Subam das Minas, Desçam das Colinas, Camaradas

Na Segunda Guerra Mundial nasceu a maior conquista da classe trabalhadora desde  a sua formação – o Estado Social. Nasceu da aceitação dos Partidos Comunistas fieis à URSS, a Yalta e a Postdam, que em troca da abdicar da revolução aceitavam o Pacto Social – os trabalhadores abdicavam da luta política, da luta pelo poder, em troca tinham direitos sociais. Os trabalhadores estavam armados em 1945, o capitalismo e a propriedade destruídos, desfeitos – foi o maior momento de fraqueza da história da burguesia, no fim da «grande noite» como chamou Victor Serge ao fascismo. O Estado Social foi muito. Mas é preciso lembrar que foi muito pouco para o que teria sido possível – a revolução. E só a possibilidade real de uma revolução vitoriosa, fez que com a burguesia aceitasse o Estado Social.

O nosso Estado Social também nasceu da vitória sobre a ditadura e da derrota face à democracia representativa, liberal. Por isso andamos há 40 anos sem paz, com medo de não ter saúde, emprego, educação, cultura.

Muitos dos partisans recusaram-se a entregar armas, recusaram perder um jogo a meio, que tinha custado milhões de vidas, na Grécia onde Estaline em acordo com Churchill mandou-os entregar as armas começa uma guerra civil que coloca face face comunistas.

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24 respostas a Subam das Minas, Desçam das Colinas, Camaradas

    • C. Coutinho diz:

      Chamo a atenção para o facto de o texto “Subam das Minas, Desçam das Colinas…” está truncado, incompleto…

  1. Gentleman diz:

    «Na Segunda Guerra Mundial nasceu a maior conquista da classe trabalhadora desde a sua formação – o Estado Social.»

    A bem do rigor histórico, o Estado Social nasceu no séc. XIX na Alemanha com Otto von Bismarck.

    • Raquel Varela diz:

      Caro,
      A bem do rigor histórico fala-se da política social introduzida por Bismark como resposta à força da social democracia alemã, no final do XIX, seguros sociais obrigatórios, cobrindo a doença (1883), os acidentes de trabalho (1884), a invalidez e velhice (1889), e não de Estado Social, esse é do pós guerra, na generalidade dos países da Europa.
      Na véspera da II Guerra Mundial, apenas um terço da população francesa estava coberta por esquemas de seguro-doença. Com a Libertação, e através da ordonnance de 4 de Outubro de 1945, é criada a Sécurité Sociale, com vista a assegurar a todos os cidadãos meios de existência em todas as situações de incapacidade para o trabalho.

      • Gentleman diz:

        A sua tentativa de levar a argumentação para o lado semântico esbarra com os factos históricos. A saber, o termo Sozialstaat (“estado social” em alemão) está em uso desde os tempos de Bismarck — século XIX, portanto. Se o seu preconceito ideológico preferir o eufemismo “política social”, esteja à vontade.

        • Raquel Varela diz:

          Caro Gustavo,
          Estava justamente a querer levar para o conteúdo, ou seja, que por se chamar estado social não era historicamente o estado social – universal nas políticas em termos quantitativos e qualitativos – mas um estado focalizado na questão das doenças e acidentes laborais.

  2. MG diz:

    Entre o que dizes: «Na Segunda Guerra Mundial nasceu a maior conquista da classe trabalhadora desde a sua formação – o Estado Social.»

    E o real: «A Segunda Guerra Mundial mudou a correlação de forças no planeta fruto do papel determinante na vitória da maior conquista das classes trabalhadoras desde a sua formação – a URSS, o Estado Socialista»

    Está tudo o que nos é comum, e o mundo que nos separa.

    Um Abraço,

  3. Eu gostava de saber onde é que a burguesia desapareceu… Ela perdeu em muitos locais, mas onde é que nos países capitalistas vencedores ela desapareceu (França, Inglaterra e sobretudo os poderosíssimos EUA)? Mesmo na Alemanha os nazis é que foram derrubados. A burguesia apesar de politicamente derrotada não deixou de existir enquanto classe… Até porque a burguesia nunca joga só com uma carta, nem num único tabuleiro…

    Ah, e a generalidade dos PC’s já tinha desistido de lutar pela revolução aí há uns vinte anos…

    • Raquel Varela diz:

      Não me parece que tenha desaparecido. Derrota e desaparecimento não é o mesmo.

      • «o capitalismo e a propriedade destruídos, desfeitos». Quem falou em desaparecimento/destruição da burguesia foste tu 🙂

        abraço

        • Raquel Varela diz:

          Olá João,
          Houve pois um mal entendido. Porque eu referia-me à propriedade e não à classe. A propriedade dos meios de produção estava destruída – fisicamente destruída, isto é, cidades, comunicações, transportes, fábricas, empresas. Mas a burguesia não, e algum capital foi em parte salvo – algum porque muito foi destruído, essa é a lição de 29, grande crise de super acumulação de capital, grande crise destrutiva. A burguesia europeia não tinha porém meios de evitar a revolução, teve que pedir auxílio à norte-americana , o Plano Marshall é isso bem como a nacionalização dos sectores principais da economia. Mas para haver casamento são precisos dois – foi tão importante o Plano Marshall como a aceitação deste por parte dos Partidos Comunistas.
          Abraço

    • C. Coutinho diz:

      Não me queria envolver nestas polémicas, até porque não tenho conhecimentos. No entanto, quais eram os Partidos Comunistas que tinham desistido de lutar pela revolução havia 20 anos em 1945? O Grego, cujos militantes foram massacrados pelas tropas inglesas antes do fim da guerra? O Alemão, cujos militantes, incluindo Thälmann, foram exterminados nos campos de morte, e cujos sobreviventes continuaram a luta sob o nazismo? O Francês, que organizou a resistência contra o ocupante nazi? O Italiano, cujo secretário geral, Gramsci, morreu em consequência de 10 anos de masmorra e cujos militantes integraram e organizaram a resistência anti-fascista? O PC da Indochina, que iniciava nesses anos uma longa e titânica luta armada, precisamente pela Revolução? O Chinês, que vinha da Longa Marcha e prosseguia nesse ano de 1945 a luta pela Revolução? O Português, cujo secretário geral, operário torneiro mecânico, tinha sido assassinado no Tarrafal e cujos militantes prosseguiam a luta na mais rigorosa clandestinidade pela Revolução? Talvez o Soviético, cujos militantes e quadros iam para a Frente (os comunistas na frente, era a palavra de ordem) e tinham primazia na execução quando capturados pelos nazis? E talvez a Guerra Civil e o trabalho pacífico de construção do Socialismo, nas décadas anteriores – os tais 20 anos – tenham sido um equívoco e não a luta pela Revolução…Uma coisa é a luta pela Revolução, outra bem diferente é a possibilidade e a capacidade das massas para a fazer. Não existe um “proletariado dos livros” – é preciso abandonar essa pretensa “categoria” e debruçarmo-nos, na análise do ontem e do agora, sobre o proletariado real, os “uomini in carne e ossa”, de que fala Gramsci (que se calhar também desistiu de lutar pela Revolução assim que se viu confinado às 4 paredes da masmorra onde perdeu a vida). É preciso ter em conta que não existe um proletariado dos livros, ideal, mas sim um proletariado real, humano, manipulado pela burguesia, manietado pela necessidade, pela superstição, pela incultura e pelo medo. Existe hoje como existia em 1945 e em 1917. E os que querem participar na emancipação dos 99% de Humanidade que são o proletariado, melhor farão em juntar-se, consoante as suas possibilidades, à luta real, à organização, à mobilização das massas, com humildade, tendo em conta que a tarefa é – como direi? – demasiado longa e pesada para perdermos tempo a carpir mágoas sobre o perdido, sobre o que outras gerações podiam ter feito (achamos) e não fizeram. Cada geração resolve as tarefas que se lhe colocam. E à nossa cabe a tarefa sempre pesada de prosseguir a luta com conhecimento de causa, coragem, humildade, como já disse, e lucidez.

      E por fim, a burguesia não estava politicamente derrotada na Europa de 1945, nem mesmo nos países onde se instalaram as democracias populares, como a derrota de 1989 demonstra. Se a burguesia estivesse derrotada em França, em Itália, não tinha segurado as rédeas do poder como segurou. Os factos são esses. E os factos são teimosos, disse Lenine.

      • João Valente Aguiar diz:

        Coutinho,

        1) nem o partido aqui em Portugal defende (ou alguma vez defendeu) uma revolução socialista… Aliás, isso não está no programa nem nunca esteve. Atenção, o programa fala em socialismo mas nunca falou numa revolução socialista para lá chegar. Ao mesmo tempo, a revolução nacional e democrática que o PCP delineou para o derrube do fascismo nunca foi considerada uma revolução socialista. Pelo contrário, todos os documentos conhecidos apontam precisamente para uma revolução popular que instauraria um regime democrático. Dentro deste contruir-se-ia uma democracia avançada (versão de 1988 para cá) como construção gradual de uma sociedade rumo ao socialismo. Isto sim não se trata de análise valorativa, mas de factos. Neste ponto nem sequer estou a emitir uma opinião, apenas estou a lembrar o óbvio.

        2) O Partido chinês defendia a revolução socialista nos anos 20. Tanto que fez uma… Mas os outros, já antes de 1945, não tinham qualquer referência à revolução socialista – ou seja à tomada do poder do Estado pelos trabalhadores tendo em vista a construção de uma nova sociedade organizada a partir de sovietes, e com delegados sempre revogáveis pelas bases. O PCF resistiu heroicamente aos nazis mas em 1945 não utilizou nem sequer ponderou em mobilizar as centenas de milhares de operários a tomar o poder. Mais ainda, tinha armamento para isso… Aliás, desde cedo que o seu objectivo sempre foi construir um “socialismo à francesa”. O mesmo se aplicou ao PCI que a seguir à guerra levou os partisans a baixarem e entregarem as armas… Seria o mesmo que pedir ao partido bolchevique para desmobilizar a guarda vermelha… Realisticamente, eu tb não acho que em 45 fosse assim tão fácil tomar o poder em Itália e França. O que não me parece correcto é simplesmente abandonar o objectivo e o método em prol de alianças tácticas. Até porque o PCF e o PCI ao terem dado ordens para dissolver os seus respectivos exércitos populares, isso acabou por ser uma preciosa ajuda para o restabelecimento da ordem burguesa. Aliás, se a resistência guerrilheira desses partidos conseguiu sobreviver ao exército nazi, porque não conseguiria fazer o mesmo perante um exército americano, na altura ainda militarmente inferior ao nazi. Lembrar que os EUA apenas venceram os alemães depois destes terem levado porrada da velha na frente leste. Portanto, se a guerrilha de partisans aguentou os nazis porque não aguentaria com um exército menos apetrechado e com a vantagem de poder deter uma posição mto mais forte dado que o exército soviético estava na Alemanha de leste?

        3) há uma carga demasiado moralista na tua abordagem. O que é que a horrível tortura que o Bento Gonçalves e outros militantes comunistas sofreram um pouco por todo o mundo tem a ver com o facto de a generalidade dos partidos comunistas terem deixado de lado o objectivo da revolução socialista (e mtos nunca sequer tiveram isso como objectivo)? Aliás, nem sequer estou a classificar ou atribuir um valor a isso, apenas a enumerar factos. O facto de dirigentes, militantes ou activistas de uma determinada organização não terem defendido uma revolução socialista não lhes diminui em nada o heroísmo de terem lutado e resistido contra o fascismo. Reconhecer o seu papel heróico na resistência, não nos deveria levar a confundir a sua enorme dignidade humana com as posições políticas que defendiam. Ou uma linha política só é justa quanto mais porrada, tortura e mortos levar em cima?

        4) essa do proletariado dos livros é das coisas mais anti-marxistas que existe. Então o Lénine e o Marx, só para citar estes dois, escreveram o equivalente a 100 e tal volumes de 600-700 páginas cada… Claro que são exemplos com os quais mais ninguém na esquerda anticapitalista se pode comparar. Mas precisamente pela enormidade da sua obra é que eles demonstram que a luta política nunca se desliga da luta teórica…
        Eu sei onde essa conversa quer chegar. Catalogando o opositor como “teórico” ou como gajo do “proletariado dos livros” toda a necessária tarefa que as organizações operárias têm de pensar o real e de pensar as condições da luta dos trabalhadores no actual contexto, permite que a fé nas mesmas teses se mantenha. E não se abordando nunca o fundo das questões pode-se sempre apaparicar os intelectuais republicanos de esquerda que de marxismo percebem pouco (e que do comunismo nada querem saber), intelectuais esses que desenvolvem a sua actividade sempre em torno de questões laterais (coisinhas urbanas, sofrimento, corpinho dos operários, fazendo dos operários uns “coitadinhos”, etc.), para que, no final de contas, tudo se mantenha na mesma. Os intelectuais “bons” são, assim nesse esquema, os que nunca tocam em nenhum aspecto estrutural de classe para que todo o edifício de fé mística e de teses por vezes delirantes e sem qualquer sustentação racional (já nem sequer vou à questão de ver se são ou não marxistas) se mantenham incólumes. Os intelectuais “bons” são assim aqueles que nunca discutem as questões de um modo marxista e, acima de tudo, aqueles que nunca discutem as questões fundamentais e, na vida concreta, se dedicam a urdir teias de relações pessoais com personalidades de fino recorte proletário e comunista, nem que para isso se possa prejudicar a vida profissional e pessoal de outrém. Mas, esses sim, são os intelectuais úteis…

        • Carlos Coutinho diz:

          João Aguiar

          Vou tentar responder aos considerandos acima, por ordem. Assim:
          1) Começas por afirmar convictamente o PCP não defende nem nunca defendeu uma revolução socialista em Portugal (!!!) e que isso nem sequer está no programa. Isso não é correcto. No Programa do PCP, no capítulo III, com o título “O Socialismo, futuro de Portugal”. No sub-capítulo com o mesmo título, no 2º parágrafo do ponto 1, lê-se: “O PCP aponta como objectivos fundamentais da revolução socialista em Portugal, etc..” E de seguida enumera os objectivos claramente definidores duma revolução socialista, seja em Portugal ou noutro lugar: abolição da exploração, das classes antagónicas, democracia (socialista, naturalmente), económica, social, política e cultural, participação popular, etc.. A seguir, no ponto 2. “…o PCP aponta como características da sociedade socialista em Portugal…o poder dos trabalhadores, a permanente fiscalização da actividade dos órgãos do Estado e o aprofundamento das formas de participação popular”, etc..O ponto 3 fala da iniciativa e criatividade das forças revolucionárias e das suas potencialidades, etc…Por fim, no ponto 4 do capítulo em causa, define-se o horizonte do comunismo, a sociedade sem classes, (…) sociedade de trabalhadores livres e conscientes, etc.., tal como a definem Marx, Engels e os marxistas na mesma linha.

          Lembro, por exemplo, que, numa das suas primeiras entrevistas ou discursos como tal, o actual secretário-geral do PCP falou claramente na superação revolucionária do capitalismo, o que lhe valeu na altura alguns ataques soezes dos intelectuais de serviço ao mesmo capitalismo. E em muitos documentos do Partido se fala na Revolução.

          Por outro lado, não é segredo nenhum que a revolução nacional democrática preconizada no Rumo à Vitória era apenas isso, não era socialista. Era o que era previsível que seria possível fazer e veio a fazer-se pelo menos em boa parte, em 74-75. Outros partidos revolucionários conduziram revoluções nacional democráticas e depois passaram ao socialismo. Os comunistas chineses chamaram ao regime saído da revolução de 49 “Nova democracia” ou “democracia nova”, já não sei.
          É necessário, em qualquer debate, muito mais entre gente que se reclama do marxismo e do comunismo, que haja rigor, pelo menos, naquilo que se afirma que está e não está escrito.

          2) Acusar as direcções do PCI e do PCF de 1945 de não terem mobilizado a classe operária para a tomada do poder, terem desarmado os seus exércitos guerrilheiros, etc.. é fazer vaticínios sobre o que não foi e (achamos que) podia ter sido feito. Porque não dizer antes:- os capitalistas alemães podiam não ter levado o Hitler ao poder e podiam ter deixado de invadir a URSS, a burguesia podia ter deixado os partidos comunistas do ocidente prosseguirem a mobilização e organização da classe operária para a tomada do poder, a burguesia francesa podia não ter escancarado as portas da França a um exército nazi ainda relativamente fraco, podia não ter instalado o governo de Vichy com as suas traições e iniquidades, a burguesia italiana e a santa madre igreja podiam ter optado por não terem instalado o Mussolini e os seus fascistas no governo de Roma, os seus tribunais escusavam de ter mandado o Gramsci apodrecer na cadeia, etc…Dizes com grande certeza que os comunistas franceses nem sequer ponderaram a tomada do poder. Devem ter ponderado muito exaustivamente, nessa altura, como ponderaram no Maio de 68, por exemplo (salvaguardando as diferenças óbvias dos contextos). Não é o partido que toma o poder, são as massas populares. Se as massas não querem e não podem, o partido não tem de ter isso em conta? Recordo o que Álvaro Cunhal escreveu no “Rumo à Vitória” sobre a situação revolucionária como “situação objectiva, que não se amolda a esquemas “teóricos”, – situação revolucionária essa necessária para fazer a revolução, situação revolucionária que não pode ser avaliada com ligeireza, por um partido comunista que se preze, sob pena de se ser exterminado, além dos imensos sofrimentos causados ao povo, como aconteceu, por exemplo, ao Partido Comunista da Indonésia nos idos de 60 …

          A história não se faz com “ses”. Esta é, essa sim, uma forma anti-marxista, por nada que eu perceba do marxismo, (ciência como se sabe só acessível a alguns iniciados) de abordar os problemas, sobretudo os do passado. É fácil e sem consequências aparentes, à distância de 70 anos, dizer estas coisas e fazer avaliações fantasiosas. Mas, na ocasião, em cima dos factos, no calor da batalha, com a corda literalmente na garganta de centos de milhões de pessoas, a dificuldade de avaliar a situação e de tomar resoluções deve ter sido tremenda. Do mesmo modo, daqui a 50 anos, os vindouros podiam censurar-nos por não termos – os trabalhadores – já sacudido a canga nesta altura. Mas nós sabemos, agora, como (ainda) não a podemos sacudir.
          Apenas mais duas notas sobre a França da II Guerra Mundial: na invasão anglo-americana da Normandia em 1944, entrou em França, na cola do exército, um contingente francês com o general De Gaulle à cabeça, acompanhado de uma quantidade de quadros da burguesia. Ao mesmo tempo que o exército anglo-americano ia entrando pela França libertada pelos partisans, ia instalando toda essa gente no poder, expulsando as administrações formadas entretanto pelos verdadeiros libertadores (logo na altura, os comunistas franceses denunciaram muitos destes novos administradores como colaboracionistas e vichistas “convertidos” à Libertação). O chefe da expedição, o general ianque Eisenhower, recusou ferozmente qualquer participação dos partisans franceses na invasão, participação essa que teria poupado muitas vidas e destruições, tornado mais eficaz e rápido o avanço das tropas e a derrota dos nazis. Por outro lado, os ianques e ingleses ainda trucidaram muitos partisans, que tinham sobrevivido a 4 anos anos de terror nazi, mas não se safaram a dois dias de “Libertação”. Podia o PCF ter feito a revolução? A Itália foi ocupada muito cedo por um numeroso exército ianque e pelos serviços secretos que estiveram na origem da CIA. Muitos fascistas (e a Máfia) foram ali protegidos pelos ianques e reinstalados no poder “democrático”, tal como muitos nazis. A Itália continua hoje ocupada pelo exército imperialista (lembras-te que os aviões que em 1999 iam lançar bombas sobre a Jugoslávia partiam de bases ianques na Itália?). Podia o PCI ter feito a revolução? Sobre a Itália da primeira metade do século XX, sugiro que se possa ver o filme “Il novecento” (mal traduzido em português como “1900”), do Bertolucci, onde o tema da desmobilização de 1945 também é abordado.
          Admitamos até que os factores objectivos eram favoráveis a uma tomada do poder pela classe operária ao findar a guerra de 1939-45, o que não me parece mesmo nada, nem a História comprova. É preciso ter em conta o peso decisivo dos factores subjectivos. As massas estavam conscientes para a tomada do poder e sua defesa? Não reinava na consciência das massas o terror da guerra ainda em curso? Qual era a situação da Europa? O “corpinho dos operários”, estava ou não estafado, cheio de fome e de piolhos, de buracos de balas? A URSS sangrada podia acudir a outra frente? A indústria americana estava incólume e no auge do seu poderio, pronta a fornecer tudo e mais alguma coisa para afogar num banho de sangue uma revolução na Europa. A população europeia estava esgotada por 6 anos de guerra, de morticínios, de fome, de destruição. Havia forças morais para fazer e sustentar uma revolução socialista em toda a sua complexidade e profundidade? Logo em Agosto os imperialistas americanos lançaram a bomba atómica no Japão para aterrorizar as massas mais conscientes, as capazes de liderar e fazer a Revolução. Tudo isso pesou. Os partidos comunistas viram-se na necessidade de optar pelo programa mínimo. A burguesia, para não perder tudo, fez cedências e passou desde logo à contra-ofensiva.
          Acho que não podemos fazer esses juízos de valor. Podemos fazer uma análise das condições daquele tempo, no sentido de essa análise ser útil às gerações actuais de revolucionários. Toda a reflexão sobre o passado é útil para iluminar o caminho, não para esconjurarmos os fantasmas de eventuais fracassos dos que lutaram antes de nós.
          Por fim, quem derrotou e cilindrou o exército nazi – a maior máquina de guerra que já existiu – foi o Exército Vermelho, com a sua superioridade militar, a coragem dos seus combatentes e a capacidade do seu comando, com a superioridade do seu material de guerra, com uma coisa importantíssima chamada retaguarda, que era todo um povo socialista, com a superioridade demonstrada do Socialismo, não os ianques. Estes vieram recolher os despojos, assegurar que os gigantescos créditos que tinham concedido aos nazis e aos fascistas entre as duas guerras seriam recuperados e claro, socorrer a burguesia europeia em dificuldades face a uma possível revolução proletária, pelo menos em alguns países.

          3) A minha abordagem é moralista? E quando se afirma, como se fosse uma verdade canónica, que os partidos comunistas italiano e francês podiam ter feito isto e aquilo em 1945, isso não é moralismo? É evidente que a “porrada” como dizes, não torna por si só, justa nenhuma linha política: Mas não é menos verdade que a mesma “porrada” veio precisamente em consequência duma linha política justa, que era a da luta contra a ditadura fascista. A minha pobre abordagem apenas pretende frisar que, de maneiras diversas, os partidos comunistas lutaram e lutam por uma nova sociedade e pela revolução que lá pode conduzir. O problema da revolução não é pacífico no movimento revolucionário. Parece um paradoxo, mas é assim, como sabes. Partidos comunistas diversos defendem vias diversas para chegar ao poder (Quando digo partidos comunistas é isso que quero dizer: comunistas). São menos comunistas uns que os outros? O facto de um partido ter inscrito nos seus papéis que vai fazer a revolução ou que a defende, não garante que a faça ou que em dado momento a queira fazer, como o facto de não ter isso escrito taxativamente, não quer dizer que não a faça ou que não a queira fazer. O mesmo quanto à ditadura do proletariado. É preciso estar escrito, para que se leve à prática? Ou não será a prática, as acções, mais importante que as palavras e as declarações de intenções? (O traidor Gorbachov e os seus corifeus não destruíram a URSS invocando o marxismo-leninismo quase até ao fim? Por outro lado, a Revolução Cubana era socialista desde o início?).Por vezes, as condições internas dos países permitem e não permitem que se escreva isto ou aquilo. E apesar de tudo o que se possa dizer, a luta dos partidos comunistas é, antes de tudo nacional, dentro de cada país, o que não tem nada a ver com nacionalismo ou coisa que o valha, nem nunca pôs nem podia por em causa a existência do internacionalismo. O proletariado não vive nem luta no éter, mas no terreno de cada estado nação contra a “sua” burguesia, nas condições e com os constrangimentos concretos respectivos. E do das partes se faz o todo. A questão da coordenação, da Internacional, é outra e aí evidentemente, tirando o período da Internacional Comunista, há imenso a fazer.
          4) Essa do proletariado dos livros é das coisas mais anti-marxistas que existe – estou inteiramente de acordo. Como parece que não fui claro, passo a explicar. É simples. Marx e Engels, Lenine e outros, eram revolucionários práticos e teóricos, porque militantes políticos e intelectuais geniais e porque, como sabemos, não há teoria sem prática nem o contrário. Obviamente, o proletariado dos livros de que falo é uma imagem e não tem nada a ver com os livros que todos eles escreveram. Quando escrevi “o proletariado dos livros” quis só dizer que, por vezes, alguns intelectuais que se crêem comunistas e marxistas escrevem e agem como se houvesse um proletariado ideal, integralmente revolucionário, consciente, romântico. E não há. Há um proletariado explorado, e até com dificuldade em compreender que é explorado e que podia e devia não ser, sem consciência de classe, por vezes nem instinto de classe, enganado pelo sistema burguês de propagação da mentira em que vive, sujeito ao reino da necessidade, ao medo, de poucas letras, não sindicalizado, sem perspectivas, inculto e politicamente inculto. Foi e é isto que quero dizer e nada mais. Eu sou filho desse proletariado e digo isto sem nenhum menosprezo, nem para acusar a classe trabalhadora a que pertenço de ser incapaz, nem nada disso, mas com realismo. Há também um sub-proletariado e um lúmpen crescentes, no mundo contemporâneo, produtos do agudizar da exploração capitalista, que não é potencialmente revolucionário, o que dificulta as coisas ainda mais. (Mas é talvez isto que tu escarneces, ao falares duns tais que se preocupariam com o que chamas “o corpinho dos operários” e os “coitadinhos dos operários”…). Como é que os revolucionários mais conscientes e explicitamente os intelectuais que se proclamam de marxistas, utilizam os seus conhecimentos para explicar a este proletariado real a mecânica do mundo em que vivem e os mobilizam ou ajudam a organizar para a luta contra ele? É uma tarefa ingrata, não é verdade?
          Ao escrever aquilo do proletariado dos livros, não me passou pela cabeça nenhum daqueles adjectivos maniqueístas todos que enumeras na parte final da tua resposta, (os intelectuais republicanos de esquerda, a fé mística, as coisinhas urbanas e outras pachochadas), que és tu que dizes, não eu, que não escrevi nem pensei em nada daquilo e sou completamente estranho àquelas insinuações.
          Dou por terminada a minha intervenção, acidental, neste blogue, até porque não acredito na revolução via Internet.

    • Manuel Antunes diz:

      Os pc’s tinham desistido de lutar pela revolução? Tem juízo…

  4. Ferando simões diz:

    Os trabalhadores armados; a burguesia e a properiedade desfeitos, destruídos…?
    RV deve vogar no reino da fantasia.
    Os exércitos dos EUA , da GB e até da França, entretanto reconstruído, não estavam (e continuaram) armadíssimos e acantonados em toda a Europa ocidental?
    Os movimentos de Resistência e nem todos eram comunistas , note-se, estavam em condições de vencer aqueles exércitos?
    Cada um acredita nas estórias da carochinha que quer, agora pretender fazer História a partir destas tretas tem um nome feio. Muito feio.

    • Raquel Varela diz:

      Fernando,
      Veja, o exército da GB e da França tinha alguns generais e alguns oficiais, o resto eram trabalhadores, e uma boa parte, arrisco, dirigidos pelo PCF e pelo Labour.
      O dos EUA estava bem, sobretudo depois que o PC norte-americano apoiou Roosevelt e a entrada na guerra. Mas o EUA estavam fora da Europa. A menos que me queira convencer que os EUA iam fazer uma guerra civil na Europa.

      • Rocha diz:

        Olhe só o exemplo predilecto do que gostam de estalinismo actualmente: o Partido Comunista Grego. Após 1945 viu-se com uma ocupação militar britânica. Nunca aceitou essa ocupação e pegou na sua organização armada de resistência comunista e lançou uma duríssima guerra contra os ocupantes.

        A Raquel está aqui a meter tudo no mesmo saco. As posições dos partidos comunistas foram diferenciadas. Os Carrilhos e Berlingers só existiram na Espanha, Itália e França.

        Outra coisa. Nem os EUA estavam fora da Europa – então as tropas não significam controlo político está a brincar comigo? Nem a posição do PC norte-americano é para aqui chamada – o Partido Comunista dos Estados Unidos nunca foi minimamente importante ou influente como oposição política ou social ao regime. O sindicato anarquista Industrial Workers of the World é muito mais importante, sem ser nada de extraordinário.

      • A 1ª tentativa esta manhã não resultou. A ver se sai agora.
        Raquel,
        É História e está bem documentado.
        Em 1948 as tropas dos EUA estacionadas na Europa entraram em alerta máximo e prontidão de combate perante a perspectiva de formação em Itália de um governo liderado pelo PCI. E a 14 de Julho houve um atentado contra a vida de Palmiro Togliatti, secretário-geral do PCI, que o deixou vários dias entre a vida e a morte e a Itália à beira da guerra civil.

        • De diz:

          Plenamente de acordo.
          As estórias da carochinha que nos tentam contar.E o fazer História a partir destas?

          -Não “arrisco”(!). Mas não sou historiador-

  5. Carlos Carapeto diz:

    Os que acusam a URSS de traição à luta dos trabalhadores no pós guerra, são os mesmos que ainda hoje não se cansam em condenar até à exaustão as intervenções da União Soviética na Hungria e na Checolosvaquia.

    Quais trabalhadores em armas? Seriam todos comunistas os que participaram na resistência?

    Tenham um minimo de contenção com aquilo que escrevem (se não o fazem de propósito para confundir os menos informados).

    Até parece que desconhecem o caos social vivido em Itália e na França provocado por as tremendas campanhas de desinformação promovidas por o imperialismo?

    E qual era o interesse de Estaline (já que o acusam) em envolverer-se em novos conflitos?

    Ignoram do que constava a operação militar “O Impensável” ?

    Parece que desconhecem (pretendem esconder) que a União Soviética foi o país que mais sofreu com a guerra? Quem mais vitimas teve ( metade dos mortos no conflito, perdeu 1/8 da população) com a parte Europeia do território totalmente arrasada.

    Também não interessa dizer quem era nesse tempo o unico detentor da arma atómica.

  6. Pedro Pinto diz:

    não sou teu camarada…

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