Nick Hanauer, a conferência que a TED Talks não quer publicar

P.S. 01. (Tradução via Joana Manuel)
‎”É espantosa a forma significativa como uma ideia pode moldar uma sociedade e as suas políticas. Vejam este exemplo:
Se os impostos dos ricos subirem, a criação de emprego diminui
Esta ideia é um dogma de fé para os republicanos americanos que só raramente é contraposta pelos democratas e tem moldado grande parte do nosso panorama económico.
Mas por vezes ideias que tomamos como verdadeiras estão fundamentalmente erradas. Durante milhares de anos acreditou-se que a Terra girava em torno do Sol. Não é verdade, e um astrónomo que ainda acredite nisso não será muito bom na sua profissão.
Eu iniciei, ou ajudei a iniciar, dezenas de empreendimentos que começaram por contratar imensa gente. Mas sem ninguem nem que tenha poder de compra para comprar o que tinhamos para vender, todos os meus negócios teriam fracassado, e todos esses postos de trabalho ter-se-iam evaporado.
É por isso que posso dizer com segurança que os ricos não criam emprego, nem sequer as empresas, pequenas ou grandes. O que leva a maior emprego é um cíclo vicioso entre clientes e empresas semelhante ao ciclo da vida. E apenas os consumidores podem iniciar esse ciclo virtuoso de aumento de procura, o que leva à contratação. Neste sentido, um consumidor normal de classe média é um “criador de emprego” bem maior que um capitalista como eu.
Por isso, quando homens de negócios se congratulam por criar emprego, é como esquilos congratularem-se pela evolução das espécies. Na verdade, o sentido é inverso.
Toda a gente que tenha um negócio sabe que a contratação é o último recurso de um capitalista, algo que fazemos apenas quando o aumento da procura o exige. E neste sentido, chamar-nos de criadores de emprego é falacioso.
É por isso que as nossas políticas correntes estão todas ao contrário. Quando temos um sistema fiscal em que a maioria das isenções e as taxas mais baixas beneficiam os ricos, tudo em nome da “criação de emprego”, a única consequência é os ricos ficarem mais ricos.
Desde 1980 que a percentagem de receitas para os americanos mais ricos mais que triplicou, enquanto a sua carga fiscal diminuiu cerca de 50%.
Se fosse verdade que impostos mais baixos e mais riqueza para os ricos leva à criação de emprego, então estariamos a nadar em empregos. E, no entanto, o desemprego e a precariedade estão a níveis recorde.
Outro motivo pelo qual esta ideia é tão errada é o facto de não ser possível a existência de ultra milionários em número suficiente para dinamizar a economia. O rendimento anual de pessoas como eu é centenas, se não milhares de vezes superior ao do americano médio, mas nós milionários não consumimos centenas ou milhares de vezes mais coisas. A minha familia tem três carros, não 3.000. Compro alguns pares de calças e algumas camisas ao ano, tal como o americano comum. E tal como o americano comum, saio para jantar com a minha familia e amigos apenas ocasionalmente.
Não posso comprar coisas que cheguem para compensar o facto de milhões de desempregados e precários americanos não conseguirem comprar roupa, ou carros, ou poder ir jantar fora. Ou para compensar o consumo decrescente da vasta maioria de americanos que vivem com o orçamento à justa, enterrados numa espiral de preços cada vez mais altos e salários estagnados ou em recessão.
Eis um facto incrível: Se a família americana típica ganhasse percentualmente o mesmo que em 1980, teriam salários 25% mais elevados, e correspondente em média a uns espantosos $13.000 a mais por ano. E como estaria a economia se fosse esse o caso?
Capitalistas como eu receberam privilégios significativos por sermos vistos como “criadores de emprego”, no centro do universo económico, e a linguagem e as metáforas que usamos para defender a justiça da corrente situação socioeconómica diz muito. É um pequeno passo de “criador de emprego” a “O Criador”. A escolha de palavras não é acidental, e há que ter a honestidade de admitir que chamarmo-nos a nós mesmos “criadores de emprego” é uma afirmação sobre o funcionamento da nossa economia que nos confere estatuto e privilégios.
O diferencial extraordinário entre uma taxa de 15% em ganhos capitais, dividendos e jutos acumulados para os capitalistas e uma taxa marginal de topo de 35% para o americano comum é um privilégio difícil de aceitar sem um toque de endeusamento.
Percebemos tudo ao contrário nos últimos 30 anos. Homens de negócios ricos como eu não criam empregos. São, ao invés disso, a consequência de um feedback eco-sistemico sustentado e animado pelos consumidores de classe média, que são a razão que fazem os negócios prosperar, as empresas crescer e contratar, e os seus donos lucrar. É por isso que taxar os ricos para realizar investimentos para benefício de todos é um excelente negócio tanto para ricos como para a classe média.
Portanto, eis uma ideia que vale a pena espalhar:
Numa economia capitalista, os verdadeiros criadores de emprego são os consumidores, a classe média. E taxar os ricos para realizar investimentos que fortaleçam a classe média é pura e simplesmente a coisa mais inteligente que podemos fazer pela classe média, pelos pobres e pelos ricos.
Obrigado.”

P.s. 02. (via Artur Neves)
TED Finally Posted The Income Inequality Speech You Weren’t Supposed To See

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21 Respostas a Nick Hanauer, a conferência que a TED Talks não quer publicar

  1. anónimo diz:

    funny, because it’s true…

  2. De diz:

    Muito bom post.
    (que também revela até onde a TED não está disposta a ir.Os responsáveis da fundação privada recusam-se a publicar o vídeo da palestra, por considerá-la “muito politizada” )

  3. Baresi88 diz:

    Não se arranja um vídeo com legendas? Isto para um parvo como eu que devia conseguir entender tudo e não entende e precisa de legendas.

  4. Miguel Azevedo diz:

    Uma tradução bastante criativa de uma conferência disparatada

    That’s why I can say with confidence that rich people don’t create jobs, nor do businesses, large or small. What does lead to more employment is a “circle of life” like feedback loop between customers and businesses. And only consumers can set in motion this virtuous cycle of increasing demand and hiring.

    “É por isso que posso dizer com segurança que os ricos não criam emprego, nem sequer as empresas, pequenas ou grandes. O que leva a maior emprego é um cíclo VICIOSO entre clientes e empresas semelhante ao ciclo da vida. E apenas os consumidores podem iniciar esse ciclo VIRTUOSO de aumento de procura, o que leva à contratação”.

    • Jos van Beek diz:

      E outra coisa: sera que a tradutora realmente nao se da conta que ela tem o sol e a terra trocados..

  5. Horizonte XXI diz:

    O mesmo se pode aplicar ao facto de existirem impostos, é o mesmo ciclo vicioso, os impostos são imorais, principalmente o imposto sobre o trabalho, cobram-se impostos para originar estruturas, que justificarão mais cobrança de impostos, que irão originar mais estruturas, and so on and so on.

  6. Zuruspa diz:

    Errata:
    “O que leva a maior emprego é um cíclo virtuoso entre clientes e empresas semelhante ao ciclo da vida. ”

    Se bem que daí para a frente está o termo correcto.

  7. Mario diz:

    Atenção, o orador é muito claro: isto não vai acabar com ricos e pobres. Nem tornar os ricos menos ricos, pelo contrário.

    • Zuruspa diz:

      A ideia também näo é essa.
      Mas daí, discordo: isto vai acabar com muitos dos pobres, porque passaräo a ser classe média, que foi o contrário do que aconteceu nos últimos 30 anos, em que muita da classe média passou a pobre. Com particular incidência desde 2008, quando o “crédito fácil” que escondia essa realidade acabou.

      • antónimo diz:

        Bem, discordo. Nos últimos 30 anos muitos pobre passaram a classe média. Desde 2003, o ano da tanga, muita classe média tem vindo a passar a pobre, muita dela regressando ao ponto onde estiveram os seus pais e avós e levando muita outra gente com ela.

  8. AMD diz:

    “Durante milhares de anos acreditou-se que a Terra girava em torno do Sol”

    Quem é que fez a tradução? O que orador diz é precisamente o contrário!

    • Tiago de Lemos Peixoto diz:

      A tradução foi minha e feita em cima do joelho às 3 da manhã de segunda feira após uma reunião, e foi publicada em adenda à nota com o texto original no meu facebook carecendo de qualquer revisão. Fica aqui o mea culpa pelos mesmos. Mais que a pressa, o sono pode ser inimigo da perfeição.

  9. ricardo diz:

    Economia, não é tão fácil, quando não é codificada por economistas?

  10. prometeus diz:

    Ou seja, o mercado é a solução, não o anti-capitalismo, que no consumo teria o mesmo efeito que a acumulação de capital “lá em cima”, como nos EUA, de hoje, no estado, como na economia socialista. Não será esta a conclusão?

  11. Tiago de Lemos Peixoto diz:

    Dois apontamentos:

    mea culpa sobre erros na tradução, que foi feita às tantas da manhã e com o cansaço a tomar precedência. Foi publicado “como estava” sem revisão nenhuma em conversa facebookiana e acabou por ser partilhado antes de levar a revisão devida de algumas parvoices que só o sono pode explicar.

    O valor do texto reside logo no facto de, apesar da sua simplicidade e de não trazer nada de novo, ter sido censurado inicialmente. E porque demonstra a facilidade com que se destroem os mitos do empreendedorismo, dos magnatas como os grandes criadores de emprego.

  12. Vítor Israel diz:

    Muito bom. De tão bom que está escapou-me este pormenor no texto traduzido, onde se lê “acreditou-se que a Terra girava em torno do Sol” deve-se ler “acreditou-se que a Terra era o centro do Universo”.

    • Tiago de Lemos Peixoto diz:

      Ver o comentário acima sobre traduções feitas às 2 da manhã sem revisão e em cima do joelho.

      Já agora aproveito para dizer que a tradução foi da versão escrita antes do acesso à versão original e que a versão escrita em inglês dizia, de facto, a virtuous cycle.

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