Uma petição a assinar

O Bairro dos Índios da Meia Praia fica ali mesmo, mesmo juntinho ao mar. É inconcebível para os dias de hoje construir tão perto do mar… Acontece que estas pessoas estão aqui há 40 anos como bairro, 80 anos em palhotas e barracas. São pescadores. Vivem do mar. Um deles, numa entrevista à televisão, disse: “Para onde me querem levar se eu nasci no mar?”. Se as construções na orla marítima se restringissem às comunidades piscatórias que tradicionalmente aí se instalaram Portugal seria, de facto, a este nível, um país exemplar. Pelo contrário, não preciso de descrever o que se passa em Lagos e no resto do pais, pois não? Por todo o lado se vêem construções em cima do mar, edificadas num tempo em que já não era possível fazer… Mas foi.

Dizer que estas pessoas não podem viver aqui por razões ecológicas é tão disparatado como chegar à pré-história e dizer às comunidades mesolíticas que não apanhem tantos moluscos pois estão a dar cabo do marisco que será necessário para os ricos do século XXI fazer uma recolha sustentável do mesmo.

ACABEMOS COM A HIPOCRISIA PÔRRA!

Teresa Silva, no facebook sobre a petição que deixo abaixo:

O Bairro dos Índios da Meia Praia, situado em Lagos, foi construído imediatamente após o 25 de Abril de 1974 pelas próprias mãos dos seus habitantes que viviam em barracas, no mesmo local, havia cerca de 40 anos. Tratava-se de uma comunidade piscatória, muito pobre e explorada que, com a iniciativa do Arquiteto José Veloso e com o financiamento do estado – através de um programa denominado S.A.A.L. – conseguiu construir as suas próprias casas. Este foi apenas um dos cerca de centena e meia de bairros construídos no âmbito do programa SAAL mas, por qualquer razão, sofreu revezes desde o início, sendo o projeto abandonado, ostracizado, nunca chegando a ser concluído e nem sequer as suas ruas pavimentadas! Outros bairros similares encontram-se hoje em ótimo estado de conservação e são tratados como outro bairro qualquer. Porque razão este há-de ser diferente? 
Este bairro é, paradoxalmente, bem mais conhecido que todos os outros. Foi cantado pelo José Afonso no seu tema “Os Índios da Meia Praia” e sobre ele o realizador Cunha Telles fez uma longa metragem denominada “Continuar a Viver”. Talvez por isso se tenha tornado um símbolo da força da união, da solidariedade e do trabalho. E para quem gosta de arrumar tudo em gavetas para depois as poder fechar, conotado com a esquerda ou até com um partido. 
Urge ter, para com um símbolo desta dimensão, uma atitude de respeito e de grandeza. Constituiu acima de tudo um marco da nossa história. É assim que deve ser visto, com respeito pelas pessoas que há gerações habitam no local, com respeito pelo nosso passado de luta pela liberdade. 
A pressão imobiliária no local é enorme e deve causar incómodo a muita gente que haja pobres a viver com vista para o mar. Aquilo que pedimos é, não apenas que o bairro não seja demolido e apagado da nossa história recente. Aquilo que pedimos é que a este bairro seja restituída a dignidade que marca o carácter de quem o construiu. Que seja conservado e requalificado respeitando o projeto de arquitetura que lhe deu origem! Que seja respeitada a história do nosso país!

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