in USA’ têm tido (e continuarão a ter) reflexos gravíssimos noutras paragens, como por exemplo na UE?
    Cumprimentos,
    A. Cerqueira

    • Penso que existem indícios suficientes dos EUA estar a operar por intermédios na Síria, e ter agentes no terreno.
      Não vejo que se possa dizer que os EUA saiu derrotado do Iraque do mesmo modo que saiu do Vietname. Neste caso, foram forçados a sair do país. No Iraque continuam a ter bases militares e influência política, uma forte presença de empresas privadas, etc.
      Com as frentes prolongadas no Iraque e Afeganistão, os EUA chegou a um ponto de exaustão da sua capacidade de mobilizar forças armadas, sendo forçada – entre outras coisas – a diminuir os requisitos para integração nas forças armadas, e prolongar unilateralmente os contratos celebrados com os soldados (Stop Loss), re-enviando tropas para terreno de guerra mais vezes do que inicialmente acordado. A crescente oposição doméstica à presença no Iraque (não tanto no Afeganistão), o crescente número de vítimas, a limitação no numerário de tropas terão tido uma influência significativa na retirada do Iraque. (Estou convencido que se não houvesse resistência doméstica Iraquiana, com vítimas Estadunidenses semanalmente, a presença às forças armadas dos EUA seria superior à que é actualmente.) Esta retirada coincidiu com duas estratégias: a combinação de inteligência no terreno e vôos não pilotados (mas controlados remotamente), juntamente com uma presença militar de baixo nível; e a aprovação da nova Estratégia da NATO, na cimeira de Lisboa, obrigando a uma maior intervenção dos restantes países da NATO incluindo naturalmente os países Europeus. Estas consequências para a Europa e UE não foram resistidas, mas abraçadas, tanto na cimeira da NATO, como no Tratado Europeu, que implica uma expansão da estrutura militar da UE. Tome-se o caso da Líbia. Os países Europeus da NATO (e UE) tiveram um papel no terreno mais expressivo que os EUA, embora estes tenham estado no comando e tenham tido uma influência importante, sobretudo ao nível de prestação de inteligência e armamento.

      • Armando Cerqueira diz:

        André Levy,
        eu não afirmei que a derrota do Império USA no Iraque foi igual à que sofreu no Vietname ou a que está a sofrer no Afeganistão. São realidades gesográficas, sociais e militares bem diversas.
        Creio, todavia, que é um tanto ingénuo acreditar na opinião que os EUA e aliados procuram passar de que ‘retiraram’ a maior parte das forças por interesse próprio ou por já não necessitarem lá de um grande exército de ocupação.
        Tiveram imensas e duríssimas perdas (em mortos, estropiados e material) às mãos de guerrilhas de baixa tecnologia, socialmente ‘atrasadas’ pelos nossos padrões. Têm graves problemas morais e psicológicos nas Forças Armadas e nos EUA. Isso teve consequências ao nível interno dos EUA, na confiança da liderança política e militar, e no prestígio internacional dos ‘gringos’…
        Instalaram um regime para os substituir. Mas, segundo a imprensa, o regime pró-EUA tem sido combatido e vencido pelos extremistas anti-EUA, o que resta do poder militar yanquee também tem sido atacado (com perdas), não há qualquer consolidação política e militar a favor dos (interesses directos e/ou indirectos dos) EUA.
        Se isso não é uma derrota ‘in progress’ então não sei o que é uma vitória…
        O antigo aliado e protegido dos EUA Sadam Hussein bem avisou a ‘liderança’ EUA que não ia chegar e vencer facilmente no Iraque…
        Tiveram de retirar o grosso das tropas devido às derrotas (perdas em homens e material), não consolidaram a situação militar, os seus procuradores iraquianos não conseguem estabilizar o país… É uma questão de tempo, e esses povos são pacientes…

        Enfim André Levy, cada um acredita no que quer. Eu, por mim, procuro não ter ilusões. Não gosto nem duns nem doutros. Só lamento o socfrimento infligido a tanta gente, qualquer que seja o seu país, raça, religião, cultura.
        E, nesta europazinha, vamos também pagá-lo muito caro.
        Cumprimenta-o cordialmente o
        Armando Cerqueira

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