Missão Troika/FMI – Transformar a Grécia (e os outros PIGS) em países estilo África Subsariana

Lembro-me de há uns anos ouvir conversas do estilo “hoje a opressão é mais subtil que noutros tempos, os mecanismos de exploração não são tão claros, já não há uma bastilha ou palácio de inverno identificável que se possa tomar”…

Bem, creio que nos dias que correm, ninguém se pode queixar desse problema. Tudo se está a tornar bem mais claro. Muitos à Esquerda têm vindo a afirmar que a UE e sobretudo as políticas da Troika, têm como um dos seus grandes objectivos a transformação dos países da periferia (os ditos PIGS ou PIIGS agora…) em países estilo república das bananas latino americana, ou estilo África subsariana.

Basicamente, elites corruptas controlam o país e actuam como capatazes de interesses estrangeiros, quer seja para extracção de matérias primas muito abaixo do que acontece em países desenvolvidos (que na maioria dos casos, basta pensar no Petróleo Norueguês, nem permitem a estrangeiros entrarem nesses mercados! ou se permitem cobram preços altíssimos, como é óbvio!), ou para a sobre exploração do trabalho. Para os exploradores estrangeiros sai bem mais em conta comprar a uma elite corrupta do que pagar o que é devido a um povo soberano e livre. Esta exploração da riqueza e trabalho alheio é possível, sobretudo, devido a dois factores interligados:

– As elites corruptas impõe regimes autoritários que aterrorizam o povo e para isso, sempre que preciso, contam com o auxílio dos seus mestres estrangeiros;

– As diferenças sociais são abissais, o poder e riqueza dos de cima é muitíssimo superior à da maioria da população e a classe média é quase inexistente. Para sobreviver a população muitas vezes tem de se subjugar às elites e mendigar por biscates ou esmolas. Em situações como essas, é sempre fácil por o nú contra o roto e é difícil às massas organizarem uma forte resistência. (embora esteja longe de ser impossível, como a História da América Latina o demonstra, mas quantas foram as Revoluções e insurrecções que triunfaram? E quantas foram esmagadas?)

Bem as políticas da Troika, objectivamente, vêm no sentido de transformar os PIIGS (onde essas características à partida são mais vincadas que no Norte da Europa) em países do estilo acima descrito. Primeiro emprestaram dinheiro para que se cria-se um mercado para os seus produtos, agora que isso está a dar o berro, é partir para a sobre-exploração do trabalho nos PIIGS. Estas propostas do IV Reich são muito claras, mais clara ainda foi a chefe do FMI. Aqui em mais detalhe Lagarde é muito explícita… Bem podem as crianças na Grécia sofrer, bem podem faltar medicamentos aos idosos, bem se podem estar a suicidar em catadupa… “Na Nigéria é pior”. Ficamos entendidos quanto aos objectivos da Troika e do FMI. Ficamos entendidos quanto ao preço a pagar pela Grécia & Cª LDA. O Preço a pagar à Troika e ao FMI será TUDO O QUE O FMI E A TROIKA CONSEGUIREM SUGAR AO POVO GREGO E RESTANTES PIIGS, TUDO ATÉ AO TUTANO DOS OSSOS. Porque se a situação for pior que na Nigéria, sempre poderão dizer que no Ruanda ainda é pior… Fica também claro que para o FMI um país pode pertencer à União Europeia e ter condições de vida e dinâmicas sociais equivalentes às da África subsariana. Qualquer ilusão na União Europeia como espécie de garante ou bastião dos direitos socais no mundo é simplesmente ridícula.

O auge do desplante é atingido quando Lagarde exige que os Gregos paguem os seus impostos… Mas pera lá, quem é que na Grécia foi responsável pela construção da Cleptocracia corrupa em que as elites não pagam impostos???? Os mesmos que Lagarde e Cª LDA querem, tudo por tudo, que ganhem as próximas eleições, ou seja ND+PASOK! E quem é que tem sido demonizado até mais não?  Exactamente as forças Gregas que poderiam acabar  com a pouca vergonha!

A sucessão de ameaças terroristas contra o povo Grego (para não falar de terrorismo puro e duro, como seria de prever), sendo expectável, não deixa de ser impressionante, até quem não está no Euro os ameaça com a expulsão! Mas pode bem acontecer que o feitiço se vire contra o feiticeiro, os ataques (alguns racistas) são de tal ordem descontrolados, que podem ter o efeito contrário ao desejado pelos autores. Não seria a primeira vez na história que tal sucederia…

Por estas e por outras, como aqui venho referindo, a solidariedade para com a escolha livre e democrática do povo Grego. A luta para que um Governo Anti-Troika surja após as eleições de dia 17 de Junho. É o evento absolutamente central na luta entre os povos e o Capital nas próximas semanas. E seja qual for o resultado, este terá consequências profundas nos próximos anos (para não dizer décadas). A solidariedade internacionalista para com o povo Grego é absolutamente necessária para que o combate à barbárie na Grécia, e aqui, seja bem sucedido.

Em boa hora o Comité para a Anulação da Dívida Pública Portuguesa anunciou uma concentração dia 17 no Rossio, mesmo dia das eleições na Grécia. Em boa hora foi lançado o Manifesto de Solidariedade para com o Povo Grego e a carta aberta Na Grécia, o povo é quem mais ordena.

Para finalizar devo dizer que a filosofia “Lagardiana” pode ser entendida de várias maneiras. Sei lá, se da próxima vez os “Amigos de Loukanikos“, ou outros que tais, pegarem fogo ou rebentarem um carro com a Lagarde lá dentro poderemos dizer “não tenho pena, morreu bem mais depressa que o Kadafi que foi espancado e empalado com uma faca”….

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15 respostas a Missão Troika/FMI – Transformar a Grécia (e os outros PIGS) em países estilo África Subsariana

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Totalmente de acordo. É empolgante, e ao mesmo tempo aterrador, que tanto esteja dependente do resultado das eleições na Grécia. Se o Syriza e outros partidos da esquerda conseguirem uma maioria para governar, terá sido dado o sinal de partida para a reconquista da Europa. Movimentos semelhantes noutros países, a começar pelo sul mas também na Holanda, irão derrubando os governos oligárquicos, irão assumindo o controlo dos aparelhos repressivos criados por essa oligarquia, tornando-os inofensivos, e poderemos esperar uma refundação da Europa, verdadeiramente democrática e livre da opressão capitalista.

    Mas se a Nova Democracia e o PASOK conseguirem, com alguns aliados oportunistas, reter o poder na Grécia, tudo se tornará mais difícil. Conquistar então o poder pela força, contra um aparelho de repressão sofisticado e fiel a quem lhe paga, iria então custar muito sangue e sofrimento, e não estou certo de que os gregos fossem bem sucedidos. E nós, em Portugal e nos outros países do sul, teríamos uma tarefa ciclópica pela frente.

    Pouco podemos fazer para ajudar a esquerda autêntica a vencer as eleições na Grécia, mas preparemo-nos pelo menos para lhes dar todo o nosso apoio, caso venham a vencer. Eles bem vão precisar dessa ajuda.

  2. Christine Lagarde dirigiu uma firma de advogados q trabalhava para o complexo militar-industrial dos EUA.
    O dinheiro da UE p modernizar a agricultura da Polónia foi desviado para a compra de aviões F16 aos EUA. Esse desvio deu origem ao referido negócio da compra dos F16, organizado por Christine Lagarde, como dirigente da referida firma de advogados, a corrupta dirigente do FMI.

    O plano de urgência de Outubro 2011, de países europeus e FMI de ajuda à Grécia coincidiu com o pedido de compra pela Grécia aos EUA de 400 tanques M1 Abrams e 20 viaturas anfíbias AA7VA1 por 1 280 milhões de euros. Os EUA aprovaram a venda.
    Mais em http://www.anticolonial21.blogspot.com

  3. Bruno A. diz:

    Este blogue é de excelente qualidade. Merece ser lido com atenção…

  4. Gentleman diz:

    Mais correctamente: “Lembro-me de hà uns anos…”

  5. um gajo qualquer diz:

    Ganda texto!

    E quando chegar a vez do povo fazer pagar as Lagarde, as Merkels, os Passos e os Relvinhas por todos os seus crimes hediondos, não vai cá haver ONGs, TPIs ou “direitos humanos”, apenas um paredão – de preferência branco.

  6. alias diz:

    Isto é mesmo à Lagarde(re)

    É fácil exigir aos outros que paguem, mesmo quando já o fizeram, quando a própria se encontra isenta:

    http://www.lemonde.fr/europe/article/2012/05/28/christine-lagarde-non-plus-ne-paie-pas-d-impots_1708654_3214.html

  7. JgMenos diz:

    Sou todo a favor de uma maioria de esquerda na Grécia; quero os gregos com um salário mínimo de 1.300 euros JÁ!
    Quanto mais depressa terminar este filme absurdo, tanto mais depressa se poderá pensar em soluções.
    E subscrevo inteiramente que “O auge do desplante é atingido quando Lagarde exige que os Gregos paguem os seus impostos…”; Nem pensar nisso, era o que faltava transformar a Grécia num Estado regulado! ainda acabavam por continuar este filme por mais tempo…

    • franciscofurtado diz:

      Ó Jg, leste isto:

      Mas pera lá, quem é que na Grécia foi responsável pela construção da Cleptocracia corrupa em que as elites não pagam impostos???? Os mesmos que Lagarde e Cª LDA querem, tudo por tudo, que ganhem as próximas eleições, ou seja ND+PASOK! E quem é que tem sido demonizado até mais não? Exactamente as forças Gregas que poderiam acabar com a pouca vergonha!

      Ou seja, defendes a vitória da Syriza que quer levantar imunidades parlamentares e afins e combater a fraude fiscal. Defendes isso. Não defendes a manutenção no poder dos oligarcas corruptos, cleptocratas que promoveram a fuga ao fisco por parte das elites Gregas? Ou bem que és contra a fuga ao fisco e queres uma revolução na Grécia e a prisão para a malta ND+PASOK responsável pelo estado de coisas. Ou és um puro hipócrita, cínico e mentiroso que fala da fuga ao fisco mas depois quer que se mantenha no poder exactamente quem promoveu a cultura da fuga ao fisco.

  8. Caxineiro diz:

    Está aí tudo, ou quase tudo
    Grande post

  9. Rocha diz:

    Quando falamos de Syrizas e afins não estamos a falar de forças revolucionárias, e no entanto toda e qualquer força que procure reformas progressistas no momento que estamos a viver dentro da União “Esclavagista” Europeia produz um efeito de reforço do desnorte, divisões e ingovernabilidade da classe dominante europeia.

    Da boca do novo fenómeno de popularidade Tsipras saem palavras francamente honestas sobre a natureza da chamada “austeridade”, sinceramente diz Tsipras “é uma guerra de classes”, “guerra de classes” e não “guerra de povos”. Certo, mas daqui Tsipras parte para – sim não esquecendo que também quer romper o memorando e a Troika – “salvar o euro”. Sim isso mesmo “salvar o euro”. Ora bem isto é como desmascarar totalmente o carácter ditatorial do capitalismo e depois entrar em negociações com ele para o salvar.

    Não admira que Tsipras admire Chávez. O “carisma” chavista acenta-lhe que nem uma luva enchendo a boca com a revolução nos mais fortes termos e defendendo a social-democracia capitalista na prática e no essencial.

    E no entanto com ou sem consciência disso Tsipras contribui para um choque entre a Europa do sul, periférica e de leste com as potências do centro-norte. E no entanto com ou sem consciência disso o Syriza integra-se num movimento histórico europeu que quer queiram quer não tende ao desmembramento e conflicto dentro do projecto burguês falido da União Europeia.

    Tal como Fidel chamava “ministério das colónias” a Organização de Estados Americanos (OEA, dominada pelos Estados Unidos) e Chávez repetiu. Também Tsipras terá pela própria força das circunstâncias de chamar “ministério das colónias” à União Europeia, dominada pela Alemanha, França e de certa forma pelo Reino Unido tendo em consideração que a NATO é o seu braço armado.

    Mas falemos de novidades:
    Movimento 5 Stelle
    Sinn Fein
    Partido Socialista (holandês)
    Amaiur
    Partido Nacionalista Escocês
    AKEL

    6 notas breves:
    1 – O Movimento 5 Stelle- ainda é ideologicamente algo misterioso para mim – tenho procurado com pouco êxito informar-me mas suspeito que muito da sua retórica tenha tido origem nos chamados “indignados” (tem todo o estilo de movimento “indignado”). A Refundação Comunista chama-lhe um movimento anti-partidos e de facto o seu líder tem muito o estilo do nosso madeirense José Manuel Coelho. A wikipedia regista o M5E como libertário, decrescentista, ecologista, anti-corrupção e eurocéptico. Note-se que considero todos estas características como progressistas mas o que realmente faz aqui a diferença é o eurocéptico – citando o seu líder Beppe Grilo “a Itália deve sair do Euro”. Bastante claro hem?
    Uma sondagem de 21 de Maio do corrente dá pela primeira vez o segundo lugar ao M5E (18%) ultrapassando o PdL berlusconiano (17%) e ficando pouco atrás do Partido Democrata (26%) – este último a expressão da total capitulação capitalista do chamado “eurocomunismo”.

    2 – O Sinn Fein dispensa apresentações. É socialista/reformista e francamente eurocéptico. Está em sgundo lugar nas sondagens à vários meses (a superar os 20%). É também o princiapal rosto da campanha do Não no referendo em relação Mecanismo de Estabilidade Europeu (o pacto da Forca) amanhã na Irlanda.

    3 – O Partido Socialista holandês faz-me lembrar o Bloco de Esquerda. Do pouco que sei é bastante reformista (gosta muito de negociar com outros partidos) mas pelo menos também é bastante eurocéptico. Há sondagens que lhe dão o primeiro e outras que lhe dão o segundo lugar (entre 27 e 30%) nas eleições antecipadas de Setembro deste ano – curiosamente por causa de um programa de austeridade rejeitado no parlamento. Espera-se o caos e a ingovernabilidade num dos poucos países “menino bonito” da UE. E como os companheiros belgas sabem muito bem melhor que um governo burguês é não ter governo nenhum.

    4 – Ao contrário de outros partidos e movimentos que mencionei até agora, Amaiur tem pelo menos uma facção maioritária que é revolucionária (o seu objectivo é Socialismo e Independência). Trata-se da coligação da esquerda inpendentista basca, lidera pela sua facção maioritária a Esquerda Abertzale. As sondagens dão uma luta taco a taco entre Amaiur e o Partido Nacionalista Basco nas próximas eleições para o parlamento basco (entre 27% de uns e 29% de outros). O terremoto da vitória de uma força ainda duramente reprimida e parcialmente ilegalizada é altamente provável. Além disso Amaiur é na luta social e sindical, nas ruas, uma força que está na vanguarda da luta de classes de todo o Estado Espanhol.

    5 – Pouco gente conhecerá o Partido Nacionalista Escocês. De resto o seu reformismo, abertamente social-democrata até é muito pouco recomendável. Mas a questão de tenha ganho uma maioria absoluta nas recentes eleições do parlamento escocês, é bastante interessante para confirmar a tendência que dentro e fora da zona euro, dentro e fora da UE, a Europa caminha rumo ao desmembramento. É uma tendência história, goste-se ou não. E tem razões progressistas que se prendem com a auto-determinação dos povos.

    6 – Finalmente o AKEL, é o Partido Comunista Cipriota (uma nação altamente irmanada histórica e culturalmente à Grécia) está no poder. É a principal força do governo de coligação cipriota. Com um pouco mais sorte eleitoral, o AKEL segue o mesmo percurso de conciliação de classe e compromisso institucional que seguiu o eurocomunista (e defunto) Partido Comunista Italiano. O desfecho pode ser igualmente trágico. Mas enquanto o pau vai e vem o AKEL contribui mais ainda para a confusão e ingovernabilidade dentro da União Europeia.

  10. O Rural diz:

    Aos europeistas tugas só lhe faltam asinhas.

    Mas que parvalhões!

  11. Tamesha Miesch diz:

    Obrigado por escrever sobre isso. Seu artigo me ajudou a fazer um trabalho de casa

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