Uma Esquerda de combate!

Já muito se escreveu por aqui (e ainda aqui e aqui) e por ali (e ali) sobre o Manifesto que a foi hoje apresentado no S. Jorge, em Lisboa.

Peço emprestada ao Vítor Dias uma ideia que subscrevo na íntegra e que aqui deixo como uma espécie de declaração de interesses:

Começo por formular o voto de que os autores e subscritores do Manifesto interiorizem e exteriorizem bem a ideia de quem assina manifestos públicos com este conteúdo e formulações, perante os comentários críticos que este receba, ultrapassem a tendência que há em todos nós para o melindre, a susceptibilidade e a irritação. E que tenham o «fair-play» de perceber que se podem escrever indirectamente que eu pertenço a uma esquerda da «inconsequência» então eu também tenho direito de lhes responder pelo menos com palavras tão directas e fortes como as que usaram.

Não pretendo menosprezar a iniciativa. Não faz sentido que o faça e considero válidas e importantes todas as movimentações que sejam agregadoras da malta de Esquerda. Deixo claro que reconheço que há ali gente convicta de que aquele é o caminho. E deixo claro que, para mim, não é de todo claro que essa seja a convicção de todos os que fazem parte do grupo inicial de subscritores. O envolvimento do Daniel Oliveira na coisa, a seis meses da Convenção do BE, representa uma afirmação clara de uma opção que para muitos bloquistas não merece o esforço de uma repetição. A aproximação ao PS, feita pela cúpula, não resultou com Alegre e não há nada, de então para cá, que justifique a insistência numa táctica tentada e falhada. Dir-me-ão que os tempos mudaram e que o que não funcionou então poderá funcionar agora. Cá estaremos para ver e para o saudar, caso aconteça. Sendo certo que acredito na sinceridade do que o Daniel aqui diz. Com base nessa confiança, desejo que o processo de discussão que nos levará até à Convenção represente para o Daniel Oliveira um exercício de liberdade. Chegados à Convenção, se vir as suas teses serem rejeitadas mantenha, ainda assim, a vontade agregadora que demonstra hoje. Ainda que o Daniel não seja um político («Só que eu não sou político»). Pois não.

Ou então não vá. Sinta-se livre para decidir.

O Manifesto conta já com mais de 1500 subscritores. São mais de mil homens e mulheres que responderam a um apelo e que, independentemente do que acima escrevo, estão do lado certo da luta. Embora seja muito previsível que em certos casos é maior a probabilidade de virmos a encontrá-los mais vezes do lado de lá das barricadas do que do lado de cá. É, também, um dado importante a significativa ausência de militantes comunistas no rol. Não digo que não estejam lá, não os conheço a todos. Mas daqueles cujo nome seja facilmente reconhecível nem um para amostra. E unir a Esquerda, em torno do que quer que seja, deixando de fora o PCP não é sério.

Digno de registo é o facto de até ao momento não haver ainda notícias da bênção de Soares e da adesão entusiástica do Fernando Nobre.

Sério também não é partir do pressuposto/preconceito de que «a esquerda está dividida entre a moleza e a inconsequência». Em política, mais do que no resto, as generalizações são perigosas. Esta é a prova evidente disso mesmo. Mas, mais do que perigosa e nada séria, esta é uma generalização que ofende os muitos e muitas militantes e lutadores de Esquerda que, em Portugal e na Europa, todos os dias combatem, em condições cada vez mais difíceis, esta austeridade e o Capitalismo. Seja ele ou não de rosto humanitário. O Capitalismo pode até pretender ter vários rostos, mas sabemos que em mente tem um objectivo fundamental e esse é o do seu fortalecimento.

Posto isto, chega a hora de também eu dizer que quero uma Esquerda livre. Livre do preconceito de que a Esquerda não é livre. Livre da ideia de que só existirá uma Esquerda livre quando esta for aquilo que EU/TU/ELE queremos que seja. Livre, enfim, das amarras que nos impedem de pôr de lado as nossas divergências e juntar forças por tudo aquilo que nos une.

A esta Esquerda que hoje se apresenta eu não viro as costas. Espero é que digam igualmente «presente» se e quando o apelo for por uma Esquerda de combate!

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