“Cosmopolis” de David Cronenberg

Depois de Uma História de Violência e Promessas Perigosas, dois extraordinários filmes com uma estrutura mais realista e convencional (e que, já agora, contaram com interpretações arrebatadoras de Viggo Mortensen), e do mais levezinho relato de época sobre Jung e Freud em Um Método Perigoso, Cosmopolis aparentava ser um regresso a uma estética mais típica de David Cronenberg. No caso, isso significaria uma aproximação a uma linha mais demente, futurista e violenta que caracteriza grande parte do percurso do realizador. Mas, para o bem ou para o mal, será que isso realmente aconteceu?

Cosmopolis acompanha um dia de um jovem milionário (Eric). Com o pretexto de cortar o cabelo e perante uma ameaça de segurança, grande parte da acção decorre numa limousine, onde Eric vai tendo reuniões de negócios, análises pessoais e encontros com amantes. A partir de um dado ponto, torna-se relativamente claro que  há no filme e no livro de Don DeLillo (obra profética de 2003) um objectivo claro de fazer um retrato metafórico de um mundo capitalista cru e desumano, onde o poder económico e a alta finança suplantam o poder político (é paradigmático quando é referido que o presidente americano é secundário em relação aos grandes magnatas capitalistas) e onde tudo é efémero, volátil e pouco absorvido. O clímax decorre quando o destino de Eric se cruza com um ex-funcionário, um simples anónimo interpretado por Paul Giamatti (sempre marcante), que o pretende matar para que a sua vida tenha real significado.

Embora não seja necessariamente original no seu propósito (dos documentários à ficção mais ou menos inspirada no real, já houve vários exemplos cinematográficos sobre esta questão – de forma também simbólica, mas em moldes bem diferentes, Procurem Abrigo é um bom exemplo recente), é sempre uma ideia boa de explorar e mais actual que nunca. A dúvida principal é se o método e a forma serão os mais convincentes. O objectivo é, ao que parece, haver uma fidelidade quase absoluta ao livro, mantendo os diálogos perfeitamente intactos. Acontece que, na prática, o resultado é demasiado difuso e teatralizado e a principal mensagem do filme acaba por perder força e quase se desvanecer. No fundo, uma oportunidade perdida e uma relativa desilusão.

5/10

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