Em defesa de António Borges

O jornalista do “Le Monde” Marc Roche, autor de um estudo sobre a Goldman Sachs, diz que o percurso de António Borges na empresa é um “mistério”. Tendo trabalhado oito anos (2000-08) na filial europeia do banco americano – que, por exemplo, aldrabou as contas gregas em 2002-03, não se sabe a que departamento pertenceu nem em que projectos esteve envolvido.
A sua nomeação como director do departamento europeu do FMI, entidade que tutela os empréstimos europeus, não está livre da suspeita de que se terá tratado de uma operação da própria Goldman Sachs. Na sequência do seu despedimento do FMI – segundo Roche, por incompetência –, Passos Coelho não deixou que Borges usufruísse do maravilhoso mundo de oportunidades reservadas a um desempregado em Portugal, oferecendo-lhe a direcção do processo de privatizações impostas pela troika e avaliação das PPP. Não pela sua competência mas pela posição que ocupa, Borges transformou-se no “number one” de todas as empresas que vivem de consumir o cadáver do Estado em Portugal.
Tanto o Grupo Jerónimo Martins como a Fundação Champalimaud já garantiram os seus préstimos, estranhando-se apenas que Borges não abuse da tradicional bonomia cínica deste tipo de figuras tutelares que anunciam prestar serviços gratuitos ao país sempre que chove dinheiro a seus pés. Sendo compreensível a indignação que as suas entrevistas desencadeiam na opinião pública, é injusto pôr Borges no centro das críticas.
Borges é um produto do sistema. Um soldado raso sem particular brilhantismo – não esqueçamos que outros, com o seu percurso, já são primeiros-ministros. Exigir a demissão de Borges pode ser catártico e de elementar justiça, mas porá em causa o sistema que o nomeou?

Hoje, no i

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