“25 de Abril sobre 20 de Maio – uma vitória política.”*

“Desde o fim da adolescência que juntei a minha voz à daqueles que denunciam a vergonha do esmagamento que o “futebol” opera sobre a sociedade portuguesa. Seja pelo destaque noticioso nos media generalistas dado ao mundo da bola ser algo para mim incompreensível e pernicioso para a sociedade, seja porque os desmandos urbanísticos por conta do financiamento do futebol são a regra nacional, com cumes elevados nas encostas de Coimbra… O certo é que sempre me recusei a assistir a um jogo do Organismo Autónomo de Futebol da minha querida Associação Académica de Coimbra.

Aquando do falecimento do João Mesquita, dei comigo a pensar que aquele amigo merecia uma alteração da minha recusa… e nada… não havia forma de dar o passo em frente.

Foi preciso o País chegar ao ponto a que chegou para eu me decidir a ir à bola! E porquê? Pela urgência cívica de recriarmos contemporaneamente a final de 69, como denúncia de um regime caduco…

Era preciso passar a meia final! Não podia ficar em casa à espera do desfecho. Primeira mão da meia final da Taça de Portugal, Estádio Cidade de Coimbra, eis o meu primeiro jogo a berrar pela equipa do OAF… fraco jogo aquele, a eliminatória tremida. A minha ida à segunda mão, em territórios da Sanjoanense, tornava-se imperiosa, era preciso empurrar a equipa para a Final. Conseguiram. Já pude dizer conseguimos! E vamos ganhar a Taça de Portugal! Melhor dizendo, podemos ganhar a Taça… só depende do que todos nós fizermos até lá.

O primeiro passo está dado: a Assembleia Magna deliberou que a AAC deve  protestar veementemente contra o estado a que o Ensino Superior chegou. A Cidade de Coimbra, também ela, deve encontrar a sua bandeira política para levar ao Jamor e com ela cativar o País para a sua causa!

O 25 de Abril de 74 foi o epílogo de uma torrente de insatisfação que crescentemente larvava na sociedade portuguesa e da qual, a Final de 69, foi uma demonstração inequívoca. O País fez desse epílogo aquilo que quis, mas hoje, 38 anos passados, a insatisfação é igualmente crescente e opressiva do nosso quotidiano, esmagados pela voragem dos impostos, e pela sua aplicação de forma concentracionária! Urge exigir um outro Regime! O aumento da proximidade das decisões de investimento público aos cidadãos que dela mais directamente beneficiarão é uma das promessas de Abril nunca ensaiada, o fim do hiper-centralismo de Lisboa será uma alavanca poderosa de progresso do País, exija-se a desconcentração radical das estruturas públicas ou associadas ao serviço público nefastamente assentes em Lisboa!

Descentralizar é Democratizar poderia ser a bandeira de Coimbra na Final de 2012, e com isso, Coimbra levaria outras regiões do País à Final, e com milhares nas bancadas pedindo o mesmo, eu sei quem ganharia a Final…e tal como em 69, no fim do jogo, mesmo que o marcador nos quisesse enganar, todos nós saberíamos quem ganharia a memória futura: os jogadores da Briosa, enlutados pelo País a que chegamos, os seus treinadores e dirigentes que compreenderam a importância política do feito desportivo alcançado, a AAC que já deu o pontapé de saída para a operação Jamor 2012, os eleitos autárquicos de Coimbra que souberam definir uma estratégia de reinvindicação sua, mas solidária com o País, e, finalmente, aqueles que estiverem no Jamor, dentro ou fora do Estádio, a verem a Briosa jogar mas a exigirem aquilo a que têm direito e que lhes continua sempre a ser negado: Descentralização Já! Eu já tenho bilhete…vamo-nos a eles?”

*Um chamado do Luís Sousa, publicado originalmente no Diário de Coimbra.

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3 respostas a “25 de Abril sobre 20 de Maio – uma vitória política.”*

  1. antónimo diz:

    Ainda pensei que o foco fosse a crise.

    Afinal é uma contestação regionalista, desaproveitando – ou aproveitando escassamente – um momento único.

    Quanto ao João Mesquita, Sempre!

    • Luís Sousa diz:

      Caro “antónimo”,
      se não lhe parece que a expressão “Pela urgência cívica de recriarmos contemporaneamente a final de 69, como denúncia de um regime caduco…” esteja associada ao momento de crise que vivemos é porque poderá estar a ver a crise com um olhar demasiado estreito…a crise bate com a força que bate porque a Terceira República (ou Quarta, como apetecer…) atingiu o grau de podridão a que assistimos…está caduca! …se isto não é a verdadeira crise…
      Quanto “à contestação regionalista” só lhe posso dizer que tal como alguns defendem a saída da Alemanha do Euro, atendendo à barbárie macrocéfala reinante, perniciosa inclusivé para Lisboa, não se admire se um destes dias alguém tratar de expulsar Lisboa (a do eucalipto que tudo seca…) de Portugal!!!!! Vê-mo-nos no sector…por trás duma faixa verde e vermelha!!!! Vais estar atrás de alguma? Ou estás satisfeito com o rumo das coisas e vais é ver um jogo de bola? Com os melhores cumprimentos.

      • antónimo diz:

        Caro Luís Sousa,

        É justamente essa dissociação entre a primeira e a segunda parte que estranho. Acho a motivação e a causa justa mas, e é esse exactamente o termo, estreita. Começo a ler bem lançado e…

        Não sou dos que grita Nem Mais um Aeroporto Construído na Ota Enquanto Houver Uma Criança Com Fome em Portugal (e note-se que sou até contra a construção de outro aeroporto). Há muitas frentes onde se tem de agir. mas a causa em 1969 era mais ampla.

        Aqui, considero que os termos em que a questão é posta afunilam mesmo e podem até desconvocar muitos convocáveis. Espero, no entanto que seja um sucesso.

        (Quanto a uma coisa não tenho dúvidas: O João Mesquita sim, merece sempre ser evocado, homenageado, celebrado).

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