“PANDEIRETAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA*” – Reportagem, entrevista ao comissário e relatos de activistas sobre a manifestação (encurralada) contra o despejo da São Lázaro 94.


Entrevista ao comissário

Eu – Pode dar declarações aos jornalistas senhor comissário? Pode explicar o que está aqui a acontecer? É rápido. Não lhe roubo mais que dois minutos…

Comissário – Só se for rápido que como vê não estou com tempo.

Eu – É rápido, é rápido. Dois minutos. Qual o objectivo desta operação?

Comissário – Isso está a gravar?

Eu – Sim, está, pode prestar declarações?

Comissário – Posso, sim, mas sem gravar.

Eu – Olhe que a gravação o salvaguarda…

Comissário – Sem gravar. Sem gravar. Posso explicar-lhe mas sem gravar.

Eu – Mas posso cita-lo na mesma ou está a falar em off?

Comissário – Pode citar, mas gravar não.

Eu – Não seja por isso então. Em que consiste esta operação?

Comissário – Deixe confirmar que desligou.

Eu – Está aqui senhor Comissário, pode ver. A que se deve então esta operação? Qual a razão de cercarem as pessoas e não deixarem ninguém sair ou entrar?

Comissário – Estamos a identificar as pessoas. Temos a informação que há indivíduos referenciados entre os que ai estão.

Eu – Referenciados de quê?

Comissário – De pertencerem a movimentos violentos.

Eu – Mas se eles estão referenciados porque cercam toda a gente e porque não podem sair e entrar as pessoas? Os manifestantes alegam que esta prática é ilegal…

Comissário – Ilegal era a manifestação.

Eu – Porquê?

Comissário – Porque não pediram autorização e cortaram a estrada.

Eu – Mas o que a lei diz é que tinham apenas de informar e uma vez que foi convocada para depois das sete horas da tarde…

Comissário – Sim, sim. Mas havia ilegalidades. Cortaram a estrada, fizeram grafites e deram pontapés nos caixotes.

Eu – Mas se houve quem fizesse algo ilegal porque não confrontaram apenas e só essas pessoas?

Comissário – Porque não era fácil identifica-las.

Eu – Mas não estavam referenciadas?

Comissário – Estavam, mas não por esses ilícitos…

Eu – Pergunto-lhe também porque tenho um colega jornalista entre o grupo de manifestantes detidos que estava apenas a fazer o seu trabalho.

Comissário – Se está no grupo é porque estava na manifestação.

Eu – Estava, mas a fazer o seu trabalho.

Comissário – Então não devia estar.

Eu – Está a dizer-me que os jornalistas não deviam fazer o seu trabalho se o assunto for uma manifestação? Posso mesmo citar o que me está a dizer?

Comissário – Olhe… não disse que era rápido? Tenho que ir…

Relato do Tiago Mendes

“Mais de meia hora depois do cerco à igreja e aos manifestantes, um grupo de 6 obedientes animais da PSP tem ordens para cercar e colher mais uns populares que estão no passeio, fora do cerco, de onde eram dirigidas palavras de ordem. Como podem ver, saem da formação, vêm até à rua e arrastam consigo uma dezena de pessoas. Uns ‘manifestantes’, outros residentes do bairro, entre ilustres desconhecidos.
Segundos antes, pedi a uma amiga o seu portátil com net para comunicar o que se passava e chamar mais gente, uma vez que corria a palavra de que a imprensa fora impedida de entrar no perímetro e se encontrava algures na Almirante Reis, longe quanto baste para que ‘não se passe nada’. O portátil ficou comigo, mas a pen da net foi com ela no arrastão para dentro do cerco.
Cercar populares é ilegal. Transportar populares é rapto. FILHOS DA PUTA!!”

Relato do Pedro Feijó

“Chego agora a casa depois do dia que me deixou esclarecido: vivemos num Estado Policial.

Passei a tarde a estudar e segui para o protesto contra o desalojamento de S. Lázaro. Ainda nem tive tempo de ler notícias, mas parece que detiveram 4 pessoas incluindo o nosso advogado, uma rapariga asmática a quem recusaram a bomba e um amigo meu cuja camisa vi esfarrada e que tinha uma ferida no peito. Este desalojo foi ilegal, desrespeitou a providência cautelar do tribunal. A desculpa? Que estávamos a degradar o prédio (pintámo-lo, arranjámos-lhe a canalização, limpámo-lo… aquele prédio há anos que não estava tão bem tratado) – já agora um agradecimento à @IlgaPortugal pelo mote, a luta pela igualdade aparentemente também passa por mostrar que o pessoal LGBT também pode ser estúpido e politicamente manipulado….

A manifestação, que começou por volta das 19h30 estava a correr pacificamente. À parte de um puto de cara tapada que mandou uma mancha de tinta a um edifício, só mesmo tambores, palavras de ordem e pessoas simpáticas. Subimos a almirante reis e fomos para a frente da casa da presidência. Por volta desta altura apareceram duas carrinhas da polícia de intervenção cujos polícias nos começaram a seguir. Na mão traziam bastões, escudos e carabinas. O pessoal, assustado, começou a subir mais depressa e dispersou. Conseguiram encurralar o pessoal na igreja dos anjos e não permitiram que ninguém saísse. Ainda ficámos lá para aí uma hora e meia e só saímos depois de sermos todos identificados. Em nenhuma altura houve uma tentativa de comunicação da polícia para connosco. Aquando a minha identificação o polícia, sem identificação, fez favor de deixar claro que:

1-Não podia gritar.
2- Não me podia manifestar.
“Vá mas é lá para o Bairro beber uns copos e deixe-se destas coisas”. E porquê a proibição das manifs? Ora, naturalmente porque “as pessoas querem ir descansar para trabalharem e vocês não deixam”.

Ao meu lado o rapaz a ser identificado pediu a identificação do polícia (mesmo que me revistou). Este irritou-se com o pedido e empurrou o meu amigo violenta/ contra a parede, de uma forma completamente gratuita. O chefe dele, Rui Oliveira, fez questão de deixar claro que não “vi nada” do que se passou à sua frente.
Identificaram toda a gente, e depois foram embora.

Agora, a voltar para casa do Rossio, passei por S. Lázaro. Deixei à porta (que cimentaram de cima a baixo) uma das flores de plástico que levávamos na manif. Andei vinte metros e quando olhei para trás o polícia que estava na carrinha estacionada do outro lado aproximava-se do prédio. Tirou a flor, olhou para mim, e sorriu. E depois desfez a flor completamente.

Simbolismo demasiado explícito? Deal with it. A Polícia em Portugal é imune. Estão acima de qualquer lei. São humanos? Claro que sim. E exactamente por isso têm lá uma bela quantidade de bestas brutamontes que têm de ser controladas. A Polícia em Portugal é imune. E não há quem vigie o vigilante.

É possível que não notes no teu dia-a-dia, a razão é simples: “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”.
Mas vais mesmo deixar isto acontecer? Quem sabe se não és tu a seguir…”

* Título roubado à reportagem do Ministério da Verdade.

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