O berço ou a urna da democracia

Na Europa da troika os povos têm direito de ir às urnas apenas para votar naquilo que foi decidido para eles. É como na velha anedota em que um pai anuncia ao filho que é totalmente livre para escolher o seu futuro: “Meu filho, quer queiras quer não hás-de ser bombeiro voluntário.” Os poderes que mandam na Europa permitem que a Grécia eleja o seu governo desde que execute a política que a troika ordena. Desse ponto de vista, as declarações do presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, não fazem mais do que recitar a ordem de serviço. Ao propor que nos municípios deficitários os cidadãos não tenham direito a eleger a câmara está no fundo a adaptar ao terreno local o modelo de “democracia” que nos querem impor a nível continental. A democracia deixou de ser a possibilidade de escolhermos o nosso futuro para passar a ser um artifício que permite disfarçar a imposição de uma política única neoliberal para servir os poderosos.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a O berço ou a urna da democracia

  1. Edgar diz:

    Pode ser a troika estrangeira a mandar mas são eles, a troika nacional (PS, PSD e CDS), que fazem as leis e de direito em direito vão retirando todos os que puderem, enquanto puderem, convencidos que estão de que podem perpetuar-se no poder.
    E será assim até que os obriguem a sair e a devolver tudo o que tiraram.

  2. Rocha diz:

    35% da economia da zona euro está a ser empurrada para uma recessão brutal pela políticas austeritárias. Isto é a soma dos PIBs de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. A este desastre deve somar-se o Chipre cuja economia sofre dum contágio imediato da Grécia e está já sob a mira da Troika. Devem somar-se a Hungria e Roménia que fora da zona euro mas dentro da UE estão a aplicar a mesma receita pela mão do FMI e sob ordens da UE. Mas devemos também acrescentar a Holanda e a Bélgica, que apesar de algum desafogo orçamental e financeiro, mergulham em crises políticas perante o violento embate entre partidários e opositores da austeridade.

    Todos estes países vivem sob as ordens da senhora Merkel e do Banco Central Europeu. Todos eles navegam entre uma aceitação catastrófica das imposições austeritárias ou uma encarniçada revolta contras as imposições como já estamos a ver na Grécia, nas Astúrias e veremos em Lisboa na manif da CGTP (só para falar nas que por agora são mais faladas).

    Um pouco por toda a periferia da Europa e até mesmo no centro da Europa, as manifestações de protesto agitam cartazes a dizer: “salvem os povos e não os bancos”.

    Por consequência está se a dizer também “salvem os povos e não o BCE”. O BCE que nunca é de mais dizer é uma aberração anti-democrática, um trono imperial onde assenta a mais desastrosa política monetária de que há memória.

    Chegou a hora de dizer “salvem os povos e não o Euro”.

  3. De diz:

    Um muito bom post Nuno.
    (mas, e desculpa que o diga aqui fora de horas, nos idos de Junho postaste um post dos diabos.Um gigantesco e comovente post.
    Tinha que to dizer).

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